O artigo é de Paulo Kliass, doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal, publicado por Outras Palavras, 31-07-2018.
Eis o artigo.
A aproximação crescente da data das eleições parece provocar
- um aumento na taxa de desespero dos setores
- ligados ao financismo
- e às elites mais reacionárias e conservadoras de nosso País.
Afinal, quando se aventuraram pela estratégia desestabilizadora do “golpeachment”, não poderiam jamais imaginar que o cenário às vésperas do pleito de 2018 fosse o que vivemos atualmente.
Desde o momento em que se viram frustradas com o anúncio oficial da derrota de Aécio Neves em outubro de 2014, as forças políticas capitaneadas pelo PSDB
- atraíram o PMDB de Temer e demais partidos da sopa de letrinhas do fisiologismo
- para a deposição a qualquer custo da presidenta recém-eleita.
Em seu sonho idealizado do processo,
- bastaria primeiro tirar a Dilma
- que depois todas as portas do paraíso se abririam
- para um tranquilo e folgado retorno ao poder,
- do qual o povo os havia retirado pelo voto em 2002.
E, vale a pena recordar, essa opção havia sido reconfirmada também de forma sucessiva em 2006, 2010 e 2014.
Para tanto, os integrantes da elite foram convencidos pelos formadores de opinião do mundo das finanças de que
- um “esforço duro e responsável”
- seria mais do que suficiente para recolocar a economia nos eixos
- e abrir o caminho para a vitória eleitoral na sequência.
Assim, a indicação tão sonhada da duplinha dinâmica do sistema da banca no comando da economia foi comemorada com fogos de artifício. Representantes do Bank of Boston e Itáu/Unibanco passaram a compartilhar as cadeiras do Ministério da Fazenda e do Banco Central. Afinal, não tinha como dar errado a opção pela “competência técnica e profissional” de Meirelles & Goldfajn. Ambos se puseram em campo a serviço do aprofundamento de um ajuste que já havia sido iniciado em 2015 por Joaquim Levy.
No entanto, a questão mais relevante é que
- não se tratava tão somente de um plano de estabilização de natureza ortodoxa.
- A implementação do “austericídio” foi muito mais além
- do que simplesmente a trágica combinação de juros elevados na política monetária
- e rigor assassino no controle de gastos na política fiscal.
As propostas urdidas pela fina flor do financismo tucano no interior da Casa das Garças e as ideias contidas no documento sintetizado pelo PMDB como a “Ponte para o Futuro” protagonizaram também uma estratégia de
- desmonte das políticas sociais
- construídas desde o processo constituinte de 1988.
Austericídio e destruição
Não contentes em promover o ajuste radical nas contas do Orçamento, os estrategistas do liberalismo financista construíram a narrativa da necessidade de redução do setor público brasileiro. O argumento surrado, levado mais uma vez à exaustão pelos comentaristas dos grandes meios de comunicação, insistiam com a tese de que
- o arremedo de Estado de Bem Estar Social,
- ainda que chinfrim em nossas terras,
- era incompatível com a nossa capacidade arrecadatória.
Bingo! Não haveria outra alternativa senão privatizar e liberalizar ainda mais a economia.
Assim,
- não se tratava apenas de promover a já criminosa política de redução dos programas de natureza social do governo
- e também da drástica queda no patamar dos investimentos a serem realizados pelo setor público.
- A nova estratégia implicava aprofundar a transferência de ativos do Estado para o capital privado
- e a opção prioritária por esse tipo de empreendimento para os novos investimentos em infra estrutura e serviços públicos de forma geral.
Colocaram-se em marcha os destruidores. Sua intenção primeira se caracteriza pela
- demolição do arcabouço público,
- institucional e produtivo
- construído desde a época de Getúlio, Juscelino e Jango.
Esse processo, na verdade, vem desde antes, com a surpreendente obsessão política e ideológica de Fernando Henrique Cardoso em colocar um fim à chamada era Vargas.
