Tempos de crise

Perante o grande acúmulo de denúncias de abusos sexuais com crianças, praticados, durante décadas, por membros do clero católico, o Papa decidiu escrever e publicar, em 19 de março, uma Carta Pastoral dirigida aos católicos da Irlanda, país onde ultimamente o escândalo veio à luz com características singularmente graves.

Conheça pontos da “CARTA DO PAPA AOS CATÓLICOS IRLANDESES”.

                                                                                                                                                                       Por: Luís Guerreiro

AQUI ALGUNS EXCERTOS

1. Amados irmãos e irmãs da Igreja na Irlanda, é com grande preocupação que vos escrevo como Pastor da Igreja universal. Como vós, fiquei também profundamente abalado com as notícias sobre o abuso de crianças e jovens indefesos por parte de membros da Igreja na Irlanda, principalmente sacerdotes e religiosos.

2. Por meu lado, considerando a gravidade destas culpas e a resposta, muitas vezes inadequada, com que foram enfrentadas pelas autoridades eclesiásticas no vosso país, decidi escrever esta Carta Pastoral para vos expressar a minha proximidade e para vos propor um caminho de cura, de renovação e de reparação.

3.Na realidade, como muitos no vosso país revelaram, o problema do abuso de menores não é específico nem da Irlanda nem da Igreja. Contudo, a tarefa que agora tendes à vossa frente é a de afrontar o problema dos abusos que se verificaram no âmbito da comunidade católica irlandesa e de o fazer com coragem e determinação.

4. Nos últimos decênios, a Igreja no vosso país teve que se confrontar com novos e graves desafios à fé que surgiram da rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa. Verificou-se uma mudança social muito rápida que muitas vezes atingiu com efeitos hostis a tradicional adesão do povo ao ensinamento e aos valores católicos.

5. Em diversas ocasiões desde a minha eleição para a Sé de Pedro, me encontrei com as vítimas de abusos sexuais e estou disponível a fazê-lo no futuro… Dirijo-me agora a vós com palavras que me vêm do coração e desejo falar a cada um de vós individualmente e a todos como irmãos e irmãs no Senhor.

6. Às vítimas de abuso e às suas famílias

Sofrestes tremendamente e sinto por isso profundo desgosto. Sei que nada pode cancelar o mal que suportastes. Foi traída a vossa confiança e violada a vossa dignidade. Muitos de vós tivestes de experimentar que, quando encontraram a coragem suficiente para falar do que lhes tinha acontecido, ninguém os quis ouvir. Aqueles de vós a quem isso aconteceu em residências e internatos, tiveram de sentir que não havia nenhuma saída para o seu sofrimento. É compreensível que vos seja difícil perdoar ou reconciliar-vos com a Igreja. Em seu nome, expresso abertamente a vergonha e o remorso que todos sentimos. Ao mesmo tempo peço-vos que não percais a esperança.

7. Aos sacerdotes e aos religiosos que abusaram dos jovens

Traístes a confiança que os jovens inocentes e os seus pais tinham em vós. Por isso deveis responder diante de Deus onipotente, assim como perante os tribunais devidamente constituídos. Perdestes a estima do povo da Irlanda e lançastes a vergonha e a desonra sobre os vossos irmãos. Aqueles de entre vós que são padres violaram a santidade do sacramento da Ordem, no qual o próprio Cristo se torna presente em nós e em nossas ações. Juntamente com o enorme dano causado às vítimas, foi perpetrado um grande dano à Igreja e à percepção pública do sacerdócio e da vida religiosa.
Exorto-vos a examinar a vossa consciência, a assumir a vossa responsabilidade dos pecados que cometestes e a expressar com humildade o vosso pesar. O arrependimento sincero abre a porta ao perdão de Deus e à graça da verdadeira emenda…. Reconhecei abertamente a vossa culpa, submetei-vos às exigências da justiça, mas não desespereis da misericórdia de Deus.

8. Aos pais

Ficastes profundamente consternados ao tomar conhecimento das coisas terríveis que tiveram lugar naquele que deveria ter sido o ambiente mais seguro para todos… Exorto-vos a fazer a vossa parte para garantir a melhor cura possível dos jovens, quer em casa, quer na sociedade em geral, enquanto a Igreja , por seu lado, continua a pôr em prática as medidas adotadas nos últimos anos para tutelar os jovens nas paróquias e nas escolas.

9. Aos meninos e aos jovens da Irlanda

A vossa experiência de Igreja é muito diferente da que fizeram os vossos pais e avós. O mundo mudou muito desde quando eles tinham a vossa idade. Não obstante, todos, em cada geração, estão chamados a percorrer o mesmo caminho da vida, sejam quais forem as circunstâncias. Todos estamos escandalizados com os pecados e as falências de alguns membros da Igreja, sobretudo daqueles que foram especialmente escolhidos para guiar e servir os jovens. Mas é na Igreja que encontrareis Jesus Cristo, que é o mesmo ontem, hoje e sempre. Ele ama-vos…

10. Aos sacerdotes e aos religiosos da Irlanda

Todos nós estamos a sofrer em conseqüência dos pecados dos nossos irmãos que traíram uma ordem sagrada ou não enfrentaram de modo justo e responsável as acusações de abuso… Sei que muitos de vós estais decepcionados, confusos e indignados pelo modo como estas questões foram tratadas por alguns dos vossos superiores. Não obstante, é essencial que colaboreis de perto, com os que têm a autoridade, e que vos comprometais a fazer com que as medidas adotadas para responder à crise sejam verdadeiramente evangélicas, justas e eficazes.

