REFLEXÕES CONCRETAS EMBASADAS SOBRE UMA METÁFORA

No dia 30 de janeiro, último domingo do mês, depois de um bom período sem ali comparecer, participei da celebração, pela noite, da liturgia na Catedral Metropolitana de Vitória da Conquista, Festa da Sagrada Família.

No momento das Orações dos Fiéis eis que surge um fato totalmente inusitado nessa celebração: naquele momento dois ministros que serviam ao Altar, as pressas, retiram do átrio da Igreja a cadeira (Cátedra) do arcebispo e a levam correndo para a sacristia, o que me deixou totalmente intrigado com aquela situação e fez com que eu não mais conseguisse participar totalmente daquela celebração.

No final da celebração, já do lado de fora, abordei um seminarista, sendo ele um dos dois que havia retirado a cadeira, e lhe indaguei sobre aquele fato e ele imediatamente me teceu um rosário de razões. Dentro de todos os fatos eis um resumo central: a cadeira foi retirada as pressas naquele momento para que fosse evitada que uma senhora que acabava de adentrar na Igreja e caminhava em direção ao Altar não sentasse nela, como já ocorrido outras vezes, inclusive com a presença (nessa celebração do dia 30 ele não estava presente…) do próprio arcebispo metropolitano, e que essa senhora sempre em todas as celebrações em que a cadeira se coloca presente, ela tem essa atitude intempestiva, demonstrando a todos o grau de sua loucura; e que essa loucura de forma mais potente já havia se manifestado em outros momentos de vida eclesial; inclusive ela já, fora de celebrações, tinha feito insinuações libidinosas para padres e freis…

De fato reconheço a loucura dessa senhora, só que há muito tempo já me manifestei sobre a forma de ela ser e de como ela é tratada dentro da nossa realidade de Igreja, ocorrendo que, sem dúvida nenhuma, ela até causa um certo incomodo. Mas só que a loucura dessa senhora aumentou muito mais porque, enquanto Igreja de comunhão e de fraternidade, nós não soubemos escutar o seu gemido de socorro: ela ficou desse jeito depois que seu marido, que era motorista de ônibus, foi barbaramente assassinado, e ela, na busca de apoio por sua fé, acabou ficando deslocada. A Igreja, aqui representada por todos nós  seus fiéis e pela hierarquia próxima a ela, não soube prestar-lhe o socorro que ela na Igreja buscava. E assim, sem afastar-se da Igreja, ela continuou, mesmo nos seus devaneios, a manifestar o seu testemunho de fé; e uma das características dela, em todas as celebrações em que ela se faz presente, solenes ou não,  é ir se colocar no Altar, ocupando a Cátedra do Arcebispo ou a de qualquer outro ministro do Altar…

Para mim isso nunca se tornou um incômodo, mas uma manifestação concreta de algo que a Igreja precisa encarar como mudança nas suas hostes, ainda mais que ela representa  o anseio,  só não desejado pela hierarquia, de que um dia as mulheres também ocupem lugar de destaque no Altar, principalmente nas celebrações eucarísticas, quiçá até mesmo vindo a celebrar a Eucaristia…

 

Usando o gesto ocasionado por ela, como eco das aflições que se abateram sobre mim após aquela celebração, e que trouxe para minha pessoa momentos fortes de reflexões, aqui, em forma de confissão aberta, uso de algumas metáforas (expondo-as abaixo), esperando que um dia se transformem  em fatos  concretos e tragam  bons auspícios para esses momentos letárgicos  que vivenciamos na nossa Igreja particular:

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira” que nos faz ficar acomodados perante a situação dos fracos e oprimidos;

·         que sejamos capazes de tirar ”a cadeira” que só representa a plena realeza no seio de nossa Igreja e que nos faz ficarmos à parte da realidade do mundo, sem sermos capazes de aferirmos a consciência de uma fé embasada em Jesus Cristo, destoante da plenitude hierárquica;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  que faz com que nossas celebrações litúrgicas denotem muito mais exclusão do que uma plena realidade de comum-união;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  que mantém o fosso, de fato e concreto, ambíguo que amplia o hiato da separação entre hierarquia e laicato, desnivelando a realidade de irmandade que o Cristo nos deu;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  que mostra a falta de unidade e fraternidade no seio da hierarquia, o que denota a falta da compreensão e vivência da própria essência do ser cristão, deixando sempre antever  que o que deve valer são os privilégios e não o serviço aos irmãos e irmãs pelo Cristo e com o Cristo;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  que marginaliza, pela exclusão de forma direta, a participação vivaz das mulheres (assim como dos  pobres e marginalizados), e que possa ser-lhes concedida uma plenitude mais direta no servir ao Altar;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  e irmos além de nossos tempos e não impondo (como já acontece em determinadas comunidades) o véu sobre as cabeças das mulheres, o uso das batinas e dos clergimans (inda mais em seminaristas…), dentre ouras aberrações, configurando que elas destilam mais a verve institucional e ampliam o fosso de uma Igreja que não vive a mensagem de Cristo;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  das homilias insossas e que não trazem a vivência dos ensinamentos do Cristo, encarnado na entrega à causa dos mais fracos e oprimidos. Na nossa Igreja particular, de cima dos púlpitos, não mais conseguimos fazer ecoar o grito da Igreja que clama por justiça e pelos mais fracos e oprimidos. Vejam, por exemplo, o que paira sobre dom Pedro Casaldaliga, no Xingu, em sua defesa pelo direito à terra dos Xavantes, e que de todo o mundo vêm manifestações de solidariedade contra as ameaças de morte a ele. Mesmo neste Ano da Fé muitas vezes as pregações “sobre o que nos é ditado de cima” não correspondem ao clamor dos de baixo e que por assim ser acabam indo por águas abaixo, aumentando muito mais a falta de vontade do se engajar “nos serviços e pastorais” da Igreja;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  que nos faz ficarmos inertes sobre a falsa moral das pregações e vivências de fé, ocorrendo que muitas vezes cabe aos leigos e leigas se calarem em público, por submissão absoluta aos desvios de conduta “dos de cima”, no alto da pirâmide da vida e da estrutura eclesial;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  que nos faz ficarmos somente no encantamento por causa dos templos cheios, das celebrações litúrgicas, assim agindo na perspectiva real de acreditarmos que já estamos caminhando “para nossa salvação” e por ser assim, isso nos basta;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  e os tapetes vermelhos que fazem com que nossas celebrações, principalmente as solenes, sejam muito mais destaques de institucionalidade do que uma realidade de celebrações de irmãs e irmãos que buscam a encarnação do Cristo  no meio do seu povo;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  que nos impede de vivenciarmos uma plena democracia no seio da nossa vida e dentro da Igreja;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  que nos mantém muito mais sob o primado da institucionalidade (plena realeza..), do que em sermos uma Igreja que serve aos mais fracos e oprimidos;

