Gilvander Moreira – 03 Outubro 2018
Foto: Jesus Cristo – IHU / Pixabay
“Enfim, Jesus de Nazaré não votaria em candidatos que usam em vão o nome do Deus da Vida e nem em candidatos que representam os interesses do capital”,
escreve Gilvander Luís Moreira, Frei e padre da Ordem dos carmelitas.
Frei Gilvander é mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblica, de Roma; é professor de Teologia Bíblica; assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT -, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI -, assessor do Serviço de Animação Bíblica – SAB – e da Via Campesina em Minas Gerais.
Eis o artigo
“Eta, espinheira danada
Que o pobre atravessa pra sobreviver
Vive com a carga nas costas
E as dores que sente não pode dizer…” (Música Espinheira, de Duduca e Dalvan).
A crise plural pela qual passa o povo brasileiro e mundial é gravíssima:
- crise econômica,
- política,
- ecológica,
- social,
- crise das instituições etc.
Ingenuamente pessoas acreditam que votar corretamente é o caminho para superar as injustiças. Pode ser um caminho, mas não o caminho, pois “entra ano e sai ano e o tal de fulano ainda é pior…”, cantam Duduca e Dalvan. Dentro dos ditames do sistema capitalista, eleições garantem apenas fachada de democracia em sistemas opressores.
Correto
- é investir apenas 5% do nosso tempo, sabedoria e energia em eleições para elegermos os/as melhores candidatos/as
- e dedicar 95% do nosso tempo, sabedoria e energia na luta por direitos humanos fundamentais para construirmos Política com P maiúsculo, que é luta pelo bem comum.
Justo seria se o voto fosse facultativo e votasse quem quisesse e tivesse acesso às principais informações para discernir quais são os/as melhores candidatos/as. Fato é que Eleição não é o que garante democracia econômica, social e política. O voto vale muito pouco.
Se voto tivesse valor, não teria acontecido golpe parlamentar, jurídico e midiático contra e ex-presidenta Dilma Rousseff, sem ela ter cometido crime de responsabilidade. Alegando que iriam diminuir o desemprego, a maioria dos deputados federais e senadores
- ignoraram 54 milhões de votos
- e destituíram uma presidenta eleita pela vontade da maioria do povo brasileiro,
- abrindo as comportas para vários cortes em direitos fundamentais/sociais
- e rasgando a Constituição.
Há vários mitos e mentiras circulando agora em tempo de campanha eleitoral.
O Brasil não é uma empresa e nem um quartel. Logo,
- a eleição presidencial não é para escolher o melhor coronel/capitão
- e nem para escolher o melhor administrador de empresa.
O Brasil é um país com 206 milhões de habitantes, um território de 9,5 milhões de quilômetros quadrados e com biomas – Cerrado, Mata Atlântica, Amazônia, Pantanal, Caatinga e Pampa –profundamente devastados pelo agronegócio que, por meio de
- monoculturas,
- uso exagerado de agrotóxico
- e produção de alimentos transgênicos,
está causando a maior devastação socioambiental da história. Pesquisas científicas apontam que o uso de agrotóxicos na agricultura do agronegócio está causando câncer em mais de 600 mil pessoas a cada ano no Brasil.
O latifúndio continua sendo a coluna mestra do capitalismo brasileiro, que é uma máquina de moer vidas humanas e de toda a biodiversidade. As áreas urbanas, por sua vez, consolidam os modelos de desigualdade social,
- onde a população empurrada para a periferia
- não tem acesso a uma política habitacional,
- saneamento básico,
- saúde
- e transporte digno.
A violência social campeia com mais de 70 mil jovens sendo assassinados anualmente. Diante desse cenário, seja em área rural ou urbana,
- uma cortina de fumaça está sendo insuflada diante do povo
- que está sendo cegado e impedido de discernir quais são os/as candidatos/as éticos/as
- e que de fato serão representantes do povo nos poderes executivo e Legislativo, em âmbito federal e estadual.
As causas principais da violência social que se abate sobre o povo brasileiro, a Mãe Terra, as águas e todos os seres vivos estão no capitalismo, sob o modelo de agronegócio e a superexploração dos bens naturais que é imposta pelas empresas transnacionais e pelo capital financeiro e especulativo, principalmente.
Predomina aqui o racismo ambiental sob a manutenção da condição de colonialismo que atinge trabalhadores e trabalhadoras rurais, indígenas, quilombolas e outros tipos de povos tradicionais, em regra os mais penalizados. Ainda importante lembrar que
- nos últimos 20 anos
- aproximadamente 50 mil trabalhadores se encontravam em situação análoga à escravidão,
- sendo que esta estimativa deve ser bem superior,
estando a maioria envolvida escravizada nos setores de
- extração mineral, construção civil,
- agronegócio
- e confecção de roupas e tecelagem, esta última, que serve a famosas grifes de moda e de redes de varejistas.
