
Papa Francisco -26/03/ 18
Foto: Vatican.News
Na celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, o Papa Francisco, na homilia, conclamou os jovens:
E concluiu: “Decidam-se antes que gritem as pedras”.
Ao final da celebração eucarística, antes da Bênção apostólica, foram entregues ao Papa as conclusões da reunião pré-sinodal em preparação da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos a ser realizado em outubro de 2018 tendo como tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional“.
Eis a homilia.
O grito “Crucifica-O, silencia a festa do povo, destrói a esperança, mata os sonhos, suprime a alegria; deste modo, no fim, blinda-se o coração, resfria-se a caridade – Tweet
Jesus entra em Jerusalém. A liturgia convidou-nos
- a intervir e participar na alegria e na festa do povo que é capaz de aclamar e louvar o seu Senhor;
- alegria que esmorece, dando lugar a um sabor amargo e doloroso depois que acabamos de ouvir a narração da Paixão.
Nesta celebração, parecem cruzar-se histórias de alegria e sofrimento, de erros e sucessos que fazem parte da nossa vida diária como discípulos, porque consegue revelar sentimentos e contradições que hoje em dia, com frequência, aparecem também em nós, homens e mulheres deste tempo:
- capazes de amar muito… mas também de odiar (e muito!);
- capazes de sacrifícios heroicos mas também de saber «lavar-se as mãos» no momento oportuno;
- capazes de fidelidade, mas também de grandes abandonos e traições.
Vê-se claramente em toda a narração evangélica que, para alguns, a alegria suscitada por Jesus é motivo de fastídio e irritação.
Jesus entra na cidade rodeado pelos seus, rodeado por cânticos e gritos rumorosos.
Podemos imaginar que
- é a voz do filho perdoado, do leproso curado ou o balir da ovelha extraviada que ressoam intensamente nesta entrada.
- É o cântico do publicano e do impuro;
- é o grito da pessoa que vivia marginalizada da cidade.
- É o grito de homens e mulheres que O seguiram, porque experimentaram a sua compaixão à vista do sofrimento e miséria deles…
- É o cântico e a alegria espontânea de tantos marginalizados que, tocados por Jesus, podem gritar: «Bendito seja o que vem em nome do Senhor!» (Mc 11, 9).
Como deixar de aclamar Aquele que lhes restituíra a dignidade e a esperança? É a alegria de tantos pecadores perdoados que reencontraram ousadia e esperança.
É o grito do «salva-te a ti mesmo» que pretende adormecer a solidariedade, apagar os ideais, tornar insensível o olhar… O grito que pretende cancelar a compaixão – Tweet
Estas aclamações de alegria aparecem incômodas e tornam-se absurdas e escandalosas para aqueles que se consideram justos e «fiéis» à lei e aos preceitos rituais [cf. R. GUARDINI, Il Signore (Brescia-Milão 2005), 344-345].
- Uma alegria insuportável para quantos reprimiram a sensibilidade face à angústia, ao sofrimento e à miséria.
- Uma alegria intolerável para quantos perderam a memória e se esqueceram das inúmeras oportunidades por eles usufruídas.
Como é difícil, para quem procura justificar-se e salvar-se a si mesmo, compreender a alegria e a festa da misericórdia de Deus! Como é difícil, para quantos confiam apenas nas suas próprias forças e se sentem superiores aos outros, poder compartilhar esta alegria! (cf. FRANCISCO, Exort. ap. Evangelii gaudium, 94).
Daqui nasce o grito da pessoa a quem não treme a voz para bradar: «Crucifica-O!» (Mc 15, 13).
- Não é um grito espontâneo, mas grito pilotado, construído, que se forma com o desprezo, a calúnia, a emissão de testemunhos falsos.
- É a voz de quem manipula a realidade criando uma versão favorável a si próprio e não tem problemas em «tramar» os outros para ele mesmo se ver livre.
- O grito de quem não tem escrúpulos em procurar os meios para reforçar a sua posição e silenciar as vozes dissonantes.
