Na Igreja de Francisco as raízes de 1968.  Conversa com Andrea Grillo

MATTEO ANGELI 24/01/18

Naquela época houve o início de uma tentativa de diálogo com a modernidade. “Depois de cinquenta anos, ainda estamos no meio de uma situação de mal-estar”, explica o professor de teologia e de filosofia da religião.

Tradução: Orlando Almeida

O ano de 1968 foi um divisor de águas para a Igreja Católica, obrigada então a iniciar um diálogo não fácil com a modernidade.

O que aconteceu com a transição que começou naqueles anos? A Igreja tem que mudar para sobreviver num mundo radicalmente diferente do de cinquenta anos atrás?

Conversamos sobre isso com Andrea Grillo, professor ordinário de teologia dos sacramentos e de filosofia da religião no Pontifício Ateneu Santo ‘Anselmo em Roma e professor de liturgia junto à Abadia de Santa Justina, em Pádua.

 

 

 

Andrea Grillo

Professor Grillo, o que representou 1968 para a Igreja Católica?

Foi, sobretudo, o ano seguinte ao Concílio Vaticano II. Como os anos imediatamente anteriores e os sucessivos, 1968 atesta uma situação complexa mal-estar , em que se vê em primeiro plano o início de uma tentativa de diálogo com a modernidade, que a Igreja experimentava de certa forma quase profeticamente.

Um início de diálogo com a modernidade nada simples …

É verdade. Em Sessenta e Oito também havia pontas de resistência, algumas das quais centrais na Igreja. Nesse sentido, Sessenta e Oito é também o ano da encíclica Humanae Vitae, que, com seu discurso todo centrado numa geração e numa sexualidade pensada segundo esquemas pré-modernos, representou – para uma parte da Igreja – um ponto de referência de resistência ao mundo moderno. 

Em suma, para a Igreja foi um ano difícil…

A Igreja viveu Sessenta e Oito

  • ou como confirmação da própria desconfiança
  • ou como uma estação promissora de abertura, de um lado bom da liberdade do homem.

De alguma maneira, a Igreja Católica estava preparada Sessenta e Oito pelo documento Dignitatis Humanae, que pela primeira vez introduziu a liberdade de consciência. Neste sentido, Sessenta e Oito pode ser visto como uma afirmação da liberdade.

 Mas?

O limite de Sessenta e Oito é talvez uma ideia de uma autoridade um tanto forçada, distorcida, e isso na Igreja Católica causou muita discussão e ainda causa hoje. Cinquenta anos depois de 1968 ainda estamos no meio de uma situação de mal-estar iniciada então.

 

O Papa visita à siderúrgica da ILVA*

Cinquenta anos depois de 1968, como se orienta a Igreja perante um mundo onde tudo está se tornando incerto e contingente?

Em Sessenta e Oito, a Igreja, que tinha vivido a afirmação do mundo moderno como um trauma, começava a entender que

  • nem tudo o que muda é negativo
  • e nem tudo o que é velho é positivo.

Isto hoje é rejeitado de maneira diferente:

  • o mundo muda a um ritmo muito mais rápido
  • e é muito mais fácil, em comparação com cinquenta anos atrás, pensar a fé cristã como uma espécie de rocha imutável, que deve simplesmente repetir a si mesma.

Esta é uma caricatura da Igreja.

Em que sentido?

Ao longo dos séculos, a Igreja sempre foi capaz não de adaptar-se ao mundo, mas de dizer o Evangelho de forma mais adequada. Esta operação hoje é feita por muitos na Igreja, mas desde quando – desde pouco menos de cinco anos – é feita pelo Papa, a coisa tornou-se ainda mais evidente e, para alguns, mais escandalosa.

Mas então a Igreja deve ou não mudar?

Se dissermos que deve traduzir a doutrina, então ela não deve mudar, porque a doutrina é sempre a mesma. No entanto, para traduzir a doutrina, é preciso a coragem de usar

  • palavras,
  • gestos
  • e linguagens novas para dizer o mesmo.

Como faz Francisco…

Francisco é um sinal dos tempos, porque está convencido de que não há alternativa para uma tradução muito corajosa

  • da doutrina moral,
  • da doutrina familiar,
  • da doutrina do ministério ordenado,
  • do modo de viver a relação eclesial,

ao contrário da ideia de que o sacerdote deve ser como no século XIX e a igreja como no século XIX.

 

Para muitos, o modelo do século XIX é o único modelo possível de catolicismo…

Então, a questão básica é: aceitamos traduzir o Evangelho em benefício dos homens e das mulheres ou pensamos, ao contrário que, para entendê-lo, se deve lê-lo como se lia há duzentos anos atrás?

 

Papa Francisco acolhe doze refugiados sírios

 Os detratores de Francisco acusam-no de ser um ‘comunista’. O que você acha desta alegada proximidade do Papa com os valores da esquerda?

