“Eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação, ao Pai voltemos, juntos andemos, eis o dia da salvação…”
Nós estamos acostumados a ler e escutar que Deus é o autor da nossa salvação. O apóstolo Paulo centra sua pregação no mistério da salvação, afirmando a iniciativa salvífica do Pai através de Jesus Cristo. Nesse aspecto é interessante observar que das trinta e duas vezes que aparece a palavra salvação no Novo Testamento, vinte e uma incidências se encontram nos escritos paulinos. Como apóstolo autêntico Paulo faz questão que sua pregação seja aceita, não em seu próprio nome, mas em nome de Jesus, pois Cristo é quem foi crucificado em favor de todos, e todos receberam o batismo em seu santo nome. Ele emprega com muita propriedade o verbete sotér, (salvador) de onde sairia a expressão soteriologia, que é a parte da teologia que estuda a salvação; A revelação perfeita da salvação foi dada aos crentes pelo evento Jesus Cristo, com sua pregação/morte/ressurreição.
No episódio dos ossos secos (cf. Ez 37) é retratada a simbiose da práxis criadora (Javé) e da atividade messiânica (Jesus Cristo). A força organizadora do Espírito restaura o que às vistas humanas parecia irreversivelmente destruído. Os ossos, que se convertem em esqueletos e se transformam em pessoas vivas, tornam-se a prefiguração do povo de Deus que se realiza sob o gesto redentor do Cordeiro, para a construção de sua história, a caminho do Reino definitivo. A salvação, nesse aspecto, é um evento dentro de uma escatologia iminente e profética. Ninguém é salvo para esta vida, mas para a outra, a eterna. Muitos judeus esperavam uma salvação política e militar contra a opressão dos inimigos, uma libertação dos exílios e dominações estrangeiras.
Javé é nosso juiz; ele é nosso legislador; Javé é nosso rei: ele nos salvará (Is 33,22);
Pois eu sou Javé, seu Deus, o Santo de Israel, o seu Salvador (43,3); Então você ficará sabendo que eu sou Javé , o que salva, o seu libertador (go’el) o forte de Jacó (60,16).
Não tema! Javé, o seu Deus, o valente libertador está no meio de vocês! (Sf 3,16s);
De minha parte, espero da mão do eterno, a salvação (Ba 4,22)..
Mas eu me volto para Javé, espero em Deus meu salvador (Mq 7,7).
Vocês serão meu povo e eu serei o Deus de vocês (Ez 36,28).
A rigor, os modernos conceitos da teologia moderna classificam a soteriologia paulina em três sentidos:
1. Sentido da vida em Cristo
O apóstolo se identifica com a missão de anunciar o evangelho, pois quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade que é Cristo. É aquela relação perda/lucro (Fl 1,2; 3,7).
2. Sentido da vida no apostolado e na virtude
Para Paulo, o testemunho de vida comunitária segundo o evangelho é uma forma de apostolado. Confessar que Cristo é o Senhor, vivendo este mistério em comunhão com os irmãos, é um testemunho de virtude capaz de conduzir outros ao caminho da santidade. Deus chama o homem à santidade, não porque este seja santo, mas por misericórdia e graça.
3. Sentido da vida na esperança da parusia
Ao dizer que Deus é o autor da nossa salvação (cf. Hb 5,9), Paulo recomenda também que a comunidade se prepare para a vinda gloriosa de Cristo:
Em Cristo Jesus, todo o edifício se ergue em santuário sagrado no Senhor, e vocês também são juntamente edificados para serem habitação de Deus, mediante o Espírito (cf. Ef 2,21s).
Ao afirmar eis agora o dia da salvação Paulo anuncia o dia da salvação como um acontecimento histórico-salvífico já em ocorrência (cf. 2Cor 6,2b). Ao se referir a um kairós apropriado, o apóstolo se refere a um tempo oportuno, aberto à prática de justiça. As duas citações são mais ou menos paralelas e concêntricas. Esta é a grande oportunidade que o Senhor oferece: o dia da salvação. Esse tempo favorável é aquele cantado pelo salmista e pelos profetas, dia em que Javé vem resgatar o seu povo. Fiel à apocalíptica judaica, Paulo dá ênfase a essa descida do Senhor. O tempo designado como agora é aquele período do evangelho, como uma oferta da graça, que medeia entre o período em que Cristo veio a este mundo, em sua encarnação, e o dia de Cristo, isto é, o julgamento iniciado quando da parusia, ou “segunda vinda de Cristo”. Sob a ótica paulina, a salvação tem os seguintes envolvimentos: a) envolve o arrependimento (cf. At 2,38; 2Cor 7,9); b) a conversão (cf. 1Tim 4,16); c) a justificação (cf. Rm 3,21); d) a santificação (cf. 1Ts 4,3); e) nossa transformação (cf. Cl 2,10); f) a glorificação (cf.. Rm 8,30); g) a graça e a filiação divina (cf. 1Ts 5,5).