- É o grito que nasce de «maquiar» a realidade, pintando-a de tal maneira que acabe por desfigurar o rosto de Jesus fazendo-O aparecer como um «malfeitor».
- É a voz de quem deseja defender a sua posição, desacreditando especialmente quem não se pode defender.
- É o grito produzido pelas «intrigas» da autossuficiência, do orgulho e da soberba, que proclama sem problemas: «crucifica-O, crucifica-O!»
Perante todas estas vozes que gritam “Crucifica-O”, o melhor antídoto é olhar a cruz de Cristo e deixar-se interpelar pelo seu último grito – Tweet
E deste modo, no fim,
- silencia-se a festa do povo,
- destrói-se a esperança,
- matam-se os sonhos,
- suprime-se a alegria;
deste modo, no fim, blinda-se o coração, resfria-se a caridade. É o grito do «salva-te a ti mesmo» que pretende adormecer a solidariedade, apagar os ideais, tornar insensível o olhar… O grito que pretende cancelar a compaixão.
Perante todas estas vozes que gritam, o melhor antídoto é olhar a cruz de Cristo e deixar-se interpelar pelo seu último grito. Cristo morreu, gritando o seu amor por cada um de nós:
- por jovens e idosos,
- santos e pecadores,
- amor pelos do seu tempo e pelos do nosso tempo.
Na sua cruz, fomos salvos
- para que ninguém apague a alegria do Evangelho;
- para que ninguém, na própria situação em que se encontra, permaneça longe do olhar misericordioso do Pai.
Olhar a cruz significa deixar-nos interpelar nas nossas prioridades, escolhas e ações. Significa deixar-nos interrogar sobre a nossa sensibilidade face a quem está a passar ou a viver momentos de dificuldade.
- Que vê o nosso coração?
- Jesus continua a ser motivo de alegria e louvor no nosso coração
- ou envergonhamo-nos das suas prioridades para com os pecadores, os últimos e os abandonados?
A alegria que Jesus suscita em vocês é, para alguns, motivo de fastídio e irritação, porque um jovem alegre é difícil de manipular – Tweet
Queridos jovens, a alegria que Jesus suscita em vocês
- é, para alguns, motivo de fastídio e irritação,
- porque um jovem alegre é difícil de manipular
Neste dia, porém, existe a possibilidade de um terceiro grito:
- «Alguns fariseus disseram-Lhe, do meio da multidão: “Mestre, repreende os teus discípulos”.
- Jesus retorquiu: “Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras”» (Lc 19, 39-40).
Calar os jovens é uma tentação que sempre existiu. Os próprios fariseus inculpam Jesus, pedindo-Lhe que os acalme e faça estar calados.
- Há muitas maneiras de tornar os jovens silenciosos e invisíveis.
- Muitas maneiras de os anestesiar e adormecer para que não façam «barulho», para que não se interroguem nem ponham em discussão.
Há muitas maneiras de os fazer estar tranquilos, para que não se envolvam, e os seus sonhos percam altura tornando-se fantasias rasteiras, mesquinhas, tristes.
‘Jovens, não se calem. Decidam-se, antes que gritem as pedras’, conclama o Papa Francisco – Tweet
Neste Domingo de Ramos, em que celebramos o Dia Mundial da Juventude, faz-nos bem ouvir a resposta de Jesus aos fariseus de ontem e de todos os tempos: «Se eles se calarem, gritarão as pedras» (Lc 19, 40).
Queridos jovens,
- cabe a vós a decisão de gritar,
- cabe a vós decidir-vos pelo Hosana do domingo para não cair no «crucifica-O» de sexta-feira…
- E cabe a vós não ficar calados.
Se os outros calam, se nós, idosos e responsáveis, tantas vezes corrompidos, silenciamos, se o mundo se cala e perde a alegria, lhes pergunto: vocês gritarão?
Por favor, decidam-se antes que gritem as pedras.
Francisco
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