
Frei Bento Domingues O.P. –01/10/17 -Foto: EPA
O Concílio Vaticano II é a data incontornável da Igreja no século XX. Em certos países foi preparado por diversos movimentos, nomeadamente, de novas experiências ao nível
- da evangelização, da pastoral, da liturgia
- e do debate teológico.
Os representantes episcopais da Igreja portuguesa apresentaram-se sem propostas de alteração do rumo do catolicismo. Alguns tiveram o desplante de afirmar que nós já estávamos muito à frente desse concílio.
1. Fátima nunca mais é o título de um livro militante do padre Mário de Oliveira. Fátima cada vez mais, passados 100 anos, goste-se ou não, é o panorama do que está acontecer. Porque será?
Conheço Fátima desde 1947, onde também vivi, em épocas bastante diferentes. Contactei, muitas vezes, com os familiares dos pastorinhos, a começar pelos pais da Jacinta. Ao longo do tempo, fui lendo o que se escrevia sobre o fenómeno. Já apresentei, até por escrito, as minhas impressões que não foram sempre as mesmas.
O primeiro sentimento foi de algo banal e triste, estranho e inverosímil. Como era possível que Nossa Senhora viesse pedir mais sacrifícios a uns pobres e inocentes pastorinhos, para reparar um Deus ofendido por pecados que não eram deles? Porque não foi ela ter com esses que cometiam pecados tão grandes que deixavam o coração de Deus em sangue? Um colega mais velho respondeu-me: na religião isto é tudo ao contrário. Talvez, mas não é justo!
Tentando, depois, entender o que tudo aquilo tinha, e tem, de assustador e cordial, nos limites das catequeses primárias e dos crescentes movimentos devocionais da época, as perplexidades aumentaram.
Dizer que se trata de um dos fenómenos religiosos mais relevantes do seculo XX,
- nascido no seio do catolicismo popular português,
- enquadrado pela hierarquia eclesiástica,
- desenvolvido no quadro de uma luta católica pela liberdade da Igreja
- e num quadro mundial de guerras,
a abordagem de Fátima dispõe, hoje, além da documentação de propaganda, apologética e contestatária, de documentação crítica e de obras de interpretação, de diversa índole, e fácil acesso.
Desse conjunto, saliento: A nível da História, destaco
- Fátima do Bispo Carlos Azevedo[i].
- Com a Senhora de Maio[ii], António Marujo e Rui Paulo da Cruz, conseguiram uma Fátima, a muitas vozes, dissonantes.
- O pequeno Dicionário de Helder Guégués[iii] revela-se muito útil.
- Ana André e Sara Capelo registaram as vozes dos que percorrem quilómetros e quilómetros, a pé, até ao Santuário[iv], (em: Peregrinos) -Ndr).
Fátima é diferente para todos.
Podemos saber de 1917 a 2017 – sem contar com as anteriores narrativas das aparições angélicas – como tudo aconteceu e se desenvolveu ao longo de um século, mas continuo longe de qualquer síntese explicativa.
Tenho, pelo contrário, outra pergunta: os cenários espectaculares e as publicações que prepararam e acompanham o ano de 2017 vão coroar ou desassossegar uma narrativa centenária?

Fátima precisa de se tornar o novo livro do Desassossego.
2. Dir-se-á que a resposta a essa pergunta exige ter em conta outras que não cabem nesta crónica, como por exemplo: que ganhou e que perdeu o catolicismo português com Fátima? É uma questão real, mas carregada de ambiguidades, pois, entre os golpes militares de 1910, de 1928 e de 1974, Portugal mudou e a relação com o fenómeno religioso também.
O Concílio Vaticano II é a data incontornável da Igreja no século XX. Em certos países foi preparado por diversos movimentos, nomeadamente, de novas experiências ao nível
- da evangelização,
- da pastoral, da liturgia
- e do debate teológico.
