- “A Igreja somos nós todos” ao serviço de todos.
- O clericalismo e o carreirismo são “a peste da Igreja”.
- Impõe-se reformar a fundo a Cúria Romana.
- Não podemos ficar “mumificados nas nossas estruturas”.
- Para a pedofilia, tolerância zero – se se equivoca, como aconteceu no Chile, vai emendar o erro.
- Transparência total no Banco do Vaticano.
- É preciso descentralizar a Igreja…”
“Havia uma vez um barco, um velho e belo barco que há muito tempo estava ancorado no porto. A vida a bordo era de prerrogativa. Os oficiais estavam ataviados com uniformes de diferentes cores –
- o negro para os de mais baixa graduação,
- violáceo, vermelho e púrpura para os outros -, a que alguns tinham juntado adornos (capas, arminhos, condecorações…).
As relações entre os comandos superiores e os subalternos regiam–se por um cerimonial carregado de requintados ritos e reverências.
Na realidade,
- a vida a bordo era fácil,
- porque tudo o que havia para fazer ou deixar de fazer
- estava determinado por um regulamento muito preciso
- que todos observavam escrupulosamente.
Como é lógico, no barco havia também marinheiros, embora dificilmente fossem vistos. Trabalhavam no porão e na sala das máquinas, apesar de o trabalho com os motores não ser muito importante num navio que nunca deixa o porto.
As veneráveis senhoras que passeavam pelo cais diziam umas às outras: “Este barco é o meu preferido; é um barco fidelíssimo, nunca se move do seu sítio”.
Um dia, o comandante reformou-se e, cumprindo o regulamento de regime interno, os oficiais de uniforme púrpura reuniram-se para nomear um novo comandante. Elegeram um deles, já de idade avançada, que, com certa dificuldade, subiu a escada que leva ao posto de comando. E de repente ouviu-se ele a dizer algo que deixou a todos petrificados:
“Levantai âncoras, rumo ao mar!”.
Um dos oficiais atreveu-se a perguntar:
“Ouvimos bem? Poderia repetir…”
E o comandante repetiu com voz forte e clara:
“Já disse: rumo ao alto mar!”.
Entre os oficiais estendeu-se um murmúrio que acabou por transformar-se em clamor:
“Ele está completamente louco, o barco vai afundar-se!”
Pelo contrário, muitos marinheiros ficaram contentes, ao verem que acabava a monotonia.
Quando a terra desapareceu da vista, desencadeou-se uma tempestade e então todos compreenderam que o regulamento vigente no porto não servia para o alto-mar. Alguns gritavam, mortos de medo:
“Voltemos para o porto, pois afundamo-nos.”
Mas, ao fim e ao cabo, os barcos foram feitos para navegar. E o regulamento começou a mudar.”
2. Impressiona como é que Francisco,
- com pulmão e meio,
- ciática,
- e 81 anos,
- mantém a energia para levar por diante a renovação da Igreja a favor da humanidade.
Quando naquele 13 de Março de 2013 – há cinco anos –
- apareceu à multidão
- simples,
- desejando “buona sera“,
- inclinando-se e pedindo a bênção aos fiéis,
- referindo-se a si mesmo apenas como bispo de Roma,
intuiu–se que a ordem agora era: “Rumo ao alto-mar!”
Depois, a intuição foi-se confirmando.
- Ficou na Casa de Santa Marta.
- Um carro modesto
- e uns sapatos normais pretos, de alguém que não pisa salões de senhores, mas os caminhos das pessoas, sobretudo das mais débeis e necessitadas.
Passados dias, abraçou com força aquele homem de rosto completamente desfigurado (sofre da doença de Von Recklinhausen).
Beija, conforta, anuncia sem cessar, por palavras e obras, que Deus é amor e misericórdia e que perdoa sempre – logo o acusaram de que agora vale tudo, esquecendo
- que o amor é tremendamente exigente
- e que ele próprio sabe que a vida não é fácil
- e dá disso testemunho numa vida imensamente austera e sacrificada.
Pela humildade, cordialidade, serviço, conquistou a simpatia de crentes e não crentes.
- Não se considera infalível,
- dá risadas,
- telefona a este e àquela.
- Quando é preciso, vai a um mictório público.
Um Papa cristão, apaixonado pelo Evangelho, notícia boa e felicitante!
- “A Igreja somos nós todos” ao serviço de todos.
- O clericalismo e o carreirismo são “a peste da Igreja”.
- Impõe-se reformar a fundo a Cúria Romana. Não podemos ficar “mumificados nas nossas estruturas”.
- Para a pedofilia, tolerância zero – se se equivoca, como aconteceu no Chile, vai emendar o erro.
- Transparência total no Banco do Vaticano.
- É preciso descentralizar a Igreja.
- Os leigos “não são funcionários do clero”.
- As mulheres têm de ocupar o seu lugar nos postos cimeiros de decisão, contra o machismo.
- Acabaram as condenações de teólogos.
- “O celibato dos padres não é um dogma.”
- É preciso continuar e aprofundar o diálogo com as outras Igrejas cristãs e também o diálogo inter-religioso.
Líder político-moral global, dos mais influentes e amados, se não o mais influente e amado – 45 milhões de seguidores no Twitter -, Francisco denuncia a financeirização especulativa da economia, “que mata”.
Sim à economia de mercado, mas social e ecológica de mercado, com acento no social e ecológica.
O seu combate a favor da paz não tem tréguas.
A sua leitura da Igreja e do mundo é a partir das periferias e o seu modelo é o poliedro.
3. Na síntese de franciscano por opção e de jesuíta por formação, Francisco pôs a Igreja em marcha, sem ser possível voltar atrás.
- Os opositores vêm sobretudo de cima e de dentro,
- porque não querem sair dos seus privilégios e instalação dogmática,
- esquecendo a vida.
Já Jesus tinha sido vítima dos instalados na religião, com os seus privilégios.
Disse que não sai a pontapé. Mas, quando já não puder, resignará e penso que não ficará no Vaticano, não há lugar para a figura de “Papa emérito”, será “bispo emérito de Roma”.
E, a seguir, do que a Igreja e o mundo precisam é de um João XXIV, na continuação de Francisco e João XXIII, o “Papa bom”, que na noite da abertura do Concílio Vaticano II observou à multidão que nem à Lua o acontecimento passara indiferente e pediu aos pais que levassem um beijo do Papa para os filhos.
Anselmo Borges
Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/francisco-e-depois-9172769.html

