Carta Aberta aos quatro cardeais dos “Dubia”

“Peço-vos humildemente para reverem as vossas posições. Não alimentemos fogo do desentendimento”: um apelo a Brandmüller, Burke, Caffara e Meisner depois da nova carta ao Papa.

 Carta Aberta aos quatro cardeais dos “Dubia”

PUBLICADO 27/06/2017

STEPHEN WALFORD *

Eminências, Senhores Cardeais,

decidi escrever esta carta aberta em resposta às vossas repetidas tentativas de interpelar o nosso Santo Padre, o Papa Francisco, em relação às questões originalmente levantadas nos vossos cinco “dubia”. Escrevo movido pelo espírito de amor à Igreja e, sobretudo, pela sua unidade sob os cuidados e a proteção do nosso amado Papa. Desejo também afirmar que, em relação à questão do acesso aos sacramentos para alguns divorciados recasados, não tenho nenhum interesse direto. Fui abençoado com um casamento de vinte anos e cinco filhos, e não tenho parentes ou amigos que se enquadrem nesta categoria muito delicada. A minha única preocupação está no bem-estar espiritual destas almas especiais que o Senhor colocou ao meu lado como irmãos e irmãs na fé.

Gostaria de começar abordando as preocupações expressas nos vossos “dubia“. Parece que, em relação ao primeiro “dubium“, os senhores tenham certa dificuldade em aceitar as duas autênticas intervenções do Papa Francisco em que afirma que, em alguns casos, a disciplina dos sacramentos foi mudada: em primeiro lugar, em resposta à pergunta de Francis Rocca no vôo de Lesbos a Roma em 16 de abril de 2016, e, em segundo lugar, em 5 de setembro de 2016, quando elogiou o documento que contém os critérios básicos, apresentado pelos Bispos argentinos, que afirma que “não há outra interpretação” do capítulo VIII de Amoris laetitia. No que diz respeito aos outros quatro “dubia”, estou perplexo sobre por que razão vós sentistes necessidade de fazer estas perguntas. Em lugar algum da Amoris laetitia o papa Francisco mudou qualquer destes ensinamentos.

Permitam-me dar alguns exemplos. No ponto 295 de Amoris laetitia o Santo Padre repete o ensinamento de São João Paulo II sobre a “lei da gradualidade” em contraposição à “gradualidade da lei” e além disso afirma: ” Com efeito, também a lei é dom de Deus, que indica o caminho; um dom para todos sem exceção”. Enquanto que no ponto 311, o Papa Francisco diz: “É verdade que é preciso ter cuidado com a integralidade da doutrina moral da Igreja”, referindo-se ao divórcio como um mal (p. 246). Deve-se notar também que o Santo Padre reitera a Humanae Vitae: “Então, nenhum ato genital dos cônjuges pode negar esse sentido de gerar uma nova vida”.

No que se refere à consciência, no ponto 37, o Papa afirma que as consciências devem ser “formadas” e acrescenta que quanto mais os casais escutarem a Deus e se fizerem acompanhar espiritualmente, tanto mais a sua decisão será intimamente livre de um arbítrio subjetivo e da acomodação aos modos de comportamento do seu ambiente» (p. 222). No ponto 303, lê-se: “É claro que precisamos incentivar o amadurecimento de uma consciência esclarecida”. Se existe um desenvolvimento doutrinário em termos de consciência, este se refere ao ensinamento magisterial do Papa (p. 303), ou seja, ao fato de que uma pessoa pode ter uma “certa segurança moral” quanto à “resposta generosa” que pode dar a Deus naquele momento da sua vida, no caso de ela não estar em condições de responder objetivamente à “proposta geral do Evangelho”.

Aqui também, por duas vezes, o Santo Padre refere-se ao fato de que a “resposta generosa” não deve ser vista como ideal objetivo. No p. 305, o Papa Francisco afirma a existência de um pecado objetivamente grave – definindo-o como “uma situação objetiva de pecado” – mas prefere abordá-la em relação ao aspecto mais importante da culpa subjetiva, tal como o havia feito a Congregação para a Doutrina da Fé, quando presidida pelo cardeal Joseph Ratzinger. Gostaria de pedir a vossa atenção para os numerosos documentos-chave em que este conceito é explicado: A regra moral de Humanae Vitae e de Pastorale Munus, Homosexualitatis problema e Persona humana. Em qualquer caso, pode-se afirmar que o Papa Francisco não mudou a doutrina sobre o pecado grave.

Eminências, uma leitura atenta de Amoris laetitia revela tudo que vós pedistes nos “dubia

1) Os ensinamentos sobre a indissolubilidade do matrimônio permanecem.

2) Todas as pessoas devem esforçar-se para seguir os ensinamentos morais da Igreja.

3) O divórcio é um mal e o adultério é sempre mal. Mesmo que a culpa possa ser reduzida ou cancelada totalmente.

4) As consciências devem ser formadas. Nenhuma parte do texto pode levar quem quer que seja a concluir que pode fazer o que bem quiser.