Para que se compreenda a exegese de Paulo, devemos considerar antes de tudo, que ele não parte da Escritura para chegar a Cristo, mas que, em virtude de sua fé em Cristo ressuscitado, procura os anúncios de sua vinda e os sinais de sua presença ocultos no Antigo Testamento. A interpretação usual é, pois, fundamentalmente cristológica: é a fé no novo Adão que lhe permite compreender o drama do primeiro Adão (c. Rm 5,12-21), é a realidade do batismo em Cristo que lhe permite ver, na passagem do Mar Vermelho, um batismo em Moisés (cf. 1Cor 10,2). Junto com a mensagem de salvação, Paulo também escreveu anunciando grandes tribulações:
Saiba, porém, que nos últimos dias haverá momentos difíceis. Os homens serão egoístas, gananciosos, soberbos, blasfemos, rebeldes com os pais, ingratos, iníquos, sem afeto, implacáveis, mentirosos, incontinentes, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres do que de Deus; manterão aparências de piedade, mas negarão a sua força interior. Evite essas pessoas! (2Tm 3,1-5).
No mesmo ímpeto com que descreve a proximidade do Senhor (cf. Fl 4,2-5), o apóstolo manda que os seguidores do ressuscitado denunciem as obras das trevas (cf. Ef 5,11), onde a cobiça e a ambição são colocadas no mesmo nível da idolatria, pois – diz – virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação (cf. 2Tm 4,3ss). Não estaríamos vivendo um tempo assim hoje? Não é este começo de século XXI um tempo de egoísmo, corrupção, idolatria e mentira? O homem de nossa era endeusa a tecnologia e a riqueza, despreza o fraco e faz pouco caso do humilde. Este é o retrato da sociedade moderna. Sobre a idolatria do ter e da avareza falavam (séc. V) os “pais da Igreja”:
Não somos donos dos nossos bens, mas meros administradores deles (São Leão Magno. Sermo II).
Aos gálatas São Paulo escreveu:
Não se iludam, pois com Deus não se brinca: cada um colherá aquilo que tiver semeado. Quem semeia nos instintos egoístas, dos instintos egoístas colherá corrupção; quem semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna (Gl 6,7s).
Semear no Espírito significa viver conforme o Espírito de Deus. Paulo se refere frequentemente ao poder da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Quem semeia no Espírito conforma sua vida segundo ele, e se prepara para desfrutar da glória do Senhor.
Quando Cristo se manifestar, ele que é a nossa vida, então vocês também se manifestarão com ele na glória (Cl 3,4).
Portanto, se o nosso Evangelho continua obscuro, está obscuro para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cuja inteligência o deus deste mundo obscureceu a fim de que não vejam brilhar a luz do Evangelho da glória de Cristo, de Cristo que é a imagem de Deus (2Cor 4,3s).
Por deus deste mundo, Paulo quer expressar os antigos valores que pervertem a alma humana, afastando-a do projeto de Deus, cuja raiz está na luz, na verdade e na justiça. Certa vez Jesus disse: “porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19,10). Isto se liga ao fato de que não somente o homem havia se perdido, mas também a terra como um todo, o mundo maravilhoso em que o homem havia sido originalmente colocado. Com sua morte, Cristo tomou posse novamente da glória que o Pai lhe havia reservado, comprou de volta o que foi perdido, inclusive a própria natureza. Sobre isto o apóstolo Paulo diz:
Porque sabemos que toda criação geme, e não só ela, mas, também nós, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a redenção do nosso corpo (Rm 8,22s).
Escrevendo aos hebreus, o apóstolo Paulo fala em santificação para todos os crêem em Cristo e nele esperam a salvação:
E dado que os homens morrem uma só vez e depois disso vem o julgamento, assim, também Cristo se ofereceu uma vez por todas, para tirar o pecado de muitos. Ele aparecerá uma segunda vez, sem nenhuma relação com o pecado, para aqueles que o esperam para a salvação (Hb 9, 27s).
