“O marxismo era uma fé e não vejo como ressuscitá-la”

 

Acusam-no de ser frio nas suas análises, de os seus ensaios não terem emoção, de lhe faltar literatura.

É verdade. Num debate, numa conversa sobre ideias, não estou preocupado em fazer um texto bonito. É uma grande influência nórdica, porque os países do Norte são muitíssimo mais frios a discorrer sobre ideias. Em Portugal, prefere-se uma pessoa emotiva que não diga nada a alguém que friamente analise um assunto.

Daí ser um crítico das grandes utopias que querem mudar o mundo. Lembro-me do Theodor Roszak dizer, no Para uma Contracultura, nos anos 60: “Eu tenho planos claríssimos para mudar o mundo, não sei é como vou mudar a mentalidade do merceeiro da minha rua”. O grande erro do Marx foi não perceber a natureza humana, tão obcecado estava com um conjunto de ideias e ideais. O capitalismo é feito pelos homens e os seres humanos são muito mais complexos, muito mais mesquinhos; não é possível criar o paraíso na terra. E o que se pode fazer é criar regras de convivência, para que cada um tenha o seu espaço de liberdade.

Mas não precisamos da utopia, do sonho; não precisamos de pensar no impossível para fazer o possível?

Claro, ao contrário do John Gray, que diz que nem isso vale a pena, eu ainda sou dos que acham que vale a pena ter sonhos; agora são sonhos muito concretos e não sonhos irrealistas em que o indivíduo acaba por não fazer nada. A conversa é muito bonita, mas eu acho melhor que o sonho seja mais baixinho, mais à nossa medida – que seja uma utopia de pés no chão.

É por isso que acha que Shakespeare superou Marx?

Shakespeare entendeu como ninguém do mundo das artes a complexidade da natureza humana. Marx era demasiado ideólogo e estava convencido de que o mal do mundo era o capitalismo e de que quando este acabasse tudo ficaria bem, esquecendo-se de que os seres humanos, no dia-a-dia, têm todas aquelas camadas negras que o Shakespeare apontou e que nunca desaparecem.

Se a China e a Índia estão hoje a fazer o mesmo que se fez no século XIX, como diz neste livro, não terão os marxistas de hoje razões de sobra para declararem guerra ao capitalismo?

Recorrer ao marxismo hoje é tão quixotesco como querer levar as pessoas de volta à igreja. O marxismo era uma fé e não vejo como ressuscitá-la. Quem de nós estará disposto a abdicar da sua liberdade de expressão? Não faltará certamente é quem esteja pronto para retirar esse direito a outros.

Como poderão manter-se vivos os ideais da modernidade que, para si, são “a última esperança”, quando a justiça e a igualdade para todos são condicionadas por forças que funcionam à margem da lei?

Nunca houve um mar de rosas em matéria de justiça e liberdade. Isso são ideias da modernidade em que todos fomos embalados. Aliás, em Portugal a nossa geração foi a primeira a beneficiar em pleno delas. Se há alguma coisa que seja preciso acordar são as pessoas, não o capital, porque esse não dorme nunca. Se há que urgir intervenção de alguém será a dos cidadãos. Organizando-se e intervindo.

Nunca se tinha falado e escrito tanto sobre revolução como nos últimos tempos.
As revoluções dão no que temos visto. Permitem uma explosão pelo tubo de escape, mas depois tudo assenta de novo e volta-se em grande parte à [situação] antiga.

É mais responsável resignarmo-nos com a imperfeição desta modernidade?

Não se trata de fazer um apelo à resignação, mas sim de não embarcar em utopias que só são servidas em sonhos. Explodir canhões e bombas contra quem? Os grandes responsáveis estão longe e bem protegidos. É frustrante, mas espernear e berrar simplesmente não resolve nada. E juntar balas ao protesto também não.

José Eduardo Franco, no posfácio, escreve que “urge ganhar consciência crítica dos limites e das potencialidades, para que se possa enfrentar os desafios que a crise de hoje – que é, na verdade, uma crise de sempre, uma crise mais funda – nos impõe”.

Eu gostava que se fizesse, mas não vejo aí muita gente empenhada nisso; vários que deviam estar a estudar a sério não estão porque estão ocupados a queixar-se. Vejo um excesso de pessimismo e de mãos caídas. Nós somos maníaco-depressivos. Há um leque de possibilidades, mas não é muito grande e há que ter noção realista delas e perceber onde é que se pode intervir e melhorar. Isso acaba sempre na responsabilidade individual que muita gente não tem.

Onésimo Teotónio de Almeida é filósofo português, natural dos Açores, radicado há anos nos EUA, onde é professor na Universidade de Brown.

Entrevista a propósito do livro «Utopia em Dói Menor»

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