Não podemos esquecer que a sociedade brasileira é uma sociedade de classes, organizada para reproduzir a desigualdade social. Há a classe dominante detentora dos meios de produção – terra, empresas, indústrias, fábricas, grandes comércios e capital financeiro especulativo – subjugando a classe trabalhadora e a classe camponesa. Ou seja, opressão de classe e luta de classes são características básicas das relações sociais capitalistas.
Não se deve dar crédito aos candidatos que repetem à exaustão a cantilena: “Temos que gerar emprego e para isso precisamos atrair investidores internacionais com capital internacional. Para isso temos que reduzir o Estado, promover austeridade fiscal e promover competitividade.”
Candidatos e partidos que fazem esse tipo de discurso/propaganda na prática estão dizendo “bem-vindas empresas transnacionais. O Brasil está aqui para ser sugado e surrupiado. E o povo resignado aceitará nova colonização.”
Quem promove isso não ama o povo brasileiro.
No Bloco de centro-direita estão os candidatos
- Geraldo Alkmin (PSDB),
- Henrique Meireles (MDB)
- e Bolsonaro (PSL) (para citar os que têm mais votos).
São candidatos do grande empresariado e que representarão os interesses do capital nacional e internacional. Jamais irão governar para o povo e nunca com o povo. Serão sempre subservientes aos interesses imperiais dos Estados Unidos e continuarão
- privatizando as empresas estatais,
- a mãe terra,
- as águas,
- reduzindo o povo à miséria
- e desertificando nosso território.
Esses candidatos
- não falam nada sobre necessidade de políticas de preservação ambiental
- e nem de se fazer Reforma Agrária Popular.
Ao contrário, prometem fortalecer
- o agronegócio,
- as mineradoras
- e até impedir a demarcação de terras dos povos indígenas e quilombolas.
Isso é injustiça que clama aos céus!
Na extrema-direita, Jair Bolsonaro é o pior candidato a presidente, porque ele
- discrimina as mulheres,
- os indígenas,
- os quilombolas,
- as domésticas,
- os homossexuais,
- os pobres.
Bolsonaro
- defende torturadores e a tortura.
- Ele usa em vão o nome de Deus, pois semeia ódio no tecido social;
- em vez de colocar livros nas mãos das pessoas, quer liberar o mercado de armas no Brasil.
Em 30 anos como deputado, Bolsonaro não contribuiu para melhorar nem a segurança pública no estado do Rio de janeiro. Se eleito, ele será como Trump no Brasil: autoritário e repressor. O ético é pôr nas mãos das pessoas livros e não armas.
- Ele recebe auxílio moradia sem precisar,
- usa funcionária do congresso para cuidar da mansão dele no estado do RJ.
Ele quer privatizar tudo, ou seja,
- entregar o povo brasileiro,
- a Mãe Terra,
- as águas,
- tudo para multinacionais.
- Disse que os povos indígenas não merecem “nem um centímetro de terra”.
É uma grande contradição ser pessoa cristã e apoiar quem quer semear violência na sociedade, distribuir armas e autorizar policiais a matar. O povo brasileiro não merece entrar novamente em outra ditadura. O filho dele, Carlos Bolsonaro, também deverá ser julgado por defender a tortura.
Grave também é
- lideranças religiosas,
- sejam padres ou pastores,
- induzirem os fiéis a votarem em Bolsonaro
- só por causa do seu discurso enganoso que diz “Deus acima de tudo e defensor da família e da moral tradicional”.
Ele mesmo já passou por vários casamentos e apresenta propostas antagônicas com a fé cristã:
- armar as pessoas,
- ensinar crianças a atirar,
- dizer que a polícia tem que ser autorizada a poder matar,
- etc..
No bloco de centro-esquerda estão
- a candidata Marina Silva (REDE)
- e os candidatos Ciro Gomes (PDT),
- Haddad (PT),
- Guilherme Boulos (PSOL)
- e Vera Lúcia(PSTU).
Para a classe trabalhadora e camponesa Guilherme Boulos é o melhor, pois está umbilicalmente ligado aos movimentos sociais populares, sendo Boulos do MTST e tendo como co-presidenta Sônia Guajajara, liderança indígena profundamente comprometida com a defesa da Mãe Terra, da Irmã Água e da família mais tradicional do Brasil: a indígena.
Eis uma dica:
- no 1º turno, votar no melhor
- e no 2º turno impedir a eleição do pior.
Ético e cristão é votarmos em candidatos não capitalistas, à esquerda, e jamais em candidatos de centro ou de direita. Votar em quem defende a classe trabalhadora e a classe camponesa.
De 2003 a 2015, sob o Governo do PT
- o salário mínimo teve aumento real,
- 16 universidades federais e 422 Institutos Federais foram construídos,
- além de várias políticas públicas de respeito aos direitos humanos fundamentais.