Neste julgamento, usam-se categorias velhas. Se, por um lado, é claro que, em geral, esquerda e direita ainda têm algum sentido, por outro, também é verdade que uma direita aberta sabe que hoje não há alternativa para um mundo de movimento, de migrações, de mudanças de identidade. Pensar em resolver a metamorfose do mundo tardo moderno com a velha ideia de nação não é nem de direita nem de esquerda, mas simplesmente ser cego.

O Papa diz simplesmente coisas de bom senso, que, obviamente, não pegou só do bom senso, mas do Evangelho.

Explique-nos melhor…

Reconhecendo a dignidade de cada homem e de cada mulher – e isto, note-se, é um valor cristão que se tornou um dos valores da modernidade – não prevê a exclusão a priori de um sujeito apenas porque não pertence a uma comunidade política específica. Neste sentido, a ideia de acolhimento é uma grande ideia moderna, que a esquerda e a direita deveriam ter em comum.

E depois, mesmo que o mundo moderno tenha nascido em grande parte contra a Igreja, a ideia básica de igualdade, fraternidade e liberdade é uma grande ideia cristã. Isto, nós o entendemos com o Concílio Vaticano II.

Portanto?

O papa Francisco repete que, num mundo fortemente tentado a fechar-se em nível

  • nacional,
  • econômico
  • e identitário,

a abertura é a lógica do homem e de Deus; contradizendo-a geram-se monstros. Há um migrante em cada família nossa [italiana] mas, paradoxalmente, esquecemos isso. Politicamente, esta é uma cegueira.

 

Pio XII e Giulio Andreotti (à direita)

A influência da religião na política esgotou-se com o fim dos partidos de inspiração cristã?

Está na lógica das coisas que a influência da religião na política precisa de mediações novas e não pode contar simplesmente com o fato de o Bispo telefonar ao político de plantão para obter o respeito da lógica crente.

Hoje, devemos ter a lucidez de assumir o valor da laicidade do estado, que é um valor objetivo. Deste ponto de vista, o problema real não é tanto que a fé não tenha impacto na política, mas antes o fato de que a política responde a lógicas de curto prazo e não consegue sintonizar-se com as exigências do bem, da fraternidade, da liberdade e da igualdade, explorando lógicas de fechamento, que de imediato falam mais alto.

Que papel pode ter a fé em tal contexto?

As religiões ajudam a ter presente a dimensão de longo prazo, quando não se tornam simplesmente ideologias para apoiar a afirmação, conforme o caso, de um valor “seco”, que por sua vez, divide. Não é que a política não leve em consideração a religião, mas usa-a como slogan provisório, para fazer a guerra ou para fazer a paz, a favor ou contra a vida.

Acontece que a esquerda e a direita se alimentem de pequenas ou grandes palavras de Francisco que,  tiradas do contexto, podem servir só para operações de pequeno alcance, ao passo que Francisco faz discursos de grande alcance.

Mas Francisco não tem imediatamente uma responsabilidade política…

Sim, e nesse sentido é correto que a política também leve em consideração outros elementos. Mas quando se refere à religião, não deve referir-se a simples afirmações, ainda que importantes, mas sim a uma ideia abrangente.

Na política, os partidos identificam-se cada vez mais com os seus líderes. Está acontecendo a mesma coisa na Igreja com Francisco?

O “fenômeno de Bergoglio” é a sequência de tantos outros fenômenos. Não foi Bergoglio que inventou a personalização do papado. Esta remonta pelo menos a Pio IX. A partir de Pio IX, de fato, tudo foi feito para tornar o Papa um protagonista do debate político, que se relaciona com os grandes chefes de Estado. Esta é uma resposta da Igreja à modernidade. Uma resposta ambígua, porque o valor do Papa não é o de atrair para si a atenção, mas de projetar a luz noutro lugar.

Pio IX 

Francisco, um protagonista inevitável?

Isso é devido também às características de sua mensagem, que, no entanto, se lermos para além dos slogans, é uma mensagem que insiste continuamente na necessidade de sair da centralização no Papa e no Bispo, recuperando uma subjetividade eclesial comunitária.

Neste sentido, Francisco insistiu na necessidade de libertar-se da auto-referencialidade e, sobretudo, da auto-referencialidade papal.

Ou seja?

Bergoglio aproveita o fato de ter toda sobre si toda a atenção, mas sabe também que este é um dos seus limites. Basta ler Amoris laetitia para entender que a pastoral da família já não é feita mais somente pelos bispos, mas também pelos párocos e pelos cônjuges, dentro das particularidades da Igreja tal como é distribuída nos cinco continentes.

Esta coisa, tão forte, não a ouvíamos há duzentos anos e é uma grande novidade, diante da qual alguns ficam escandalizados, exatamente  porque contradiz a ideia de “pede ao Papa e  o Papa resolve”. Esta última é uma ideia “napoleônica” do papado. O papado que resolve tudo a partir do centro é uma figura tardo moderna da Igreja Católica, que devemos superar.

* Grande empresa italiana que se dedica à produção de aço. O seu principal estabelecimento fica em Taranto, na região da Puglia (no calcanhar da ‘bota’ italiana). Ilva é nome latino da ilha de Elba, conhecida desde a antiguidade pelas suas minas de ferro

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