5) De maneira nenhuma o Papa Francisco sugere que as uniões irregulares são uma opção alternativa “boa” para o matrimônio original. No entanto, não se pode negar o trabalho da graça em algumas destas uniões.

Então, o que resta é um desacordo com a mudança introduzida pelo Papa quanto à disciplina dos sacramentos. O Papa Francisco mudou porventura a doutrina? Não. Fica bastante claro que os que apresentam uma situação irregular devem ser convertidos. E mesmo se não o diz, o pressuposto é que estas almas estejam provavelmente manchadas por pecado mortal.

Se o Papa estivesse pregando uma falsa misericórdia, teria aceitado que qualquer pessoa divorciada recasada ​​receba o Senhor, independentemente do estado espiritual. Pelo contrário, o interesse do papa e a sua solicitude pastoral são por aquelas almas que amam profundamente o Senhor, mas estão numa situação extremamente difícil; e por isso atrevo-me a dizer que Francisco é um Papa muito corajoso, enviado pelo Espírito Santo nesta época para enfrentar também a realidade de uma Igreja e de um mundo feridos que não podem ser abandonados.

Quanto à exigência de João Paulo II de “viver como irmão e irmã”, o realismo nos diz que esta situação ideal nem sempre é possível. Lembremos o magnorum est do Papa Gregório II, que afirma que isto é possível só em caso de grande virtude moral. No entanto, mesmo no caso de um fracasso completo em tal sentido, a autêntica teologia moral nos diz que a culpa pode ser mínima ou até mesmo inexistente: “O homem de fato vê a aparência, mas o Eterno vê o coração” (Sam 16,7).

Eminências,

gostaria de pedir a vossa atenção para os ensinamentos encontrados em vários documentos magisteriais de grande importância. Em Donum Veritatis (n. 17), lemos: “Deve-se, pois, levar em consideração o caráter próprio de cada uma das intervenções do Magistério e da medida na qual é envolvida a sua autoridade, mas também o fato de que todas derivam da mesma fonte, isto é, de Cristo, que deseja que o seu Povo caminhe na verdade plena. Pelo mesmo motivo, as decisões magisteriais em matéria de disciplina, mesmo não sendo garantidas pelo carisma da infalibilidade, não são desprovidas da assistência divina, e exigem a adesão dos fiéis“.

Na sua encíclica Satis Cognitum o Papa Leão XIII afirmou: “As palavras metafóricas ligar e desligar indicam o direito de fazer leis e também o poder de julgar e punir. Esse poder afirma-se com tanta amplidão e tanta virtude que qualquer coisa que seja por ele decretada será por Deus confirmada. Portanto esse poder é sumo e totalmente livre, como aquele que não tem superior na terra: abraça toda a Igreja e todas as coisas que a ela foram confiadas”.

Eu sugeriria humildemente que não se pode chegar a outra conclusão senão aquela que o Papa Francisco – sendo o beneficiário do carisma do Espírito Santo que o assiste também no magistério ordinário (como ensinou São João Paulo II) – tornou legitimamente possível, o recebimento da Santa Comunhão pelos divorciados recasados ​​cujos casos tenham sido cuidadosamente considerados, em cujas almas esteja operando a graça do Espírito Santo, e onde esteja presente um esforço sincero para a santidade. Se não conseguimos aceitar esta premissa, então não estamos aceitando os ensinamentos dos Papas anteriores. Se há uma coisa que a Tradição nos ensina é que há uma hermenêutica da continuidade na compreensão da autoridade espiritual do papado em questões de fé e de moral e, como sublinha o Concílio Vaticano I: “Foi exatamente esta doutrina apostólica que todos os veneráveis Padres abraçaram e os santos Doutores ortodoxos veneraram e seguiram, sabendo bem que esta Sé de São Pedro se mantém sempre imune de qualquer erro”.

Na Apostolicae Sedis Primatus, o Papa Inocêncio III afirmou: «O Senhor insinua claramente que os sucessores de Pedro não se desviarão nunca, em momento algum, da fé católica, mas ao contrário chamarão os outros e confirmarão também os hesitantes». Já o Papa Bento XVI disse: “O ministério petrino é garantia de liberdade no sentido da plena adesão à verdade, à autêntica tradição, de modo que o Povo de Deus seja preservado de erros concernentes à fé e à moral” (Homilia na solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, 2010).

Na carta datada de 25 de abril de 2017 vós declarastes que rejeitais as afirmações que não consideram o Papa Francisco o verdadeiro sucessor de São Pedro – uma admissão que sugere que estais perfeitamente a par da atitude de muitos que vos olham como guias – e portanto, tendo em conta os ensinamentos acima expostos, não existe a possibilidade de uma correção formal. Em termos de ações pessoais como a correção de São Paulo a São Pedro, cujo comportamento, segundo São Paulo, era contrário ao de um papa, ou como o pecaminoso comportamento dos papas medievais, então sim, é possível uma correção, mas em relação a questões de fé e de moral ensinada como uma parte do magistério, não é possível.

