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As ‘Street Children’ do Quênia, entre pobreza extrema e desejo de renascimento

  • 27/06/2018
  • 21:00

LUCA ATTANASIO – NAIROBI –  25/06/2018

Foto: Padre Kizito e algumas crianças de rua

Tradução: Orlando Almeida

Em Nairobi são 150 mil, no país inteiro 300 mil: um fenômeno de contornos inquietantes.

Em conversa com o padre Kizito, missionário comboniano, fundador da Comunidade “Koinonia” e com alguns ex-meninos de rua que conseguiram mudar de vida

 

Veem-se em grupinhos muito compactos que vagueiam pelas áreas centrais da capital para mendigar alguns  trocados  e depois encolher-se num canto a cheirar cola ou combustível de aviões. Vestidos de trapos, eles se encontram de tardinha nas favelas de Nairobi.

Compram um bilhete barato e entram em barracos improvisados ​​adaptados como cinemas para ver filmes de ação ou algo pior: nem tanto para divertir-se ou emular as habilidades acrobáticas dos atores mas antes para garantir pelo menos algumas  horas num  ambiente protegido.

São as Street Children [crianças de rua] do Quênia, que, forçadas pela extrema pobreza, pela violência doméstica ou simplesmente pela fome, vagam pelas ruas e correm o risco de aí permanecerem até à idade adulta. Os mais velhos são adolescentes, os mais jovens têm idades que se contam nos dedos de uma mão.

Segundo a Unicef, são 300 mil, metade dos quais vivem em Nairobi. O Quênia está fazendo progressos e pode ser considerado um dos melhores países africanos em termos de desenvolvimento. Mas os seus problemas sociais ainda assumem dimensões enormes. Na capital destaca-se Kebira, a maior favela da África: um milhão de pessoas, a maioria crianças, amontoadas em dezenas de milhares de barracos de poucos metros quadrados.

Sem um sistema de esgoto digno desse nome, a população vive literalmente sobre pilhas estratificadas de lixo que nunca serão removidas. As ruas na época das chuvas transformam- se em atoleiros enquanto as emanações, às vezes nauseabundas, se misturam com os odores de alimentos fritos ou cozidos, das mercadorias vendidas nos ‘mini-shops’ na beira das vielas que se intercruzam formando um labirinto inextricável.

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Abandonados pela sociedade. Crianças dormem na rua em Mombassa: Kénia – Foto: The Star – Kenya

 

Em Nairobi  fica também Dandora, o maior lixão da África oriental. É uma área incrivelmente extensa, que cresceu durante décadas sobre montanhas  de detritos de todo o tipo e que recebe cerca de 900 toneladas de resíduos sólidos por dia. Aí “trabalham” mais de 4.000 pessoas. Vigiadas por enormes marabus – que ficam pousados sobre os montículos de lixo e que de tanto em tanto levantam voo para se alimentar de restos de alimentos ou de não-biodegradáveis – separam o material descartado, recolhem-no e entregam-no ao guarda. Recebem 15 xelins ($ 0,15 dólares) por quilo. Mas, ao mesmo tempo, inalam ou entram em contato com materiais perigosos, como chumbo, mercúrio ou cádmio.

“No Quênia – explica o padre Kizito (batizado com o nome de Renato Sesana, na África desde a década de 1970, escolheu o nome de um dos mártires da Uganda), comboniano, jornalista e fundador da Comunidade Koinonia – há uma enorme questão infância. A nossa comunidade escolheu desde o início cuidar das crianças e dos jovens e, entre estes, privilegiou os mais pobres entre os pobres. As Street Children têm seu próprio código, são muito unidas entre elas e, especialmente se já vivem nas ruas há anos, criam uma espécie de identidade própria”.

Koinonia deu os primeiros passos no Quênia em 1989. Desde então, mantém dois centros de acolhimento, três centros residenciais, um dispensário médico e um serviço de fisioterapia – que, atualmente, cuidam de mais de duzentas crianças de rua – e administra algumas escolas.