Na fase atual a destruição vem
- com a privatização de empresas públicas ainda existentes,
- com a concessão desenfreada de oportunidades de acumulação de capital ao setor privado,
- a abertura dos empreendimentos ao capital estrangeiro
- e com o reforço do setor financeiro no processo de consolidação do bloco hegemônico em nossa economia capitalista.
Os efeitos desastrosos de tal opção de política econômica estão mais do que presentes
- no desemprego avassalador, nas falências, das empresas,
- no processo de desindustrialização
e na destruição da capacidade de o Estado brasileiro
- dar conta minimamente de suas atribuições constitucionais
- e de lançar as bases para superar a crise que se aprofunda e se alonga por uma eternidade.
A flexibilização da legislação trabalhista vem como a cereja do bolo para o deleite do empresariado
- que clama sempre contra a presença do Estado,
- mas que não hesita em buscar refúgio em suas benesses e facilidades
- quando se trata de ampliar seus lucros e preservar seus interesses.
Revogar as medidas da destruição
Para além de passagem avassaladora de terra arrasada, a estratégia da destruição revelou-se um verdadeiro tiro no pé
- dos liberalóides de plantão
- e dos dirigentes políticos da direita fisiológica e conservadora.
A perversidade provocada no quadro social está apresentando sua fatura em termos políticos e eleitorais.
- Não foi suficiente forjar o processo contra Lula e sua prisão.
- O ex-presidente continua líder absoluto nas pesquisas de opinião, o que coloca um problema no que se refere à sua candidatura.
- A se manter a conduta ilegal e abusiva do Judiciário,
- é possível que ele não consiga estar com seu nome nas urnas daqui a pouco menos de 3 meses.
- O risco de aumento da instabilidade não pode ser descartado.
A maioria da população
- reconhece os efeitos perversos da estratégia da destruição
- e, ao que tudo indica, postula pelo retorno à estratégia de desenvolvimento inclusivo,
- com distribuição de renda e ampliação do mercado interno.
Mas, para tanto, faz-se necessário
- retomar o protagonismo do setor público na condução da economia,
- com a revogação das medidas do governo Temer
- e a mudança radical na orientação da política econômica.
Os candidatos das forças progressistas já estão anunciando tal caminho em seus programas de governo.
- Os líderes políticas da direita já se deram conta disso e quase não são encontrados candidatos dispostos a reivindicar a paternidade dos malfeitos do governo da destruição.
- Até mesmo o pleiteante Henrique Meirelles ensaia um malabarismo retórico, onde vai buscar sua passagem por 8 anos à frente do comando do Banco Central, durante os dois mandatos de Lula, para justificar sua suposta preocupação com o bem estar da população.
Realmente a vida não está nada fácil para quem adentrou a seara do golpismo e foi co-partícipe de um governo que rasteja em seus índices de popularidade.
Eleição e retorno ao desenvolvimento
Ao contrário do lema de Juscelino Kubitschek (50 anos em 5), Temer promoveu um impressionante retrocesso de mais de 20 anos em apenas 2.
- O último dado oficial apontado pelo Ministério da Saúde refere-se ao quadro trágico da mortalidade infantil,
- que retornou a um patamar não visto há 26 anos atrás.
Isso para não mencionar os já conhecidos quadros de verdadeira calamidade pública em áreas como
- saúde,
- educação,
- assistência social,
- segurança pública
- e previdência social,
dentre tantas outras.
A obstinação dos destruidores tem revelado a falência de sua política. O desespero do financismo ao ver o poder escapar-lhe das mãos pelo voto de outubro aponta para a pressão sobre os candidatos nanicos quase sem expressão eleitoral, de forma a que as forças da direita se apresentem de forma unificada em torno de Alckmin.
O único detalhe vai ser a necessidade de combinar com a população a respeito do impedimento arbitrário da candidatura de Lula e do convencimento a respeito das vantagens da política de destruição levada a cabo por seus apoiadores ao longo dos últimos 3 anos.
Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/581391-um-projeto-naufragou-mas-como-resgatar-o-pais
https://outraspalavras.net/brasil/um-projeto-naufragou-mas-como-resgatar-o-pais
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