Eminências,

se não se importam, gostaria de fazer-vos algumas perguntas que poderiam ajudar-vos a ver o carisma do Papa Francisco de uma maneira nova:

1) Era escandaloso que Deus usasse uma prostituta pagã impenitente, Raabe, para ajudar a “história da salvação”?

2) Era escandaloso que Jesus ficasse esperando uma mulher adúltera junto ao poço de Jacob e que lhe concedesse imediatamente a graça da evangelização? Era escandaloso que não lhe dissesse para deixar o homem com quem estava ou para viverem como irmão e irmã?

3) Era escandaloso que Jesus tivesse inserido um novo cânone na lei de Moisés para salvar uma mulher adúltera da sentença que ela merecia? Neste caso, o espírito da lei superou o da lei escrita para trazê-la à salvação?

4) O que ganhamos espiritualmente em combater contra aquelas almas cheias de graça pertencentes aos divorciados recasados ​​que sinceramente desejam a união sacramental com Jesus? Acreditamos que não seja possível obter nada para eles? As palavras de Jesus: “Aquele que vem a mim, não o lançarei fora” (João 6:37) não valem para eles?

5) O que mudou desde a afirmação do Santo Papa Pio IX, segundo o qual os casamentos civis para os católicos não são “nada mais que um concubinato vergonhoso e mortal” (Discurso Acerbissimum vobiscum), até ao Papa Bento XVI que afirma que os sofrimentos destas pessoas são um “dom para a Igreja” (Encontro Mundial das Famílias, 2 de junho de 2012)?

Temos de reconhecer que no mundo real – onde a maioria de nós leigos vive e trabalha – os velhos métodos de conversão não funcionam mais. As pessoas precisam de testemunhos de amor e de misericórdia que ofereçam a elas uma razão para acreditar. Não temos outra escolha senão a de ir ao encontro das pessoas no lugar onde estão atualmente e começar a trabalhar a partir daí. Não podemos pregar o inferno para pessoas que consideram a eternidade do céu como algo chato e inútil. O amor e a compaixão são as chaves que o Senhor usou para desbloquear os corações, e isto o Papa Francisco compreendeu-o. As doutrinas são inúteis se as almas não forem tocadas antes pela graça de Deus. Eu não vejo razão para temer a veracidade de qualquer doutrina. O que vejo é um Papa movido por um realismo cristão sincero; um Papa que levou a sério as palavras narradas na parábola do banquete do casamento: “O senhor disse ao servo: Sai pelos caminhos e valados, e força-os a entrar, para que a minha casa se encha” (Lc 14: 23)”. Este é o tempo da misericórdia, um tempo que requer medidas especiais, mas também tem riscos. Creio firmemente que o Senhor quer isso de nós, porque assim fazendo, afirmamos: “Senhor, faremos todo o possível para ajudar as almas fracas e pecaminosas a encher a tua casa”. E nunca esqueçamos que todos nós nada somos sem a Divina Misericórdia.

Concluo pedindo-vos humildemente para reverdes as vossas posições. Que vós estejais cientes disso ou não, existe uma franja crescente de tradicionalistas e até mesmo de alguns católicos conservadores que vos veem como líderes dos que recusam este papado. Sei por experiência que alguns deles são profundamente inquietantes. O abuso de muitos, incluindo aqueles que gerenciam sites e blogs tradicionalistas dirigidos contra o Santo Padre e os seus fiéis, é no mínimo satânico. Vós sois os seus modelos e esta é uma situação intolerável. Na verdade, não há confusão alguma, mas apenas uma clara rejeição e desconfiança para com o Papa legítimo e os seus ensinamentos magisteriais. Se todos os cardeais tivessem aceitado e defendido o ensinamento claro do Papa Francisco, o fogo da discordância não teria sido alimentado. No desejo de uma Igreja unida em torno de Pedro, é fundamental afirmar que o Papa tem a autoridade, ratificada no céu, para fazer mudanças disciplinares para o bem de algumas divorciadas recasadas, e portanto, peço-vos para pôr fim a esta situação aceitando a tradição constante da Igreja, de que os Papas são infalíveis em matéria de fé e de moral, fruto encarnado de uma oração específica do próprio Jesus: “Roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça” (Lc 22:32).

Festa do Sagrado Coração de Jesus, 23 jun 2017

* Stephen Walford vive em Southampton, Inglaterra, com a sua esposa Paula e cinco filhos. Estudou na Universidade de Bristol e escreveu dois livros: “Arautos da Segunda Vinda: Nossa Senhora, a Divina Misericórdia, e os Papas da Era Mariana de Pio IX a Bento XVI” (Angelico Press), e “Comunhão dos Santos : a Unidade do Amor Divino no Corpo Místico de Cristo “(Angelico Press). É autor de vários artigos e publicações sobre temas escatológicos e mariológicos. É também professor e pianista.

Autor:STEPHEN WALFORD *

Fonte: http://www.lastampa.it/2017/06/27/vaticaninsider/ita/vaticano/lettera-aperta-ai-quattro-cardinali-dei-dubia-sbeDknw2fynbz4fkX2QpzO/pagina.html

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