Para alcançar e colocar em segurança as crianças de rua,  adota uma abordagem direta:

  • os operadores – muitos dos quais são ex- Street Children – estabelecem uma relação direta  com as crianças nos lugares onde elas  vivem, às vezes dormem com elas
  • e, através de um caminho feito de quotidianidade  e de proximidade,
  • convencem, sem nunca forçá-los, os pequenos a entrar no projeto.
  • Depois trabalham para reconstruir o contato com as famílias e as comunidades locais e preparam o seu retorno à escola.

 

“Nós estabelecemos uma autêntica cerimônia – continua o padre Kizito – para o dia em que a criança, depois de ser contatada regularmente e preparada durante pelo menos quatro meses pelos operadores que vão para a rua, entra no centro de primeira acolhida. A criança toma um bom banho, recebe roupas novas e queima as velhas, como para significar o fim da vida antiga e o começo de outra.

Durante toda a década de 1990, tivemos muita dificuldade para encontrar um caminho eficaz: as crianças vinham até nós motivadas por necessidades primárias, ficavam um tempo e iam embora. Desde quando mudamos o método e compreendemos  que devíamos  mostrar a elas apenas compreensão e proximidade, para que  fossem elas a escolher deixar para sempre a rua, o porcentual dos que se perdem caiu drasticamente,  a quase zero”.

Após a fase de “reabilitação”, que pode durar anos, a criança é ajudada a voltar para a família ou, se isso não é possível, a reconstruir as ligações com parentes, amigos e a comunidade de origem, interrompidas durante anos,  para que possam apoiá-lo no crescimento.

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Crianças cozinhando na rua – Foto: standardmedia.co.ke

 

“Lá  em casa não havia comida para todos– conta Evans, um ex-Child Street de 20 anos que agora se tornou um conhecido rapper (nome artístico Humble Prince). Papai morreu quando eu era muito pequeno e a minha mãe trabalhava até tarde. Ninguém realmente se importava comigo e então, com apenas 5 anos de idade, acabei na rua. De noite a polícia vinha espancar-nos e tratava-nos como se fôssemos animais, e durante o dia andávamos à toa para conseguir alguns trocados. Depois chegou o Jack  … “.  Jack, uma ex-criança de rua acolhida há cerca de quinze anos pelo padre Kizito, tornou-se agora o responsável pelos centros de acolhimento. É muito popular entre as crianças que o recebem empoleirando-se em todas as partes do seu físico imponente.

“Nas primeiras vezes pensavam que eu era um policial. Depois comecei a passar todas as manhãs, levando alguma coisa para eles comerem, às vezes organizava jogos de futebol,  algumas noites ficava para dormir com eles. Quando o grupo de que Evans fazia parte entendeu que eu era um deles, que eu me interessava pela vida deles, decidiram espontaneamente vir todos para o rescue center [centro de resgate]”.

“No começo parece uma aventura – explica Friederick, 24 anos , que também é rapper (Bigfred cheche) – a gente se acha forte,  cheira droga o tempo todo e passa o dia inteiro indo de um lado para o outro para ganhar as sobras, juntar lenha para cozinhar e entrar nos slums [favelas] para ver filmes. Mas depois  começa a perguntar- se: ‘Que fiz eu de mal para acabar assim?’, todos me evitam,  tratam-me mal. Junto com a gente  havia também   mães e até avós de rua, pessoas que nunca viveram numa casa”.

É domingo no centro Domus Mariae, onde Koinonia administra um centro de acolhimento e uma escola secundária. À missa, celebrada pelo padre Kizito,  todos estão presentes, até as crianças de fé islâmica: deixados livres, decidem participar para dançar e cantar com os outros. Na capela da Mater Nigritia, lotada por uma centena de meninos, há compostura e alegria. A imagem de uma sociedade reconciliada a partir dos pequenos.

 

 

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LUCA ATTANASIO

Fonte: http://www.lastampa.it/2018/06/25/vaticaninsider/in-kenya-il-fenomeno-deglistreet-children-tra-povert-estrema-e-desiderio-di-rinascita-uZDNQoqYlZJdT51i3vEPqL/pagina.html

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