Avanço dos trabalhistas ingleses, e de seu líder rebelde, envia um sinal.
Antonio Martins – 10/06/2017
Foto: Theresa May e Jeremy Corbyn
“A ministra conservadora convocou eleições antecipadas. Alegava precisar de força para negociar, em melhores condições, a saída do Reino Unido da União Europeia – o chamado Brexit. No fundo, acreditava no mito da morte dos adversários. À época, as pesquisas eleitorais sugeriam que teria 24 pontos de vantagem sobre os trabalhistas – e que Corbyn, humilhado, não teria outra alternativa exceto renunciar.”
Num tempo sombrio, de retrocessos em todo o mundo, golpes e vitórias da direita (Trump, Temer, Macri, Duterte e muitos outros), surgiu na quinta-feira (8/8) um fato extraordinário, que é preciso examinar com atenção. Jeremy Corbyn, o líder rebelde do Partido Trabalhista britânico obteve resultado extraordinário nas eleições parlamentares do Reino Unido, realizadas ontem.
Não chegou a vencer, mas
- resgatou seu partido, que muitos consideravam moribundo,
- e provocou um terremoto político.
- Obteve este êxito com uma nítida guinada à esquerda e um programa de alternativas reais e robustas ao neoliberalismo.
O Parlamento, que tinha ampla maioria conservadora, agora está dividido. A primeira-ministra conservadora Thereza May, que convocou eleições antecipadas esperando alcançar uma vitória esmagadora, é considerada por todos a principal derrotada e talvez não consiga formar um novo governo.
É possível que haja novas eleições, em breve. O que mais importa examinar é como isso tudo foi possível.
A figura de Jeremy Corbyn – que está desafiando todas as regras de bom comportamento em que se quer enquadrar a esquerda – é central neste processo. Com 68 anos, ele tem um perfil incomum, entre os membros de um partido que estava acomodado há cinco décadas.
- Apoiou a revolução da Nicarágua
- e o governo de Chávez na Venezuela.
- Opôs-se, nas ruas, às guerras dos Estados Unidos contra o Afeganistão e o Iraque, apoiadas pela Inglaterra e por seu partido.
- Eleito para o Parlamento em 1983, foi sempre um dissidente trabalhista, por não aceitar a adesão dos dirigentes às políticas de “austeridade” e aos Estados Unidos.
Mas há dois anos, quando a liderança do partido ficou vaga após mais um fracasso eleitoral, Corbyn enxergou que algo estava mudando. Lançou-se à eleição, que é feita pelo voto direto dos militantes. Despontou como um grande azarão, mas com uma ideia clara: era preciso reverter
- o corte de serviços públicos,
- o desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social,
- o empobrecimento da maioria em benefício dos banqueiros e da aristocracia financeira.
Para assombro de todos, suas propostas mobilizaram o velho partido adormecido. Após uma campanha meteórica, Corbyn obteve 59% dos votos já no primeiro turno. O resultado deveu-se, especialmente, à adesão de jovens. Milhares deles, que estavam desacreditados da política institucional, ingressaram no Partido Trabalhista, para ajudar a abrir a janela de esperança sinalizada pelo candidato.
Jeremy Corbyn – Foto: cdn.images.express.co.uk
Esta vitória não impediu que a mídia e os caciques considerassem que Corbyn era inviável eleitoralmente e tentassem sabotá-lo.
- Uma coisa, diziam, eram os jovens entusiasmados.
- Outra, o conjunto dos eleitores – que, segundo se dizia, rejeitariam um programa dissidente.
- Em junho de 2016, uma grande maioria de parlamentares do Partido Trabalhista derrubou Corbyn, com um voto de desconfiança.
Ele aceitou o desafio e retornou, com uma vitória ainda mais expressiva, assegurada pela base do partido. Ainda assim, continuava estigmatizado. Há apenas quatro meses, a circunspecta revista The Economist previa que, sob sua liderança, os trabalhistas caminhariam para a morte.
Em 19 de abril – há apenas sete semanas, portanto – a primeira-ministra conservadora convocou eleições antecipadas. Alegava precisar de força para negociar, em melhores condições, a saída do Reino Unido da União Europeia – o chamado Brexit. No fundo, acreditava no mito da morte dos adversários. À época, as pesquisas eleitorais sugeriam que teria 24 pontos de vantagem sobre os trabalhistas – e que Corbyn, humilhado, não teria outra alternativa exceto renunciar.
