Jesus Bastante, 12/01/2017
O núncio no Chile “complicou e bloqueou” a renúncia de Juan Barros do EditarEditar status
Roma queria que os prelados próximos a Karadima tirassem um ano sabático e em seguida renunciassem. Barros tomou posse em meio a protestos. Juan Barros negou ter conhecimento da existência da carta e assegurou à agência: “nunca tive conhecimento ou imaginei os graves abusos que este padre cometia com as suas vítimas”.
Tradução:Orlando Almeida
O Papa Francisco queria impedir o “caso Barros” … e não pôde. Esta é uma das conclusões que podem ser extraídas de uma carta que Bergolio enviou à Conferência Episcopal do Chile em 31 de janeiro de 2015, e que a Associated Press acaba de ser revelar.
Nela, o Papa revela que tentou pedir a renúncia ao atual bispo de Osorno e a outros dois prelados ligados ao pederasta Fernando Karadima e que haviam sido acusados de encobrimento. No entanto, algo falhou. O que realmente aconteceu?
O Papa tenta explicá-lo na carta:
“Surgiu então, no final do ano (últimos dias de dezembro de 2014), surgiu um problema sério: o Sr. Núncio (Ivo Scapolo) pede a Mons. Barros a renúncia e exorta-o a tirar um período sabático (um ano, por exemplo) antes de assumir outra responsabilidade pastoral como bispo diocesano. E comentou com ele que o mesmo procedimento será tomado com os bispos de Talca e de Linares (também implicados no caso Karadima), mas que não o dissera a eles”.
No entanto, a carta papal continua: “o bispo Barros envia o texto de sua renúncia acrescentando este comentário do núncio”. Um Núncio não concordado com o Papa? Isso parece depreender-se do parágrafo seguinte da carta de Francisco:
“Como os Senhores podem compreender, este comentário do Sr. Núncio complicou e bloqueou qualquer outro caminho ulterior no sentido de oferecer um ano sabático. Falámos do assunto com o Cardeal Ouellet e eu sei que ele falou com o Senhor Núncio”.
Tudo parece indicar que o núncio se antecipou aos desejos do Papa e que, ao ‘exortar’ Barros a renunciar, impediu um diálogo entre o polémico bispo e Francisco. Então, Barros não apresentaria a sua demissão voluntariamente, mas obrigado pelo representante papal, que deve ter sido admoestado pelo cardeal Ouellet. No entanto, a atuação do Núncio “complicou e bloqueou” qualquer solução para a questão Osorno.
Segundo a Associated Press, o Vaticano estava preocupado com
“os danos colaterais que seriam provocados pelo caso do maior pederasta padre do Chile e tentou pôr em marcha um plano: pedir a renúncia e dar um ano sabático a três bispos chilenos acusados de ter encoberto os abusos desse padre”.
No fim, em 10 de janeiro de 2015, Francisco nomeou Barros bispo da cidade de Osorno, a cerca de 930 quilômetros ao sul da capital chilena, provocando uma catarata de protestos que se tornaram visíveis no dia da sua ordenação* episcopal e que, três anos depois, ainda continuam.
Espera-se que, durante a iminente visita do Papa ao Chile, o “caso Osorno” volte à cena. De fato, algumas das vítimas de Karadima pediram para se encontrar com o Papa, sem que até o momento se tenha confirmado qualquer reunião.
Perguntado sobre isso, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, evita fazer qualquer comentário, embora tenha dito que os fiéis de Osorno contrários a Barros são livres para se manifestarem e a santa Sé respeita o seu direito de fazê-lo.
A Associated Press também perguntou sobre a carta ao presidente da Conferência Episcopal e aos membros do seu Comitê Permanente, mas ninguém respondeu. Por sua parte, Juan Barros negou ter conhecimento da existência da carta – foi enviada apenas ao Comitê Permanente, do qual Barros não era membro – e assegurou à agência: “nunca tive conhecimento ou imaginei os graves abusos que este sacerdote cometia com as suas vítimas”.
“Não aprovei nem participei desses fatos gravemente desonestos e nunca fui sancionado por um tribunal a esse respeito” – acrescentou, sem revelar se apresentou ou não a renúncia de que o Papa fala, ou se o núncio o exortou a fazê-lo.
* Equívoco (ou deslize) do articulista. Juan Barros já era bispo desde 1995: nomeado, pelo Papa João Paulo II bispo auxiliar de Valparaíso em 12 de abril de 1995, foi ordenado como tal em 29 de junho de 1995. Posteriormente o mesmo João Paulo II nomeou-o bispo de Iquique , em 21 de novembro de 2000, e sucessivamente bispo castrense do Chile em 9 de outubro de 2004,
Jesus Bastante, 12 de janeiro de 2018