Deus tem nos mostrado, através da sua Palavra, que o tempo certo para o homem ser salvo é hoje. Se temos a oportunidade de fechar um bom negócio ou receber um presente hoje, para que deixar para amanhã? O dia da salvação é também chamado, dentro da escatologia, de “o dia de Javé”. É bom aproveitar enquanto é tempo de graça. Procurem o Senhor enquanto ele está por perto e se deixa encontrar… A Bíblia nos ensina que o desejo de Deus é que todas as pessoas sejam salvas. Isto não significa que todos serão salvos, porque a mesma Palavra também deixa claro que muitos rejeitarão a Cristo (cf. Mt 25,31-46). O evangelho tem um âmbito universal: não é dirigido apenas a pessoas de determinada raça, sexo, religião ou Igreja. O amor de Deus não é estático, privativo ou egoísta, mas tremendamente imenso para envolver todos os homens, pois “toda a carne verá a salvação de Deus” (cf. Lc 3,6). Aqui Lucas cita Isaías para demonstrar que a salvação é destinada a todas as pessoas.
O dia de Javé não é essencialmente o fim do mundo e da história, mas a transformação do povo de Deus e o fim de uma era de pecado e idolatria. Para o profeta Sofonias, são ídolos não somente as divindades estrangeiras, mas também a absolutização do ter, do prazer e do poder. Esses ídolos estão presentes, tanto nas outras nações quanto na cidade de Jerusalém, seja no palácio real, seja no templo e nos bairros da cidade (2,4; 3,8). A salvação ocorre simultaneamente com o julgamento de Deus. Há quem se refira ao julgamento como “dia da vingança” ou “dia da ira de Javé” (dies irae dies illa). A única possibilidade de salvação que Sofonias vislumbra para escapar à ira divina são os pobres da terra (2,3), isto é, os destituídos de poder e riqueza, que depositam sua confiança no verdadeiro Absoluto e clamam por justiça. São eles os únicos que poderão formar um resto para conduzir na história o projeto de Deus, e assim fazer com que o Dia de Javé se torne dia de alegria e restauração, e não de destruição (cf. 3,9-20).
Procurem a Javé, como todos os pobres da terra que obedecem aos seus mandamentos; procurem a justiça, procurem a pobreza. Quem sabe, assim, vocês acharão um refúgio no dia da ira de Javé (Sf 2,3).
Pois esse é um dia de vingança para Javé, é um dia de acerto de contas em favor
de Sião (Is 34,8).
Para promulgar o ano da graça de Javé, o dia da vingança do nosso Deus, e para consolar todos os aflitos, os aflitos de Sião (Is 61,2).
Toquem a trombeta em Sião; dêem o alarme no meu santo monte. Tremam todos os moradores do país, pois o Dia de Javé está chegando e já está perto. Será dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e de negrume (Jl 2,1s).
Ao afirmar que “fora da Igreja não há salvação”, São Cipriano († 258), bispo de Cartago reitera a unidade do corpo místico de Cristo, “a Igreja é minha irmã, minha esposa, um jardim fechado, uma fonte selada, um poço de água viva” (in: Ep 69. PL 249). A eclesiologia, tomando por base os escritos de Paulo e a tradição patrística, afirma que a Igreja é sinal de salvação.
Ouvi-te em tempo aceitável e socorri-te no dia da salvação; eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação (2Cor 6,2). Hoje, se vocês ouvirem a voz de Deus, não fiquem de coração endurecido como no dia da revolta… (Hb 3,15).
A salvação é acessível a quem se converte e muda de vida. Ninguém é tão pecador que não possa ser alcançado pelo braço misericordioso de Deus. Para tomar posse da salvação que Deus disponibiliza à humanidade é preciso atentar para os quatro convites de Jesus:
§ venham a mim vocês que estão sobrecarregados… (Mt 11,28);
§ venham… eu farei de vocês pescadores de homens (Mc 1,17);
§ vem (partilha) e segue-me… e terás um tesouro no céu (Mc 10,21);
§ venham benditos do meu pai…(Mt 25,34).
Na revelação (Ap 3,12) Jesus promete gravar no coração do justo seu novo nome (sotér, salvador). Deus oferece, pelo Filho, a salvação a todas as pessoas. Muitas adiam uma decisão a favor do Reino de Cristo imaginando que haverá uma ocasião melhor, mas podem facilmente perder por completo a oportunidade. Não existe um tempo mais apropriado para receber o perdão de Deus como presente. Não permita que algo o impeça de ir a Cristo. Não perca tempo:
O dia da salvação é hoje!
Busquem ao Senhor enquanto ele se deixa encontrar, invoquem-no enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos, e se converta ao Senhor que se compadecerá dele; volte para o nosso Deus, porque ele é grandioso em perdoar. (Is 55,6).
Antônio Mesquita Galvão