Arte e Meditação

Numa época em que o governo federal, no âmbito do programa Ciência Sem Fronteiras, está insistindo, inclusive na Justiça, para dar dezenas de milhares de bolsas de estudo no estrangeiro só para as áreas de Tecnologia, com exclusão explícita da Área de Ciências Humanas, como se o homem fosse só fazedor e produtor de coisas utilitárias, é oportuno este artigo de Frei Betto sobre a importância da arte e da meditação, capazes de levarem o homem para dentro de si, rumo ao núcleo do seu ser e para a transcendência, para o fora e além de si, na fruição do Belo na Natureza e na Arte que tem o condão de ajudá-lo a tentar diizer o indizível.

“A meditação, como a arte, exige cuidado, ascese, empenho, confiança na própria capacidade criativa. Tanto a arte como a meditação nos conectam com o Transcendente, nos fazem emergir da esfera da necessidade para a da gratuidade, dilatam em nós potencialidades que nos fazem “renascer”.

“A arte desperta-nos a intuição e a emoção. Nos re-liga com algo que, até então, escapava à razão. Daí sua relação com a religião. Ela emite sinais que não são controlados nem pelo artista nem pelo apreciador. Do texto abaixo.

João Tavares

 

________________________________________

Participei, em fins do ano passado, de três encontros com grupos de oração em torno do tema arte e meditação.

Toda obra de arte é sacramento, sinal sensível do que não se vê e, no entanto, ela expressa. Dela emanam sinais polissêmicos. Ela “fala” a cada observador. E este estabelece com ela uma relação sujeito-sujeito, dialógica, interativa.

A arte desperta-nos a intuição e a emoção. Nos re-liga com algo que, até então, escapava à razão. Daí sua relação com a religião. Ela emite sinais que não são controlados nem pelo artista nem pelo apreciador.

A arte, como a meditação, nos induz ao mergulho no próprio eu, lá onde o ego se desfaz qual botão de rosa a se abrir em flor, e nos aproxima da ideia de beleza e harmonia. Enleva-nos, faz-nos apalpar o Mistério, balbuciar o impronunciável.

Ao contemplar ou desfrutar da obra de arte “pintura, balé, música” ela se metaboliza em nossa sensibilidade. Ao meditar, refluímos os cinco sentidos no núcleo axial que nos remete ao verdadeiro eu e que, na verdade, é um outro que funda nossa verdadeira identidade.

O que é, hoje, obra de arte? Há uma dessacralização da arte. O início desse processo talvez possa ser demarcado pela obra “A fonte”, de Marcel Duchamp, criada em 1917, e representativa do dadaísmo. Trata-se de um urinol de porcelana, idêntico a milhares encontrados em mictórios públicos. Exposto em Paris, está avaliada em 3 milhões de euros.

Hoje em dia o valor da obra de arte, sua aceitação pelo público, tem muito a ver com a performance do artista. Vide os cantores pop. E é o mercado, apoiado na mídia, que determina o que tem ou não valor.

Muitos artistas morreram sem serem reconhecidos, como Van Gogh, que em vida jamais vendeu uma tela. Presenteou seu médico com o quadro “Rapaz de quepe”, que o doutor aproveitou para tapar um buraco no galinheiro de sua casa… Há pouco esta tela foi vendida por US$ 15 milhões!

Todo artista se julga digno de valor e reconhecimento. Isso, entretanto, depende dos críticos, da mídia, da reação do público. São raros aqueles que, mesmo sem cair no gosto do mercado, permanecem fiéis a seu talento criativo.

O que pode ser admirado hoje, pode ser desprezado amanhã. É o caso de um dos autorretratos de Rembrant. A cada vez que deixava a Holanda, a tela era assegurada em US$ 4 milhões. Uma comissão de peritos e críticos, que analisou todos os quadros atribuídos ao genial pintor holandês, concluiu que um dos autorretratos, embora assinado com o nome dele, não pode ser atribuído a ele. A obra caiu no ostracismo…

O nosso olho, a nossa sensibilidade para a obra de arte, são condicionados pela opinião pública. Esta tende a ser elitista. Considera arte o que atrai o público pagante; e folclore o que atrai pessoas desprovidas de recursos.

Não me agrada a adjetivação “arte popular”. Nessa categoria costumam entrar as obras de todos que não possuem suficiente erudição artística nem frequentam as rodas que se fecham em galerias sofisticadas ou palcos refinados.

A meditação, como a arte, exige cuidado, ascese, empenho, confiança na própria capacidade criativa. Tanto a arte como a meditação nos conectam com o Transcendente, nos fazem emergir da esfera da necessidade para a da gratuidade, dilatam em nós potencialidades que nos fazem “renascer”.

Não é sem razão que as religiões, sobretudo em suas liturgias, tanto recorrem à arte e têm sido, ao longo dos séculos, escolas de artistas. Quantos cantores e músicos estadunidenses não iniciaram sua arte em igrejas evangélicas!

Infelizmente o mercado nos impõe, pela mídia espetaculosa, o mero entretenimento como se fosse obra de arte. Nisso se parecem às liturgias que exacerbam nossa emoção sem nada acrescentar à nossa razão e, muito menos, ao caráter ético de nossa ação. Vide as showmissas.

A arte não há de ser de esquerda ou de direita, moralista ou inescrupulosa. Há de ser bela. Consta que eram nuas todas as esculturas e figuras pintadas por Michelangelo no Vaticano. Até que um papa escrupuloso pediu a Daniele Volterra, discípulo do genial artista, para cobrir com uma pincelada os órgãos genitais… censura removida recentemente por peritos japoneses. Volterra ganhou o apelido de “Il Braguetone”, O Braguilha…

Todo artista é clone de Deus. Extrai de sete notas musicais, dos movimentos do corpo, do desenho, do barro, do modo de narrar uma história, o que há de belo no humano e na natureza. Recria ao criar. E sempre o faz partir de um estado de concentração comparável à meditação.

Frei Betto – Escritor e assessor de movimentos sociais

Adital

[Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística da natureza” (José Olympio), entre outros livros. http://www.freibetto.org – twitter:@freibetto].

LER TAMBÉM:

1. Ciência sem Fronteiras: Veja como participar de programa de bolsas no exterior

2. Justiça autoriza participação de estudantes de humanas no Ciência Sem Fronteiras


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *