Nestes tempos de crise profunda
e de exaltação da sociedade científico-técnica
e do economicismo, muitos perguntam-se pelo lugar das Humanidades
na sociedade contemporânea.
A breve reflexão que aí fica inspira-se numa excelente conferência do colega
João Maria André para os jovens estudantes da Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra, em início de ano lectivo. O seu objectivo era
demonstrar que “vale a pena investir numa formação humanística para fazer
face ao mundo em mudança e às transformações macroparadigmáticas” da nossa
actual sociedade.
1- João M. André começou por apresentar traços fundamentais do tempo
presente.
O primeiro é a globalização, com diversos rostos, de tal modo que tanto pode
ser “a globalização da rapina, hegemónica, de matriz neoliberal”, como uma
globalização da solidariedade, que se exprime nas lutas pelo reconhecimento
dos direitos de todos e no esforço de invenção de novas formas ecoéticas de
habitar o mundo. As Humanidades, nas suas várias vertentes, contribuem com o
seu olhar crítico dos problemas ao mesmo tempo que inscrevem outros valores
para lá dos económicos e tecnológicos.
Outro traço é o de uma sociedade do conhecimento e da informação. Não é
acidental que se chame assim e não sociedade da cultura. Ora, as
Humanidades, pela Filosofia, pela História, pela mediação linguística e
artística, “activam o pensamento que é algo diferente do cálculo e da
navegação” nos novos meios de comunicação.
Vivemos numa sociedade multicultural, e também aqui as Humanidades têm um
papel decisivo: no seu estudo, “entramos em contacto com povos e culturas
diferentes, aprendemos as suas línguas, a sua história, a sua geografia, os
seus mitos, os seus valores, as suas formas de comunicar, de viver e de
fazer mundos.”
2- Esta sociedade é uma sociedade em mudança, com o fim de velhos paradigmas,
ao mesmo tempo que emergem outros novos, para os quais o contributo das
Humanidades é inquestionável.
Vimos do paradigma da análise e da fragmentação, com o primado do pontual,
da especialização, do analítico, perdendo a noção da totalidade e da
complexidade e separando o sujeito e o objecto, e o indivíduo da comunidade
e da sociedade. Hoje, exige-se “um paradigma holístico dentro de uma
concepção de verdade multiperspectivada e complexa e a partir de uma
abordagem não só interdisciplinar mas mesmo transversal do mundo, da
natureza e do humano”. Neste trânsito de um paradigma redutor para um
paradigma holístico e reunificador, as Humanidades podem mostrar todas as
suas virtualidades.
Um segundo paradigma dá o primado à tecnociência nos diferentes domínios,
incluindo o humano, reduzindo o homem a faber e o mundo a um mundo-máquina,
habitado por uma sociedade-máquina. Mas, dentro do reconhecimento dos
benefícios científico-técnicos deste paradigma, não é verdade que ele também
nos empobreceu, já que, por detrás deste mecanicismo, está um dualismo entre
a dimensão corporal e espiritual do homem, prolongado numa cisão entre a
racionalidade e a afectividade, desvalorizando o domínio das emoções? Não se
acabou por esquecer que o homem é simultaneamente sapiens e demens e que,
além do interesse do saber, também há o interesse no jogo, no sonho, na
imaginação criadora, na efabulação?
O actual paradigma é da mercantilização das coisas e da vida, no quadro do
primado do homo oeconomicus. Pergunta-se: mas será que tudo se reduz ao
valor monetário e de mercado? E os valores éticos e os valores estéticos e
os valores políticos e os valores afectivos e os valores religiosos?
Vinculado ao paradigma da mercantilização está o paradigma da liquefacção:
vivemos na sociedade líquida, como teorizou Z. Bauman, desembocando numa
existência efémera, na cultura ligt, descartável, do consumismo, na
insatisfação permanente. As Humanidades, apelando à memória e aprofundando
no pensamento crítico, salvaguardarão um mínimo de solidez, captando o peso
do tempo na esperança da dignidade livre e da liberdade na dignidade de
todos.
ANSELMO BORGES
Fonte: http://www.costadacaparica.com.pt/new.asp?id=740294&t=Elogio-da-humanidade-das-Humanidades