Conquistas sociais que nenhum outro partido fez. Não podemos aventurar por no volante do Brasil
- quem insufla políticas repressoras, que são falsos remédios para injustiças sociais
- e, pior, até acena no rumo de uma nova ditadura.
A quem não sabe o que é Ditadura Militar-civil-empresarial sugiro ler o livro Brasil Nunca Mais e assistir ao Filme Batismo de Sangue.
Enfim, o povo trabalhador e camponês não deve votar em
- deputados que o traiu no Congresso Nacional
- congelando os gastos sociais por 20 anos,
- fazendo a “reforma trabalhista”/desmonte dos direitos trabalhistas, cortando direitos sociais e aprovando a terceirização.
Sugerimos:
Não votar nos deputados federais e senadores que foram a favor da
- PEC da Morte(congelamento por 20 anos dos investimentos em políticas públicas,
- Emenda Constitucional nº 95/2016) (veja aqui e aqui),
- à Terceirização
- e à Reforma Trabalhista (veja aqui e aqui).
Não votar em candidatos que
- ataquem os Direitos Humanos
- e defendam o “uso das armas” como solução para os problemas sociais (veja aqui).
Como discípulos/as de Jesus Cristo, devemos
- primar pela busca da paz como fruto da justiça social, agrária e ambiental;
- ter o amor e o respeito ao diferente como princípio da convivência social;
- diante das injustiças sociais, cultivarmos sempre Opção pelos injustiçados como Opção de Classe trabalhadora.
É muito importante e fundamental estarmos cientes de que a superação das injustiças passa sempre por educação e cultura popular, a partir dos de baixo. Se as eleições não nos motivam pela politicagem impregnada no sistema que as gerenciam, inspiremo-nos, porém, nas palavras do Papa Francisco e sigamos firmes na luta: “Não deixemos que nos roubem a esperança” (Evangelli Gaudium, 86).
Enfim, Jesus de Nazaré não votaria
- em candidatos que usam em vão o nome do Deus da Vida
- e nem em candidatos que representam os interesses do capital.
Arinos, MG, 1º/10/2018.
Frei Gilvander Moreira
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/583320-fe-crista-e-eleicoes-2018-em-quem-jesus-nao-votaria
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Respostas de 2
Francamente, não entendo como vocês podem publicar este tipo de artigo que não tem nada a ver com a realidade, aliás confunde os leitores. O Lula, a Dilma e outros integrantes do PT já se manifestaram contra a democracia, dando suporte a países de ditadura como Venezuela. O Brasil adotou a democracia que o PT quer destroçar. O PT deveria ser proibido porque tem todos os ingredientes de uma organização criminosa e não é mais um partido. Um país se faz com o trabalho, de empresas fortes, de um povo esclarecido e sadio. Se os Freis, tanto ativos como Ex-freis ficam apoiando organizações criminosas, aí acredito que eles já deixaram de ser cristãos.
Espero que não censurem novamente minhas observações contra o PT. Lembrete: por amor de Deus, olhem o que está acontecendo na Venezuela, na Nicarágua e outros países, onde os direitos humanos estão sendo pisados pelos mandatários amigos do Lula e do PT. Acorde Clero e Ex-Clero.
Beto, qual é mesmo a tua escala de valores? Eu pensava que fossem os valores do Evangelho.
Estás confundindo tudo. Que tem a ver a Venezuela e a Nicarágua com o Brasil real de hoje?
Tu, quase 40 anos depois, ainda acreditas no espantalho, no bicho-papão do perigo do “comunismo que trucida e come criancinhas”?
Ainda continuas com as “ideias” que permitiram a ”Marcha por Deus e pela Família” em 1964, que precedeu e “justificou” a sangrenta e covarde ditadura militar que desgraçou o Brasil durante mais de 20 anos?
Tu e eu vivemos a ditadura e sabemos o que é. Ou tu não sabes?
O cardeal Vicente Sherer, quando estive com ele em Porto Alegre em 1974, parece que também não sabia… E o cardeal Eugênio Salles, do Rio, parece que também não… E o cardeal Sodano, núncio no Chile, era amigão de Pinochet, o sanguinário, em nome do anticomunismo…
É outra provável ditadura que desejas agora para o Brasil, em pleno século XXI?
Não te apercebes que, mais uma vez, quando o Povo melhora de vida, o andar de cima não se conforma e dá um golpe, seja militar ou jurídico-parlamentar? E que, nesses golpes, quem está por trás é sempre o andar de cima, apoiado quase sempre pelo grande capital nacional e internacional, os bancos, as grandes mineradoras e os grandes oligopólios da Mídia, além da ação direta da Cia, como aconteceu em todas as ditaduras da América Latina na segunda metade do século XX?
João Tavares