Ainda com os diálogos do Papa Francisco e de Dominique Wolton: Politique et Société. Concluo.

Anselmo Borges – 21/10/2017
Foto: Francisco e a Política -Foto CTV
1. Um tema que atravessa todo o livro é a política. Francisco pronuncia-se sob múltiplos ângulos. Trump “terá dito de mim que sou um homem político… Agradeci-lhe, porque Aristóteles define a pessoa humana como um animal político, e é uma honra para mim. Portanto, sou, pelo menos, uma pessoa!
A política, a grande política, é uma das formas mais elevadas de amor. Porquê? Porque está orientada para o bem comum de todos”.“Há sempre uma relação com a política. Porque a pastoral não pode não ser política”, para indicar caminhos e valores do Evangelho. Mas concorda com Wolton na denúncia do fundamentalismo e “do risco de fusão da religião e da política”.
2. Sobre as desigualdades. Os números:
“Hoje, no mundo,
- 62 ricos possuem a mesma riqueza que 3,5 mil milhões de pobres.
- Há hoje 871 milhões de pessoas com fome,
- 250 milhões de migrantes que não têm para onde ir, que não têm nada.
- Mas o tráfico de droga envolve mais ou menos 300 mil milhões de dólares
- e pensa-se que, nos paraísos fiscais, 2,4 milhões de milhões de dólares circulam de um lugar para outro.”
Na base, está “o ídolo dinheiro”. “Caímos na idolatria do dinheiro.” Segundo o Evangelho, há incompatibilidade entre Deus e o dinheiro, quando este é divinizado.
“Os dois pilares da fé cristã, das nossas riquezas, são:
- as Bem-aventuranças
- e o capítulo 25 de São Mateus, que estabelece o critério pelo qual seremos julgados”: tive fome, tive sede, e destes-me de comer, de beber…; “é aqui que está a nossa riqueza. Mas irá dizer que sou um Papa demasiado simplista! [risos]. Graças a Deus…”
Wolton:“Diz que é necessário o Estado e que se comprometa…”
Francisco:“A economia liberal de mercado é uma loucura. Temos necessidade de que o Estado regule um pouco. E é o que falta: o papel do Estado regulador. Por isso, peço que se abandone a “liquidez” da economia para voltar a qualquer coisa de concreto, isto é, à economia social de mercado: mantenho o mercado, mas “social” de mercado.” O problema é “uma economia líquida. A finança”.
Wolton concorda:“A finança é um modelo de liberalismo demasiado desigual. A finança comeu a economia, que comeu a política…”
E Francisco: “É o virtual contra o real.” Para meditação, avisa: “Na morte, não levaremos dinheiro connosco. Nunca vi atrás de um carro funerário um camião com os haveres da residência anterior…”

3. Sobre as migrações e a Europa. Francisco é o primeiro Papa jesuíta da história e também o primeiro latino-americano. Argentino, filho de pais italianos, imigrados.
“A identidade do povo argentino provém da mestiçagem, porque as vagas de imigrações misturaram-se, misturaram-se… E eu senti-me sempre um pouco assim. Para nós, era absolutamente normal ter na escola várias religiões em conjunto.”
Esta sua experiência contribuirá para a sua sensibilidade para com os migrantes. Considera aliás que a teologia cristã é “uma teologia de migrantes”, “o próprio Jesus foi um refugiado, um emigrante”.
“O problema começa nos países donde vêm os emigrantes. Porque deixam a sua terra? Por falta de trabalho ou por causa da guerra. São as razões principais… Pode-se investir, as pessoas terão uma fonte de trabalho e não terão necessidade de partir. Mas, se há guerra, de qualquer modo, têm de fugir. Ora, quem faz a guerra? Quem dá as armas? Nós.”
“A Europa é uma história de integração cultural, multicultural, muito forte. Neste momento, a Europa tem medo. Ela fecha, fecha, fecha…” A questão é que “creio que a Europa se tornou uma “avó”.
Ora, eu quereria ver uma Europa mãe. A Europa pode perder o sentido da sua cultura, da sua tradição. Pensemos que é o único continente a ter-nos dado uma tão grande riqueza cultural, quero sublinhá-lo. A Europa é o berço do humanismo. A Europa deve reencontrar as suas raízes, também cristãs. E não ter medo. Não ter medo de tornar-se a Europa mãe”. E atira de modo mordaz: “Se os europeus querem ficar só com europeus, façam filhos!”
Inquietação maior: “Já não vejo estadistas como Schuman, como Adenauer…”
4. Wolton lança desafios a Francisco.
4. 1. Seja como for, “a Europa representa o maior “estaleiro” pacífico democrático da história do mundo”. Porque é que as Igrejas não convocam, com todas as religiões e famílias de pensamento, um “acontecimento solene, para dizer que é fundamental” que a união da Europa resulte? Trata-se da “maior utopia democrática da história da humanidade: nunca 27 a 30 países, isto é, 500 milhões de habitantes com 25 línguas, tentaram pacificamente coabitar”.
Francisco: “Desejo fazer um encontro sobre a Europa com os intelectuais europeus”, do Atlântico aos Urais…
4. 2. Há tensão à volta da diversidade cultural. Francisco reafirma que a Igreja não pode ser “imperialista” e que a globalização “em forma de esfera é má” enquanto a Igreja fala da globalização em “poliedro”.

GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon)… Imagem: media.licdn.com
4. 3. É urgente uma reflexão crítica sobre a comunicação:
- por todo lado há comunicação técnica e, no entanto, “nunca houve tanta incomunicação”;
- está-se perante o perigo de “uma forma de esquizofrenia da comunicação”: uma mundialização das técnicas e cada vez menos comunicação humana;
- não há “o toque, falta o corpo”.
E pense-se no poder inaudito, quanto a dinheiro e controlo, dos GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon)…
5. Wolton confessa que foi um privilégio dialogar com “uma das personalidades intelectuais e religiosas mais excecionais do mundo”.
Duas frases o marcaram: “Não tenho medo de nada” e “Não é fácil, não é fácil…”
padre e professor de filosofia
