A carta de Estrella Gutiérrez ao Papa

Redação de Atrio, 24 de janeiro a 2018

 Santiago 20/08/18 -Tradução: Orlando Almeida

“Dói-me muito constatar que muitos dos comentários das pessoas ‘COMECURAS’* que conheço – entre elas, os meus próprios irmãos de sangue e alguns amigos – a respeito do seu apoio explícito ao Bispo Barros, são comentários que têm muita razão, a tal ponto que diante dessas pessoas, não tenho argumentos, acabam-se todas as minhas certezas, fico calada, humilhada, envergonhada, órfã, triste”

Caro Papa Francisco:

Esta tarde, gostaria de abrir meu coração para lhe contar a profunda amargura que a sua visita me deixou.

Sei que não tenho o direito de julgá-lo. O senhor é o Papa, o chefe máximo da Igreja. Eu, uma simples mulher leiga, cuja fé na Igreja muitas vezes vacila e nos últimos dias muito mais.

Gostaria de poder falar-lhe externando os meus sentimentos.

Aprendi isso nos Encontros Matrimoniais de que participei com Luciano, o meu falecido marido, e tratei de pôr em prática durante quase 40 anos da minha vida matrimonial. Para Luciano, foi a melhor maneira de continuar a ser padre.

SIM, A MELHOR MANEIRA DE CONTINUAR A SER UM PADRE CASADO, pois o padre Marcelo Veillieux, um missionário canadense que havia chegado recentemente ao nosso setor, teve a audácia de aceitá-lo como mais um para trabalhar com ele no nosso setor e, ao deixar o país, uma ainda maior audácia de pedir ao meu esposo que, junto comigo, continuássemos assessorando este trabalho apostólico neste setor de Santiago oeste.

 

Mas voltemos ao mais importante. O motivo desta carta:

Ao compartilhar como me sinto, querido irmão Francisco, SAIBA QUE NÃO O ESTOU JULGANDO, mas como eu gostaria que você me escutasse com o coração! Não a mim somente mas, através de mim, nos escutasse com o coração, a tantos homens e mulheres que nos sentimos tão desolados!

Dói-me muito constatar que muitos dos comentários das pessoas ‘COMECURAS’* que conheço – entre elas, os meus próprios irmãos de sangue e alguns amigos – a respeito do seu apoio explícito ao Bispo Barros, são comentários que têm muita razão, a tal ponto que diante dessas pessoas, não tenho argumentos, acabam-se todas as minhas certezas, fico calada, humilhada, envergonhada, órfã, triste.

Não sei, irmão Francisco, se você soube medir as suas palavras, ou se os jornalistas as tiraram da sua boca devido ao cansaço, mas se você quis dar-nos a sua paz em nome do Senhor, esta foi muito fugaz e durou pouco mais do que dura uma Missa.

Com base na minha experiência como mãe de três filhos posso assegurar-lhe que quando eram pequenos e vi meus filhos brigando entre eles, tive de escutá-los mais de uma vez e instá-los a aceitarem-se mutuamente, até poder comprovar que  nenhum deles tinha ficado machucado ou gravemente ferido. Enquanto isso não acontecesse, era humanamente impossível comer juntos na mesma mesa familiar… ou, se o fazíamos, havia um silêncio doloroso que até a refeição nos fazia mal. Não era uma festa mas uma tristeza.

Por isso, querido irmão Francisco, quero dizer-lhe que oxalá ao chegar a Roma, se lembre desta gente entristecida, que ficou ainda mais ferida depois da sua visita ao Chile. Que, quando for fazer a sua oferenda, na Missa diária, oxalá se lembre do que o Evangelista Lucas diz no seu Cap. 15, “Se te lembras de que o teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda e vai reconciliar-te com o teu irmão”. Certamente será difícil que você tome de novo um avião e venha visitar-nos novamente, mas saiba que estaremos esperando algum gesto da sua parte para poder celebrar de novo com alegria, a ceia do Senhor.

Irmão Francisco, você pediu-nos para orarmos por você. Continuaremos a fazê-lo.

Deus o abençoe e lhe dê as forças necessárias para conduzir o povo de Deus para novas pastagens e fontes de água viva. Sem elas, o rebanho corre o risco de morrer de fome e de sede.

Receba um abraço fraterno desde o Chile da parte de uma mulher chilena que tenta seguir Jesus.

                       

Estrella Gutiérrez

Fonte: http://www.atrio.org/2018/01/la-carta-de-estrella-al-papa/#comentarios

 

* “Comecura – persona que despotrica conta la Iglesia Catolica y sua curas” (DICIONARIO DE LA HABLA VULGAR DE CHILE): ‘Comecura’ – pessoa que ataca a Igreja Católica e os seus sacerdotes.

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