O fim de uma era em Cuba

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por Deutsche Welle publicado 18/04/2018 

Foto: Imagem de arquivo mostra Fidel (e.) e Raúl Castro em 2004 / A. Ernesto/picture alliance

 A Era Castro, de quase seis décadas, foi constantemente marcada por furacões da política internacional, realidade que não deve mudar tão rápido

 
 
 
Não existe outra revolução latino-americana que tenha estremecido com mais força a região que a cubana. Nenhuma figura que tenha despertado tantas paixões como Fidel Castro, que passou
  • de libertador de Cuba da ditadura de Batista
  • a instaurador de um regime ditatorial, preservado pelo seu irmão Raúl.

 

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Bernd Wulffen, embaixador alemão em Cuba entre 2001 e 2005.

A saída de Raúl da presidência nesta semana – ainda que não deixe a liderança do Partido Comunista – implica um encerramento, relativamente simbólico, de um capítulo em que muitas linhas cruciais se escreveram na arena internacional.

“Podemos dizer depois de quase 60 anos que a Revolução Cubana é uma revolução única na América, porque as outras, por exemplo a que aconteceu no México ou em outros lugares, não foram tão duradouras.

Além disso, não modificaram tão fundamentalmente as estruturas. A Revolução Cubana o fez, acabou com o conceito da propriedade privada,

diz o diplomata Bernd Wulffen, embaixador alemão em Cuba entre 2001 e 2005.

 

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Fidel Castro fala com revolucionários próximo à Playa Giron, durante a invasão da Baía dos Porcos (1961)

O barril de pólvora da Guerra Fria

Quando entrou vitorioso em Havana, em janeiro de 1959, Fidel Castro ainda não encarnava o Davi comunista que desafiava o Golias “imperialista”.

  • As tensões com os Estados Unidos começaram já nos anos de 59 e 60,
  • com as expropriações que afetaram os interesses americanos.
  • Mas foi a fracassada invasão da Baía dos Porcos que acabou por selar a aliança cubana com a União Soviética.

“Por um lado, Fidel Castro disse claramente, por ocasião do enterro dos soldados mortos na Baía dos Porcos: ‘Esta é uma revolução socialista’...

Por outro lado, se deram conta de que o governo dos Estados Unidos constituía uma espécie de ameaça e necessitava de proteção. E que proteção podiam ter? Somente a da outra superpotência“, comenta Wulffen.

Em pouco tempo, Cuba chegou a se converter em protagonista do episódio que esteve mais próximo de descongelar a Guerra Fria para desencadear uma guerra atômica, em 1962: a crise dos mísseis.

Washington e Moscou conseguiram evitar a catástrofe, ignorando Havana, mas o governo de Fidel Castro não se conformou com o papel de coadjuvante no cenário internacional. Ao contrário, apostou em exportar a revolução.

“Eu diria que [a revolução] teve uma grande repercussão em países do Terceiro Mundo. Pensemos, por exemplo, em Angola, na Etiópia, onde Cuba interveio com tropas, enviou milhares de soldados a uma distância de mais de dez mil quilômetros; a logística que Cuba desenvolveu foi incrível”, comenta o diplomata alemão, autor dos livros

Eiszeit in den Tropen (A era do gelo nos trópicos, em tradução livre) e Kuba im Umbruch: von Fidel zu Raúl Castro (A reviravolta em Cuba: de Fidel a Raúl Castro, em tradução livre).

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Raúl Castro (c.) observa assinatura de acordo bilateral de cessar-fogo entre o presidente colombiano Juan Manuel Santos (e.) e Rodrigo Londono, ex-líder guerrilheiro das Farc, em 2016

O colapso soviético

Anos mais tarde, garantir a sobrevivência do próprio regime passou a ser a primeira prioridade, quando o colapso da União Soviética deixou o país caribenho à beira do abismo.

“Cuba perdeu 60% do seu comércio exterior e 40% do seu PIB”, afirma Wulffen. Mas Fidel Castro não estava disposto a retroceder: “Não mudo um milímetro”, foi uma frase que ficou gravada na memória do ex-embaixador alemão. “Fidel sempre pensava que sua revolução se converteria numa social-democracia, e não queria isso. Raúl estava mais inclinado a mudar certas coisas e, finalmente, levou isso a cabo a partir de 2008. Mas não foram coisas de muita envergadura. Foram pequenas mudanças.”

Apesar de a ideia da propagação da revolução armada também a outras regiões da América Latina ter desaparecido após a morte de Che Guevara, não ocorreu o mesmo com a dimensão internacional do projeto cubano.

“Cuba influenciou e continua influenciando outros países com sua educação, com seus serviços médicos. Enviou muitos médicos ao Terceiro Mundo. Isso é louvável. Mas, ao mesmo tempo, sempre também há o aspecto da propaganda, de querer mostrar Cuba como modelo aos países em desenvolvimento”, avalia Wulffen.

O componente ideológico não mudou com a transferência de poder de Fidel a Raúl Castro. Um exemplo é o apoio ao chavismo e à Aliança Bolivariana, união idealizada por Hugo Chávez para fomentar a ajuda mútua entre países da América Latina e do Caribe. “Mas são casos de fracassos, sobretudo a Venezuela”, aponta o escritor.

 

Estados Unidos, país-chave

Mesmo assim,

  • a perda virtual do apoio econômico da Venezuela, imersa em sua própria crise,
  • não encontra Cuba com o mesmo grau de dependência com que surpreendeu a ilha em seu dia da hecatombe soviética.

Com Raúl Castro no comando, Havana conseguiu se posicionar de outra forma no mundo e no continente, a ponto de ter sido anfitriã dos diálogos de paz colombianos que levaram as Farc a entregar suas armas.

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O ex-presidente americano Barack Obama (e.) durante visita a Cuba, em 2016

 

Com Raúl, Cuba também viveu o momento que passará à história como o grande marco de seu governo:

  • o degelo com os Estados Unidos, conduzido por um presidente Barack Obama
  • convencido de que a política de isolamento e sanções aplicada até então
  • não tinha tido resultado efetivo
  • – nem para derrubar o regime,
  • nem para por fim às violações de direitos humanos
  • e introduzir uma abertura à democracia.

“Lamentavelmente, o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump não segue essa política. Ao contrário, recai no que havia antes, sinaliza Wulffen. E isso, na sua opinião, será contraproducente para aqueles que esperam mudanças estruturais em Havana.

“Acho que vai ser muito difícil para o sucessor de Raúl mudar a política, porque os Estados Unidos não lhe deixam margem para ação”,

afirma o embaixador, convencido de que o que acontecer no futuro dependerá muito da situação internacional:

“O novo conflito leste-oeste, entre Estados Unidos e Rússia, não é um clima propício para mudanças em Cuba”.

 

Deutsche Welle

Fonte:  https://www.cartacapital.com.br/internacional/o-fim-de-uma-era-em-cuba?utm_campaign=newsletter_rd_-_19042018&utm_medium=email&utm_source=RD+Station

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