A descoberta do bosão de Higgs (ainda não há provas totalmente definitivas) aproximou-nos um pouco mais dos
instantes que se seguiram ao Big Bang.
É fabuloso aonde a ciência está a chegar. Mas é claro que ela não poderá
alcançar o Big Bang enquanto tal, pois trata-se de uma singularidade. Como é
ainda mais claro que para a ciência não tem sentido perguntar: “e antes do
Big Bang?”, já que o tempo apareceu com o Big Bang. O “antes” tem já a ver
com questões filosóficas e religiosas.
Começa, pois, a ser tempo de cientistas, filósofos e teólogos se juntarem
para reflectir sobre a criação do Universo. E foi isso precisamente que
aconteceu no passado mês de Outubro em Genebra. “Dei-me conta de que é
necessário discutir isso”, disse Rolf Heuer, director-geral do CERN. Como
cientistas precisamos de “discutir com filósofos e teólogos o antes do Big
Bang”.
Para alguns, trata-se de uma questão sem interesse. Assim, para Lawrence
Krauss, um físico teórico da Universidade Estatal do Arizona, aquela reunião
não significava que os cientistas estejam interessados em Deus. “Não se pode
refutar a teoria de Deus. O poder da ciência é incerto. Tudo é incerto, mas
a ciência pode definir essa incerteza. Por isso, a ciência progride e a
religião não.”
Há, porém, quem lembre que foi um padre católico, professor de Física na
Universidade Católica de Lovaina, a primeira pessoa a propor, em 1931, a
teoria do Big Bang. E manteve a fé religiosa como sendo tão importante como
a ciência, tornando-se inclusivamente presidente da Academia Pontifícia das
Ciências até à sua morte, em 1966. E, ao contrário do que frequentemente se
diz, Darwin também deixou escrito na sua autobiografia: “O mistério do
princípio de todas as coisas é insolúvel para nós, e, pelo meu lado, devo
conformar-me com permanecer agnóstico.”
John Lennox, professor de Matemáticas na Universidade de Oxford, presente no encontro, declara-se cristão. Para ele, o facto de os seres humanos poderem
fazer ciência pressupõe um mundo racional e, assim, a ciência abre para
Deus: “Se soubesses que o teu computador é produto de um processo não
guiado, sem sentido, não confiarias nele. Por isso, para mim, o ateísmo mina
a racionalidade de que necessito para fazer ciência.”
Andrew Pinsent, também da Universidade de Oxford, pensa que colaborar com a filosofia poderia ajudar a enfrentar as grandes perguntas. Por isso, Heuer
sublinhou que é necessário continuar a dialogar, pois deparamos na nossa
cultura com o problema da hiper-especialização, de tal modo que “a
ignorância de outros campos pode causar problemas, como uma carência de
coesão social”.
Platão advertiu que é à volta de ser e do ser que os homens travam uma luta
de gigantes (gigantomaquia). O que os une – religiosos, filósofos,
cientistas – é precisamente esse combate. Somos todos convocados pelo
mistério do ser, do existir algo: “Porque existe algo e não nada?”
Fernando Pessoa disse-o de modo inexcedível – fica aí o poema, lembrando o
passado dia 15, Dia Mundial da Filosofia: “Ah, perante esta única realidade,
que é o mistério,/Perante esta única realidade terrível – a de haver uma
realidade,/Perante este horrível ser que é haver ser,/Perante este abismo de
existir um abismo,/Ser um abismo por simplesmente ser,/Por poder ser,/Por
haver ser!/- Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,/Tudo o que
os homens dizem,/Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz
através deles,/Se empequena!/Não, não se empequena… se transforma em outra
coisa -/Numa só coisa tremenda e negra e impossível,/Uma coisa que está para
além dos deuses, de Deus, do Destino -/Aquilo que faz que haja deuses e Deus
e Destino,/Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,/Aquilo
que subsiste através de todas as formas/De todas as vidas, abstractas ou
concretas,/Eternas ou contingentes,/Verdadeiras ou falsas!/Aquilo que,
quando se abrangeu tudo, não se abrangeu explicar porque é um tudo,/Porque
há qualquer cosia, porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa!”
ANSELMO BORGES
*CERN = Centro Europeu de Pesquisa Nuclear
