Perdão ao ex-presidente do Peru turva as águas para a viagem do Papa

Manifestantes protestam contra o perdão ao ex-presidente Alberto Fujimori em Lima, Peru, na segunda-feira, 25 de dezembro de 2017.    (Crédito: Martin Mejia / AP.)

ROSARIO, Argentina – Não sendo alguém que escolhe destinos fáceis para as suas para suas viagens ao exterior, o Papa Francisco vai ao Chile e ao Peru no final deste mês para a sexta visita à América Latina, e dizer que ele terá que enfrentar alguns desafios é uma meia verdade.

Os últimos dias presentearam-no com ainda outro desafio no Peru: um perdão presidencial ao ex-presidente Alberto Fujimori, que estava na prisão por uma série de crimes financeiros e de violações dos direitos humanos durante seu mandato na década de 1990.

A decisão foi tomada pelo presidente Pedro Pablo Kuczynski, três dias depois que o partido do filho de Fujimori se recusou a dar ao congresso a maioria necessária para depor Kuczynski por supostamente ter aceitado 5 milhões de dólares da Odebrecht, uma empresa brasileira de construção envolvida em escândalos.

O gigante brasileiro foi acusado de pagar subornos a líderes políticos em vários países, incluindo Estados Unidos, Peru, Angola, Argentina, Colômbia, Equador, Guatemala, México, Moçambique, Panamá, República Dominicana, Venezuela e Brasil.

Depois que Kuczynski anunciou a decisão de perdoar Fujimori em 24 de dezembro, apenas duas vozes na hierarquia católica peruana divulgaram a sua opinião e ambas foram desfavoráveis. Anteriormente, vários bispos do país, incluindo o cardeal da capital nacional Lima, tinham sido citados como favoráveis a uma soltura antecipada de Fujimori, um homem que muitos no país, inclusive o próprio Kuczynski, ainda consideram como o melhor presidente que o Peru já teve.

Agora com 79 anos, Fujimori estava cumprindo uma sentença de 25 anos por violações de direitos humanos que um esquadrão da morte composto por militares cometeu debaixo dos seus olhos e também por crimes financeiros. Antes do perdão cerca de 73% dos peruanos eram a favor dele. Uma semana depois, em meio a uma forte campanha da mídia e protestos nas ruas, o número baixou para 56%.

Federico Prieto, um advogado e jornalista peruano, que por muito tempo esteve acompanhando o caso de Fujimori, acredita que na época da visita do papa, as pesquisas voltarão ao que elas mostravam nos últimos anos: para cada pessoa contrária a soltar Fujimori, havia duas a favor.

Fujimori foi extraditado do Chile para o Peru em 2007, quando foi sentenciado com base em várias acusações. No entanto Prieto disse à Crux que a sentença era inválida.

Ele deu várias razões, incluindo o fato de que o homem que presidia a Suprema Corte na época tinha sido removido do seu cargo por Fujimori, de modo que deveria ter-se abstido de participar do julgamento e não o fez. Outra razão é que, entre as acusações apresentadas pelo Chile, não houve nada sobre crimes contra a humanidade, mas eles foram considerados na decisão, tornando-a nula.

Prieto também deu várias razões para apoiar aqueles que dizem que Fujimori foi o melhor presidente do país, incluindo a derrocada  da organização terrorista Sendero Luminoso [trilha luminosa], ter acabado com a inflação que desvalorizou  o Sol – a moeda do Peru – tanto que ela foi trocada pelo Novo Sol a uma taxa de um milhão por  um, e ter resolvido um longo conflito de fronteiras com o Equador.

Do outro lado está o arcebispo Hector Miguel Cabrejos, de Trujillo, que definiu o perdão como um “compromisso político” que está colocando em risco as instituições do país.

O arcebispo disse que a paz social não pode ser construída no Peru a partir de uma proposta de reconciliação que, “longe de unir, gera um ‘embate’ maior”.

As palavras de Cabrejos vieram através de um comunicado divulgado no final de dezembro. No qual ele diz estar “muito preocupado” com os acontecimentos, instando as autoridades a salvaguardar a confiança que os cidadãos depositaram nelas.

“Os peruanos têm direito a que nossas autoridades se comportem de acordo com a verdade, sem agendas ocultas ou relativismos, e a que, no exercício da sua função, trabalhem baseadas nos pilares da ética, da moralidade e da primazia do bem comum” – escreveu ele.

O bispo Ángel Francisco Simón Piorno, de Chimbote, foi um pouco mais cauteloso, criticando o momento do perdão, se não o perdão em si mesmo. Ele considera que a decisão tomada por Kuczynski desestabilizou o país.

