A Igreja de Cristo?

 

Qual das muitas igrejas de hoje é a Igreja de Cristo? Todas elas juntas? Ou haverá, por acaso, uma dentre elas com credenciais de se impor às demais como a única verdadeira Igreja de Cristo?

 

Todas elas respondem, a seu modo, a algum requisito essencial da mensagem de Cristo. Falta, porém, a todas elas um requisito fundamental: a incorporação orgânica num único Todo eclesial. São muitas e sua variedade poderia ser benéfica. Mas todas elas têm em comum a mesma tendência: a de encararem a variedade como desvio da unidade e da ortodoxia e não como manifestação de vitalidade! Falta aos cristãos, entre outras carências, aquele elo que há milênios mantém unido o povo judeu. O amor a uma causa comum, maior do que a sua Igreja. Em vez de serem ponto de contato e elos de comunhão, as Igrejas todas, sem exceção, se comportam mais como seitas do que como Igrejas. Os templos estão ficando vazios. Muitos deles viraram museus. Há séculos que uma Igreja católica é um lugar onde não há mais espaço para um protestante. E vice-versa. Tudo isto deveria ser causa de alarme e motivo de escândalo. Entretanto, não o é mais.

A Igreja não é mais a túnica inconsútil de Cristo. Foi rasgada, dividida a centenas de pedaços, ficando cada fragmento com a pretensão de ser a verdadeira Igreja de Cristo. A Igreja católica reclama para si o direito de se proclamar a única verdadeira Igreja de Cristo, por se a mais antiga. Parte do pressuposto de que a separação ocorreu por conta e iniciativa de outros, e não por culpa de Roma.

A restauração da unidade eclesial não se dará sob a forma de uma volta ao aprisco de ovelhas transviadas. Não foram as ovelhas que romperam a unidade da Igreja de Cristo. Foram pastores, e pastores altamente graduados. É loucura esperar que homens carregados de privilégios e de poder se disporão a abrir mão de tudo o que lembra poder, para ocuparem o último lugar na Igreja de Cristo. Não é por acaso que todos os cânones religiosos consagram o princípio da hierarquia como fonte sagrada de poder.

A reunificação da Igreja não será jamais o resultado de uma decisão de cúpula. É o povo que vai se encarregar de varrer, para longe da sua Igreja, o culto idolátrico do poder eclesiástico. Não serão os que competem com os setores religiosos na luta pelo poder econômico-político. A renovação da vida cristã será obra de homens e mulheres que renunciaram a toda e qualquer forma de poder e resolveram apostar todas as suas fichas no amor. Onde vigora o princípio da autoridade sempre há quem queira ser mais que os outros ou se considere superior a eles. Tudo é radicalmente diferente lá onde reina a caridade de Cristo: a lei da graça.

O poder confere autoridade. E a autoridade torna a quem a possui, superior aos que não a possuem, mas dela dependem. Santo Tomás de Aquino considera a autoridade e o exercício do poder uma necessidade e consequência do pecado original. Que um homem tivesse a obrigação de sujeitar a sua vontade à de outro homem era algo não previsto no projeto original do Criador. Livrar-se do pecado significa, portanto, libertar-se, o mais que for possível, da tutela exercida por homens, ainda que os que a exercem se façam passar por representantes de Deus.

O fato de se colocarem em oposição frontal a toda a forma de tirania e tutela religiosa trouxe muita perseguição aos profetas do povo de Israel. Javé, em nome do qual se apresentavam, era um Deus que não interessava por ser o Senhor de um povo escravo. Qualquer imbecil pode ser feitor de escravos. Ser senhor e soberano de um povo livre é desafio que vai muito além da capacidade humana. É desafio digno de Deus!

José Marcos Bach* (in memoriam)

(Texto do livro A Esperança Cristã: guardar tradições ou abrir horizontes? – ps. 59-61 – Publicado em 1999 pela Paulus Editora – São Paulo).

* Texto enviado por Célia Bach, prima, companheira e parceira intelectual do autor, desde 1977, quando ele deixou a Ordem dos Jesuítas, até sua morte, em 2011.
Marcos Bach, doutor em Teologia, é autor de mais de 15 livros publicados e de mais de 20 não publicados. Entre os publicados:
– A caminho da verdade interior. Liberte-se meditando. (Petrópolis: Vozes, 1986). (escrito em co-autoria com Célia.
– A esperança cristã: guardar tradições ou abrir horizontes? (São Paulo: Paulus, 1999)
– Uma Nova Moral? (Petrópolis: Vozes, 1990).

“A inspiração de Pe. Marcus Bach vem do também jesuíta Teilhard de Chardin, outro que foi incompreendido por todos de sua época. Por isso, é possível entender porque, entre os livros de Bach não publicados, parados lá na estante, estão obras que falam sobre ciência e Deus, teoria quântica, Deus, caos e ordem, novos laços afetivos na pós-modernidade, entre outros temas que definitivamente, para muitos, ainda não fazem sentido. E o jesuíta garante: “Hoje, os cientistas estão mais perto de Deus do que os teólogos”. – do texto abaixo: http://www.unisinos.br/blogs/ihu?s=Marcos+bach

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  • Uma resposta

    1. Muito agradecida aos padres casados pela matéria postada sobre Pe. Marcos Bach. Fico sempre feliz quando suas reflexões e ideias são divulgadas e assim possam fazer algum bem. Somos um TODO na humanidade e na Igreja de Jesus Cristo!

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