
Bruno Cezar Malheiro –27/05/17
No mesmo dia em que a polícia jogava bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha em manifestantes em Brasília, em defesa às vidraças dos ministérios e de um governo e congresso nacional ilegítimos, a polícia do Pará assassinava 10 trabalhadores rurais no município de Pau D’Arco, no cumprimento de uma ação de despejo na fazenda Santa Lúcia, segundo a Comissão Pastoral da Terra.
Os fios que tecem as histórias parecem soltos, mas podemos facilmente juntá-los. O desgoverno de Michel Temer teve sua maior crise política depois das delações de Joesley Batista, dono da JBS, empresa batizada com as iniciais do nome de seu pai: José Batista Sobrinho. A JBS é a expressão máxima de como funcionam os negócios do agro no Brasil, recebendo cerca de R$ 10,63 bilhões do BNDES e construindo um império de relações nefastas.
A empresa já
- foi acusada de envolvimento no esquema de corrupção para comercialização de carne sem a devida inspeção sanitária pela operação Carne Fraca,
- e multada em R$24 milhões pelo IBAMA, por meio da operação Carne Fria, por compra de gado de áreas desmatadas ilegalmente, por seus frigoríficos de Santana do Araguaia e Redenção no Pará.
- Além disso, já foi obrigada, pelo Tribunal Superior do Trabalho, a pagar R$10 milhões, em 2014, por condições insalubres de trabalho em frigoríficos da Seara, pertencente ao grupo, além de cobrada pela Receita Federal, em 2016, em R$3 bilhões por fraudes.
O império, que financiou 1.829 candidatos de 28 partidos em troca de favores políticos, é só a ponta de um novelo que liga
- os ternos dos políticos,
- o dinheiro dos grandes latifundiários e seus empreendimentos
- e as fardas da polícia em um país em que o Agronegócio é cada vez mais quem dá as cartas.
Os negócios do agro
- encurralaram a política partidária e, há tempos,
- envolvem também a polícia.
As propinas de Brasília têm relação direta com o aumento desenfreado da violência no campo. A Frente Parlamentar da Agropecuária, abastecida com dinheiro de Joesley e tantos outros – que
- na legislatura de 2010 a 2014 tinha 120 deputados
- e atualmente possui 207 dos 513 existentes,
- além de 24 senadores
– lança quase diariamente, através de orientações publicadas em seu site, como cada parlamentar deve se posicionar na pauta legislativa, numa clara campanha de
- flexibilização das legislações ambientais
- e ataque aos direitos territoriais de indígenas, quilombolas e camponeses.
Ao mesmo tempo, na ponta desse processo, grandes latifundiários, blindados pela impunidade e com a cumplicidade da polícia, sentem-se autorizados a matar. As mãos que desfazem as leis autorizam a morte; ternos e fardas, movidos pela ordem da propriedade privada, jorram sangue.
Na contramão dessa tessitura vil, 100 mil pessoas protestavam em Brasília, camponeses acampavam no Pará. Nas pautas,
- a luta contra a mercantilização da terra, que retira as condições de existência de milhares de camponeses;
- a luta contra a mercantilização dos corpos, que coloca na esfera do trabalho todo o tempo de vida dos trabalhadores – seja pela flexibilização dos direitos trabalhistas ou, ainda, pela retirada do direito à aposentadoria;
- e a luta, enfim, contra a mercantilização da política, tornada refém das grandes empresas financiadoras de campanha.
Diante deste cenário, a mídia reage com enormes campanhas publicitárias a favor do que batizou de ‘Agro’ e, como um dispositivo capaz de transformar versões abjetas sobre os fatos em verdade pública, prefere, em Brasília,
- mostrar insistentemente as vidraças quebradas dos ministérios
- e persistir na tese da violência dos protestos,
- esvaziando toda a teia de relações
- e ataque aos direitos empreendidos pelo desgoverno.
- Já em Pau D’Arco, insiste na tese de confronto, numa chacina em que 10 camponeses morreram e nenhum policial foi ferido.

Os holofotes seletivos da mídia parecem ajudar a criar uma lógica de distribuição espacial das táticas de violência e de governo das populações no Brasil, isto é, na sociedade do espetáculo,
- o que ainda se vê se reprime
- e o que não se vê se mata.
A luminosidade de certos espaços garante uma munição mais leve, mas nem por isso não violenta e, por vezes, letal. Entretanto, a opacidade de outros espaços, construída por uma indiferença consentida pelos grandes veículos de mídia, transforma-os em zonas de morte. E, assim, o governo dos corpos segue essa geopolítica nefasta criada por arranjos torpes e organizada pelos focos das câmeras de TV.