·         que sejamos capazes de tirar “a cadeira”, principalmente na realidade da Igreja particular da Arquidiocese de Vitória da Conquista, para fazer com que nossa hierarquia, na qual nós leigos e leigas ainda vivemos sob uma dependência  antidemocrática, fora de uma constituição real de Igreja comunitária -, assuma mais suas responsabilidades e tenha uma realidade de plena comum-união com seus fiéis. Esse desejo aqui eu manifesto devido aos sintomas de distanciamento (notadamente por parte daqueles que “são designados” e assumem as coordenações  diretas junto às pastorais e movimentos…) de nossas pastorais e de nossos movimentos, ocorrendo que muitas vezes, pela falta de dialogo e comum-união, mesmo mantidas/os pelo imenso esforço de leigos e leigas, alguns desses trabalhos acabam se esvaindo. Como exemplo – deixando claro que esse relato o faço sem autorização direta dos membros dessa pastoral – cito um fato que envolve a pastoral carcerária: pela ausência do padre responsável algumas atividades acabam não indo pra frente. E o pior aconteceu recentemente: uma das voluntárias, que se entregava diuturnamente aos serviços da pastoral – inclusive estando quase todo dia no presídio e nas cadeias para encaminhamentos de ordem prática e por auxilio cristão –  e por essa entrega, inda mais que ela abria mãos de trabalhos familiares cotidianos, ela, por direito pleno, tinha uma remuneração. Só que agora essa remuneração lhe foi tirada, e por necessidade a mesma terá que correr atrás de trabalho (lembrando que a sua ação na pastoral carcerária não era encarada como trabalho, mas sim como atitude evangélica, mas pela sua entrega total a necessidade de remunerá-la se fazia necessária…),  e assim terá que se abstrair dessa sua entrega total à causa dos presos e de seus familiares; e assim permanecerá uma lacuna infinita na continuidade desse santo e necessário trabalho;

que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  que possa fazer com que a hierarquia, assim como se manifestou, não medindo esforços, para a sua participação direta em Roma pelo Ano Sacerdotal, apoie de forma concreta, nossos jovens na participação da Jornada Mundial da Juventude (JMJ/2013…), e que assim como eles já “tem  certeza de terem cadeira cativa nesse evento”, possam ajudar não só na arrecadação dos recursos necessários, mais também dar um suporte de fé, dando bons exemplos aos jovens que irão, para que essa Jornada não acabe sendo somente momentos lúdicos e de realeza, mas que tenham uma inferência na caminhada constante na essência cristã, voltando a fazer com que a Igreja veja neles a certeza preferencial do seu existir, assim como deverá também ser com os mais pobres e oprimidos…;

enfim que sejamos capazes de tirar “a cadeira”  que mostra o quanto não estamos assentados sobre um verdadeiro pilar de fé embasada sobre o evangelho de Cristo, por Cristo e em Cristo…

E assim, irmãos e irmãs, mais uma vez deixo-lhes minhas inquietações, esperando que surjam não somente manifestações em forma de reprimendas ou concordâncias a mim, mas que levem ao seio de nossas comunidades uma realidade, inda mais nesse ano de 2013, de uma Igreja que poderá voltar a acordar e ser sinal de presença da essência do Cristo no seio do seu povo e do mundo, e não continuando na apatia e na subserviência aos poderes constituídos, como notadamente vivenciarmos em 2012, principalmente na realidade concreta da Igreja particular da Arquidiocese de Vitória da Conquista). Pedindo a Deus que nos permita sermos cada vez mais sinais reais de sua presença, ultrapassando o cerne da institucionalidade, nesse mundo que clama cada vez mais por ABA PAI, e que mais do que nunca tornemo-nos dignos e dignas de dar sentido a esse clamor, pela graça do Cristo Nosso Senhor!

Hélio da Silva Gusmão Filho – Helinho.

Cristão ainda perseverante e crente na fé.

Fonte: enviado por e-mail pelo mesmo.

 

Uma resposta

  1. Olá, Helinho, ótimo seu “levantamento” das necessidades que a Igreja precisa tomar em consideração se quiser prosseguir na causa de ser cristã. Agora sugiro que “coloque” as cadeiras da participação. Acho que existem muitos leigos e leigas que poderiam dar ótimas sugestões de como tornar-nos uma Igreja mais participativa, comunitária e vanguardeira da fé em Jesus Cristo e sua Boa-Nova tão maltratada! Sim, é preciso acordar e arregaçar as mangas. Queremos ser uma Igreja Viva e não uma “velha matrona” sentada em cima de uma cadeira dando ordens!

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