O que se viu foi exatamente o contrário. Corbyn foi capaz de passar da crítica às alternativas. Seu programa – Manifesto, como dizem os ingleses – é um sinal de que a oposição ao neoliberalismo pode traduzir-se em propostas muito concretas.
- Ele propõe o resgate do NHS – o legendário sistema de Saúde pública e gratuita que foi depredado nos últimos governos.
- Quer resgatar a Educação pública, elevando os salários arrochados dos professores, introduzindo novos métodos e diminuindo o número da alunos por sala de aula.
- Defende o fim da cobrança de mensalidades nas universidades – introduzida pelos conservadores e mantida pelos trabalhistas.
- Quer reverter o aumento progressivo da idade mínima para aposentadoria. Não tem medo de dizer: tudo isso exigirá mais impostos – para os ricos e as grandes empresas e em especial a aristocracia financeira
Num tempo em que se recomenda à esquerda não questionar a estrutura de classes para não perder votos, Corbyn propôs um slogan divisivo: “Governar para muitos, e não para poucos”.
Defendeu a reestatização
- das ferrovias,
- do abastecimento de água,
- dos correios.
Justificou a medida com um argumento concreto, não ideológico: “são serviços públicos, sua propriedade não deve visar enriquecer ninguém, mas atender com qualidade a população”.
- Questionou o alinhamento automático aos Estados Unidos.
- Lembrou que esta política obrigou a Inglaterra a apoiar a Arábia Saudita, o país mais implicado com os grupos extremistas que provocaram três grandes atentados terroristas na Inglaterra, só este ano.
- Anunciou que, se eleito, formaria um ministério em que pelo menos metade dos membros seriam mulheres.
Este programa radical, mas ao mesmo tempo muito concreto e pragmático, gerou um fenômeno político. Os eleitores sentiam que, depois de muitos anos, havia uma escolha real a fazer. Por isso, numa campanha curtíssima, a distância entre Thereza May, a primeira-ministra conservadora, e Jeremy Corbyn caiu muito rapidamente. Tudo sugere que, com mais duas semanas, o resultado seria o oposto.
Mas o mais importante é: Corbyn revelou que outra esquerda é possível.
O resultado prático das eleições ainda é incerto.
- A bancada do Partido Trabalhista cresceu de modo expressivo: de 230 para 262 cadeiras no Parlamento.
- Os conservadores perderam 12 assentos: agora têm 318 – ou seja, já não são maioria.
- Tentarão chegar ao número mágico de 326 cadeiras aliando-se ao DUP, um partido religioso de direita ultraconservadora na Irlanda do Norte.
Mesmo que o consigam, terão composto um governo que já nascerá enfraquecido e mesmo desmoralizado. Theresa May queria um mandato forte para negociar o Brexit. Foi claramente derrotada neste intento. Como irá encarar agora os outros governantes da União Europeia, a quem desafiou? Há, ainda, a possibilidade de que ela não consiga entender-se com o DUP. Nesse caso, Corbyn será chamado pela rainha a tentar formar um governo. Como não tem maioria, novas eleições seriam provavelmente convocadas, em condições agora muito mais favoráveis para os trabalhistas.
Duas conclusões gerais emergem – e são muito positivas.
- Primeira: o muro neoliberal é um blefe. O discurso segundo o qual a esquerda precisa manter-se comportada, para não se inviabilizar, é falso. Corbyn pagou para ver, foi capaz de passar da oposição às propostas concretas e renovou o Partido Trabalhista.
- Segunda: a rebeldia é possível – principalmente quando se acredita nos jovens, os mais atingidos pelo neoliberalismo.
No Brasil, as últimas manifestações pelas diretas-já têm mostrado enorme presença das pessoas com menos de 25 anos, tanto da classe média quanto das periferias. É um sinal.
Aqui, porém, estas pessoas não têm um instrumento político, uma forma de organização em que
- possam debater,
- permanecer mobilizadas,
- construir visões coletivas sobre o mundo, o país e sua cidade.
Os partidos já não cumprem este papel. Não surgiu ainda nada
- como um Podemos
- ou como a rebeldia de Jeremy Corbyn no Partido Trabalhista britânico.
É uma enorme energia política desaproveitada. É um problema diante de nós, esperando uma resposta.
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