Os representantes episcopais da Igreja portuguesa apresentaram-se sem propostas de alteração do rumo do catolicismo. Alguns tiveram o desplante de afirmar que nós já estávamos muito à frente desse concílio.
O Vaticano II deixou que ficassem em aberto, para o pós-concilio, várias questões, entre elas,
- as da moral familiar,
- dos ministérios ordenados
- e do exercício dos direitos humanos no interior da Igreja.
O resultado foi dramático.
Em vez da alegria da evangelização do mundo contemporâneo, em todos os continentes, Roma ocupou-se em
- ocultar as reformas urgentes no Vaticano
- e em impedir o debate aberto da moral familiar,
- da teologia da libertação
- e das experiências da inculturação da Fé
- e de abrir o debate sobre os ministérios ordenados das mulheres e dos homens casados.
A primavera que João XXIII desejava transformou-se num prolongado inverno, um reino da esquizofrenia:
- por um lado, o impulso do Concílio
- e por outro uma série de medidas para o fazer esquecer.
É conhecida essa história que a eleição do Papa Francisco tornou ainda mais evidente.
3. Há quem diga que Fátima nos salvou.
Quando uns dizem que nos livrou da II Guerra Mundial, outros apressam-se a lembrar
- a perda do império,
- as guerras coloniais,
- a miséria do povo
- e a imigração acelerada. Não vou entrar por aí. Seria demasiado fácil ter umas aparições à mão que nos servissem para resolver todos os problemas do país e do mundo. Uma propaganda dessas só poderia servir para desacreditar Fátima em toda a linha. Seria uma pseudo-substituição do país e das suas instituições.
Importa sublinhar que conseguiu uma grande vitória sobre a ideia de que a religião e a Igreja Católica, em Portugal, estariam no fim, em poucas décadas. Fátima é um grande centro de atracção no campo religioso. Não resolveu os nossos problemas sociais, económicos e políticos, nem devia. Realizou o melhor da laicidade: Portugal é um país laico, mas permite que todas as religiões possam aqui respirar à vontade.
Fátima desenvolveu-se à margem da renovação cultural do país. Os grandes criadores da nossa literatura do século XX viveram divorciados de Fátima e Fátima deles. Mundos estranhos, salvo raríssimas excepções. Por outro lado, a cultura religiosa popular, catalisada pelos muitos santuários do país, onde convergia a devoção peregrinante e a romaria, a religião e a cultura da alegria estão bastante anestesiadas.
Fátima vive da libertação interior de cada peregrino e isso é algo admirável e insubstituível. Fazer desse caminho o todo da inculturação da fé cristã, é o culto de uma espiritualidade de olhos fechados.
Fátima precisa de se tornar o novo livro do Desassossego.
(O Livro do Desassossego é uma das maiores obras de Fernando Pessoa. É assinado pelo semi-heterónimo Bernardo Soares. É um livro fragmentário, sempre em estudo por parte dos críticos pessoanos, tendo estes interpretações díspares sobre o modo de organizar o livro. -Wikipédia.pt- NdR)
Notas:
[i] Fátima. Das visões dos pastorinhos à visão cristã, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2017. Já tinha dirigido o Dicionário e História Religiosa de Portugal, presidido à Comissão Científica da Documentação Crítica de Fátima e coordenado, com Luciano Cristino, a Enciclopédia de Fátima. Conseguiu, em pouco mais de 200 páginas, um texto que se recomenda pelo seu rigor e sobriedade.
[ii] Temas e Debates, Círculo de Leitores, Lisboa, 2017.
[iii] Factos e Figuras de Fátima. Um Dicionário, Clube do Livros, Lisboa, 2017
[iv] Peregrinos, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, 2017.
Frei Bento Domingues, O.P.
Fonte: https://www.publico.pt/2017/10/01/sociedade/opiniao/tranquilizar-ou-desassossegar-fatima-1-1787165