O Brasil criou suas zonas de extermínio, lugares em que o exercício do poder se faz pela morte. A indiferença em relação a isso é, na verdade, conivência, uma vez que só se mata
- pela certeza da impunidade
- e da não visibilidade,
- pela certeza que o emprego da força desobriga a norma,
- pela certeza da existência de espaços vazios de direito em que tudo se pode,
- espaços excluídos do imaginário de nação difundido,
- esvaziados de seus atributos e postos numa zona de indistinção,
- onde a violência extrema é a força de uma lei fora da lei.
O interior da Amazônia, assim como a periferia das grandes cidades, tornaram-se zonas de extermínio e, aqueles que lutam por direitos e que ainda constroem relações de sentido intensas
- com a terra,
- com a floresta,
- com a cidade,
são jogados na vala comum da indiferença pela sacralização da mercadoria e da propriedade privada. E, assim, nosso estado de exceção tornado regra continua produzindo massacres atrás de massacres.
Seja em Brasília, seja em Pau D’Arco, o fato é que Estado brasileiro construiu suas tecnologias de destruição com níveis distintos de intensidade e força. De um lado, o ataque aos direitos fundamentais são, em si, um modo de deixar morrer, sobrecarregando os corpos de trabalho, tirando-lhes
- o descanso,
- a saúde,
- a mobilidade
- e a dignidade.
Por outro lado, quando os corpos se cansam de serem atacados e se reúnem, toda uma tecnologia de repressão se define pelo ataque aos sentidos,
- através das bombas de gás lacrimogêneo,
- pela a marcação da pele, com as balas de borracha,
- ou pelo extremo letal de munições que atravessam os corpos e lhes retiram a vida.
Dos movimentos sociais do campo vêm um ensinamento potente: “aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio, mas uma vida inteira de lutas”. O silêncio aos crimes de Estado são a munição para novos ataques e massacres e a luta permanente e cotidiana é a única maneira de transformar os espaços de indistinção, as nossas zonas de sacrifício e de extermínio, em lugares em que a vida é possível.
No mesmo dia, 24 de maio, em que
- a política do Distrito Federal reprimiu manifestantes em Brasília
- e a polícia do Pará matou 10 camponeses em Pau D’Arco,
num ataque aos corpos para a defesa de bens, há seis anos atrás, Maria do Espirito Santo e José Claudio Ribeiro, ambientalistas que viviam e lutavam pela floresta, eram assassinados cruelmente no assentamento agroextrativista Praia Alta Piranheira em Nova Ipixuna no Pará. A memória é uma das poucas armas que temos para que tudo não caia no esquecimento e se repita. Mas, como continuamos a tratar com indiferença tanta dor, a história teima em se repetir.
- O 17 de abril de 1996, dia em que 21 camponeses foram assassinados pela polícia em Eldorado dos Carajás
- encontra-se, 21 anos e dois dias depois, com o 19 de abril de 2017, quando 9 camponeses foram torturados e mortos em Colniza no Mato Grosso
- e, 11 dias depois, com o 30 de abril de 2017, quando indígenas Gamela foram atacados brutalmente em Viana no Maranhão.
- O 12 de fevereiro de 2005, dia em que Irmã Dorothy Stang foi assassinada em Anapu
- está em 4 de maio de 2017, quando Kátia Martins, liderança camponesa, é executada em Castanhal
- e está também um dia depois quando Eduardo Soares da Costa também é torturado e morto em Eldorado dos Carajás, sempre no Pará.
Esses rastros de dor nos mostram uma longa história em ruinas de um país em que o massacre aos mais vulneráveis é tratado como sinônimo de desenvolvimento, em que a violência aos povos camponeses e indígenas é compreendida como progresso, em que a existência de espaços, aos quais não se olha e onde tudo pode acontecer, justifica a morte de pessoas que ninguém liga, em que, enfim, a defesa da propriedade privada é mais sagrada e importante que a defesa da vida.
No país em que ruralista
- corrupto é pop
- e defensor de direitos é baderneiro,
o mundo parece visto como uma coleção de bens em que apenas seus proprietários têm direito à cidadania. Todos os não proprietários são corpos esvaziados de direito a serem estilhaçados em nome da lei e da ordem dos proprietários. O Estado e a mídia são as armadilhas que tornam essa equação algo normal.
Trocar as lentes que captam o mundo torna-se uma necessidade cada vez maior! Ver pelos olhos daqueles que sofrem na pele as consequências das formas abjetas de construção das regalias e das propriedades no Brasil parece ser a única forma de construirmos empatia entre nossos corpos despedaçados, afetos que nos permitam mudar a equação social vigente para a qual nos é reservada a morte.

Bruno Cezar Malheiro
Fonte: http://pontocritico.net.br/artigo/quando-a-propriedade-privada-e-mais-importante-que-a-vida