11. Aos meus irmãos bispos

Não se pode negar que alguns de vós e de vossos predecessores falharam, por vezes gravemente, na aplicação das normas há muito codificadas do Direito Canônico sobre os delitos de abusos de jovens. Foram cometidos sérios erros no tratamento das acusações… Tudo isto minou seriamente a vossa credibilidade e eficiência… Só uma ação decidida, levada avante com total honestidade e transparência, poderá restabelecer o respeito e afeto dos irlandeses para com a Igreja, à qual consagramos a nossa vida.

ALGUMAS REAÇÕES

O Papa fala de arrependimento e vergonha e pede desculpa às vítimas. Não obstante, para muitos irlandeses, isso não basta. Eles criticam a Carta Pastoral de Bento XVI sobre o escândalo dos abusos sexuais com crianças como um paliativo.
As reações não podiam ser mais diversas.

Enquanto o presidente da Conferência Episcopal da Irlanda, cardeal Sean Brady, assinalava a publicação da Carta Pastoral como um “dia histórico”, a maioria dos representantes das vítimas de abuso sexual mostrava-se decepcionada. “Com essa Carta vazia de conteúdo, o que a Igreja quer é ganhar tempo”, criticou o dublinense Andrew Madden, uma das primeiras vítimas que, em 1995, apresentou demanda contra a Igreja.

A cantora irlandesa Sinéad O’Connor, há muito uma aguda crítica do Vaticano, afirmou que a Carta era “obra de consumada arte de mentir”. O Papa empurra a culpa para os bispos; eram eles que encobriam os abusos sexuais com crianças na Irlanda, seguindo as ordens diretas vindas de Roma. A Carta é a “ocultação do encobrimento”, vociferou O’Connor. “Nós, irlandeses, não somos idiotas”.

Os representantes das vítimas irlandesas censuraram que o Papa não tenha usada uma única palavra de autocrítica. Afinal, o Vaticano, nos casos de ocultamento dos abusos sexuais com crianças, desempenhou um papel nada honroso. “A Carta não responde às esperanças das vítimas”, confessou Maeve Lewis do grupo de vítimas “One in Four”. “Nada indica que exista uma nova visão na chefia da Igreja “.

Madden, uma vítima de abusos, que há muito reclama a renúncia do cardeal irlandês Brady e do Papa, disse que a Carta não vai mudar absolutamente nada. Que ele não precisava de uma Carta Pastoral a esclarecê-lo de que o abuso sexual de crianças é um pecado. O Papa pediu desculpa dos abusos, mas o que devia era pedir desculpa dos encobrimentos feitos pela chefia da Igreja.

Em contraste, os bispos da Irlanda teceram grandes elogios à Carta por sua clareza. “Com a união e a oração comum, poderá despontar agora para a Igreja um tempo de ressurreição”, disse o cardeal Brady . “O Papa reconheceu a falha da direção da Igreja no trato com comportamentos pecaminosos e criminais”, disse o arcebispo Diarmuid Martin, o reformador mais avançado da ilha.

Mas também houve representantes individuais das vítimas que saudaram o gesto do Papa. Contudo, para a maioria, o pedido de desculpas não basta. “A Carta é uma clara tentativa do Vaticano de se tirar de apuros”, disse a cantora O’Connor, que se rotula de crente.

“A Carta Pastoral do Papa é bem-vinda”, disse Garry O’Sullivan, redator-chefe do Irisch Catholic. “O nome do Papa tem ainda peso na Ilha. Contudo, o procedimento da Igreja com o escândalo foi absolutamente deplorável. Se os bispos não apressarem um esclarecimento convincente, vão perder ainda mais do que lhes resta de credibilidade”.

Respostas de 2

  1. Infelizmente,

    O que tem acontecido na Irlanda e em outras partes do mundo, é o desdobramento de uma má formação nos seminários católicos, especialmente no que diz respeito ao campo afetivo.
    É bom lembrarmos, com pesar, que escândalos como esse não estão apenas na igreja, mas também em escolas, nos próprios lares onde muitos pais abusam sexualmente de seus filhos e filhas.
    O escândalo é publicado cotidianamente pelos meios de comunicação. O problema atinge a Igreja também, e é preciso que ela tenha a humildade de debater a sexualidade e afetividade com mais critério, através de profissionais competentes como psicólogos e educadores, de modo que, não se venha num futuro ordenar pedófilos para o ministério presbiteral.

  2. Por favor, poupe-nos destas justificativas vazias e sem sentido! Toda vez que vem á tona esse assunto vocês tentam pluralizar as coisas com o pretexto de que isso é um mal do século, que está em todas as esferas da sociedade! Realmente está, mas não deveria estar dentro de uma instituição que prega a moral e os bons costumes! Me poupe!!! CHEGA! CHEGA! JUSTIÇA! JUSTIÇA!!! Fora os padres pedofilos! Reforma na Igreja!!!!!!

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