México, as palavras do Papa que ficaram esquecidas

No país os comentários estão divididos. Para o principal jornal diário, os bispos fizeram “ouvidos de mercador”

Alver Metalli – 13/02/2017

Foto: Francisco durante seu encontro com os bispos mexicanos em 13 de fevereiro de 2016

Faz um ano a visita do Papa Francisco ao México (12-17 de fevereiro) e o semanário católico de Cidade do México “Desde la Fe” recorda-a com um editorial que traz a assinatura  de María Alejandra Sosa Elízaga.

 Tradução: Orlando Almeida

A jornalista diz que perguntou a um bom número de compatriotas sobre o que lembravam daquela  viagem, selecionando e apresentando  em seguida  algumas respostas. “Agora que passou exatamente um ano, o bombardeio da mídia cessou, calou-se o ruído das multidões que aplaudiam, cessaram os gritos dos emocionados repórteres e quase já ninguém menciona mais o fato. Agora que as águas se acalmaram e se pode ver o fundo – escreve o semanário – é interessante saber o que ficou sedimentado”.

 E o que é que se depositou no fundo e resiste às correntes marinhas? 

“Uma senhora disse-me: ‘Tenho sorte de ainda ter os meus pais, que estão velhinhos e vivem comigo. Quero-lhes bem mas às vezes fazem bagunça, ou repetem o tempo todo as mesmas coisas. Então eu me lembro da ‘escutoterapia’,  a terapia da escuta, e da ‘carinhoterapia’, a terapia do carinho, que o Papa  recomendou, e em vez de perder a paciência ou repreendê-los, abraço-os e continuo a ouvi-los e a cuidar deles’”. 

“‘O que me ficou gravado, e que guardei na memória – respondeu um jovem estudante – foi sobre a arte de subir, onde o sucesso não está em não cair, mas em não ficar no chão. Para mim isto serviu para persistir nas coisas e não me desencorajar e mandar tudo às favas quando não dão certo ou saem mal’”.

 “Um médico compartilhou com emoção a sua lembrança” – continua a jornalista de ‘Desde la Fe’:

‘Quando aquela  jovem doente de câncer cantou a Ave Maria, e ele parou para ouvi-la com toda a atenção. Fiquei impressionado com duas coisas. Que, apesar dos seus numerosos compromissos, ele não continuou a andar, mas parou ali, como se pudesse dedicar a ela todo o tempo do mundo. Nós, médicos, não dedicamos tempo suficiente aos nossos pacientes, nós os visitamos apressadamente, nós os interrompemos, não deixamos que nos falem de si mesmos, de como se sentem.

E a outra coisa que ficou comigo é que provavelmente aquela jovem queria dar presentes ao Papa, mas não tinha nada além da sua canção, e foi isso que lhe ofereceu. E ele soube aceitar esse presente e valorizá-lo. Naquele momento eu compreendi que não devo ter pretensões acerca do que os outros me deveriam dar, ou como deveriam ser a minha esposa, as minhas filhas, mas sim apreciar o que de boa vontade me podem dar. Procurei pôr isso em prática e fez-me muito bem’”.

 A jornalista de ‘Desde la Fe’ registra também as palavras de uma senhora idosa.

“‘Emocionou-me ver o seu amor pelos indigentes, pelos presos, pelos mais necessitados. E conquistou-me quando eu soube que a única coisa que pediu foi de ter um pouco de tempo para rezar sozinho diante da nossa Mãe do Tapeyac. E que impressionante o silêncio que se fez naquele momento, seja dentro seja fora! Pensei: agora que o Papa é mexicano, é guadalupano, é nosso irmão!’.

 

De tom diferente o artigo publicado no principal jornal mexicano, “El Universal”, assinado por Astrid Rivera. A começar pelo título:

“Ignoran obispos llamado del Papa, dicen expertos [Os bispos ignoran o apelo do Papa, dizem os especialistas]”.  Os especialistas em questão perguntam-se quanto abalou o episcopado mexicano o discurso proferido pelo Papa em 13 de fevereiro na Catedral de Cidade do México sobre os males da Igreja, onde os exortou a abandonar todas as formas de clericalismo, a não perder tempo

“nos novos e vazios planos de hegemonia, nos estéreis clubes de interesses ou de panelinhas”. E “a não cair na paralisia de dar respostas velhas a perguntas novas”.

Naquela ocasião, pediu também para fazer mais contra o flagelo do narcotráfico e para dar continuidade ao compromisso com os migrantes.

Palavras “que entraram por um ouvido e saíram pelo outro” – garante Bernardo Barranco, analista de temas religiosos para o jornal ‘La Jornada’ e autor de “Los Obispos Mexicano ante los retos de Francisco [Os bispos mexicanos diante dos desafios de Francisco]”.

Barranco, que também é presidente do ‘Secretariado Permanente de la Associación Latinoamericana para Estudios de las Religiones’, observa que “mais do que ser um puxão de orelhas, o discurso representa um programa de trabalho que tem como base a unidade e a pastoralidade, coisas que até agora os bispos não souberam  ou não quiseram assumir”, continuando “parados num estacionamento  confortável, satisfeitos  com um relacionamento com o governo que umas vezes os lisonjeia e outras os contesta”. Para o comentarista, os bispos mexicanos “estão perdendo uma oportunidade para mudar, num ano sepultaram este discurso com uma atitude que é como a dos políticos tradicionais”.

 

Elio Masferrer Kan, pesquisador da Escola Nacional de Antropologia e História, concorda que após o “puxão de orelhas” de Jorge Mario Bergoglio, os bispos mexicanos em geral “não ouviram, não fizeram nada e de qualquer maneira não se percebe nenhuma mudança significativa». Na sua opinião, “a Igreja Católica precisa de um terremoto para mudar e Francisco deu apenas uma sacudidela”.

Para Jorge Trasloheros, um comentarista respeitado nos ambientes católicos, pesquisador do Instituto de Investigaciones Históricas da Universidade Nacional (UNAM)”, a visita do Papa resultou em que

  • os bispos engajados  numa linha pastoral de maior proximidade com as pessoas receberam impulso,
  • enquanto o cardeal Norberto Rivera Carrera (foto) ficou muito isolado, interpretando a mensagem do Papa na Catedral Metropolitana como dirigida substancialmente a ele. “

A conclusão de “El Universal” é amarga: um ano após o discurso na Catedral Metropolitana, “os bispos fecharam os olhos e os ouvidos e não se viram no agir concreto mudanças que vão além de simples pronunciamentos”.

 

 

Alver Metalli

Fonte: http://www.lastampa.it/2017/02/13/vaticaninsider/ita/nel-mondo/messico-quelle-parole-delpapa-rimaste-inascoltate-U7GnO702ownCq1cx9POVCI/pagina.html

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