“Este não é o momento certo para perdoar Fujimori: o Peru está desestabilizado e em conflito, e o Papa Francisco chegará neste cenário. Por esta razão, eu temo que a sua recepção não seja a mesma, em meio a uma crise nacional” –  disse Simon.

Eu percebi que ele não estava “surpreso” com o perdão, mas com o momento, refletindo o sentimento de que o perdão foi dado como uma troca de favores políticos que permitiu a Kuczynski permanecer no poder.

“Esta é a impressão que as pessoas têm. Felizmente, a realidade é diferente” – disse ele.

Simon também se referiu ao pedido de desculpas que Fujimori emitiu da sua cama de hospital depois de sair da prisão, e que foi divulgado através da mídia social.

“Estou ciente de que os resultados durante o meu governo, por um lado, foram bem recebidos”– disse ele no vídeo. – “Por outro lado,  reconheço que também desapontei outros compatriotas peruanos. A eles peço, de todo o meu coração, que me perdoem”.

“Pedir perdão pelas coisas que não foram feitas corretamente não é suficiente, mas acredito que ele deveria ter feito referências explícitas às mortes em La Cantuta, e em Barrios Altos, que foram os dois casos mais emblemáticos de seu governo e pelos quais ele foi sentenciado” – disse Simon.

Em 1991, 15 pessoas, incluindo uma criança de oito anos, foram mortas por militares de um esquadrão da morte em Barrios Altos, subúrbio de Lima. Eles eram suspeitos de serem membros do Sendero Luminoso.

Em 1992, dez outros suspeitos de serem membros do Sendero Luminoso –  um professor e dez alunos da Universidade La Cantuta de Lima –  foram sequestrados e assassinados na capital.

No entanto, aqueles que são a favor do perdão a Fujimori são rápidos em observar que a ordem,  que ele deu de desbaratar a organização terrorista Sendero Luminoso, instava especificamente os militares a colocar os insurgentes  na prisão, pedindo o fim das mortes que eram a ação preferida do presidente anterior, Alan Garcia, que matou muitos mais gnte e “anda livremente” – diz Prieto, o jornalista.

Apesar da sua defesa aberta de Fujimori, Prieto também reconheceu que ele não estava completamente sem culpa: o homem que Fujimori encarregou de chefiar as forças da inteligência – disse ele – era “um gênio do mal”. O presidente era “provavelmente informado depois do fato das mortes”, mas nunca substituiu aquele homem, Vladimiro Montesinos. Vídeos que mostram Montesinos subornando deputados forçaram-no a fugir do país e levaram à renúncia de Fujimori.

O bispo Ricardo Garcia, de Yauyos, presidente da Comissão de Diálogo da Igreja com a Sociedade,  da Conferência Episcopal peruana, disse que vê um “conflito” entre as facções a favor e contra o perdão, e que é difícil determinar quem trabalha para quem. Ele espera que Francisco possa “acalmar as coisas”, pedindo diálogo e unidade num país que está fortemente dividido.

“A minha percepção, – eu vivo numa região costeira e montanhosa, – é que as pessoas, para além de serem a favor ou contra Fujimori, querem paz” – disse ele à Crux por telefone. “Ele estando na prisão ou livre ele gera conflito, raiva, e as pessoas estão prontas para seguir em frente, então as pessoas aqui estão a favor. Não porque estejam com ele, mas porque querem virar a página”.

O bispo, membro do Opus Dei, concorda com Prieto quando se trata da crise social em curso. Milhares saíram recentemente às ruas para contestar o perdão presidencial, mas provavelmente irão se acalmar no momento da visita papal.

“Conhecendo o nosso povo, o conflito vai diminuir, porque a vida continua” – disse ele.

Resta ver como Francisco irá se posicionar em relação à questão. As notícias poderão ser reduzidas ao que ele fizer durante a viagem: sendo o papa misericordioso – Fujimori é, depois de tudo, um homem doente de 79 anos que passou a última década na prisão – ou sendo o papa anti-corrupção.

Também é plausível, no entanto, que ele perceba que a situação é muito mais complicada que pode parecer, e decida ficar de fora, pedindo em lugar disso diálogo, paz e justiça.

https://cruxnow.com/global-church/2018/01/05/pardon-ex-president-peru-muddies-waters-popes.

Autonra: Inés San Martín – CORRESPONDENTE NO VATICANO

Fonte: Enviado por Orlando Almeida – Goiânia – Brasil

 

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