O cardeal convidou o assessor anti-semita de Trump para uma conferência no Vaticano
Cameron Doody, 03 de janeiro de 2017
Foto: O cardeal Raymond Burke em uma missa – RD
Steve Bannon chama a uma “cruzada” para defender o Ocidente do secularismo e do islamismo.
“Eu não quero que minhas filhas vão a uma escola com judeus. Eu não gosto de judeus nem da forma como eles criam os seus filhos moncosos”
No dia de Natal Leonardo Boff disse em tom de brincadeira que o cardeal Raymond Burke “é o Donald Trump da Igreja Católica”, embora “já tenha sido neutralizado”. “Na Cúria” – acrescentou. A ressalva é importante, porque longe de ter sido neutralizado na política interna e externa da Igreja, o cardeal extremista emergiu como o líder do que o New York Times chamou de “Igreja militante”.

Com este rótulo o jornal refere-se a um grupo dos elementos mais reacionários do catolicismo. Utilizam todas as armas retóricas seu alcance, – incluindo
- a desinformação,
- a misoginia,
- o racismo
- ou o medo –
para defender o Ocidente do que eles qualificam de uma “crise” de civilização. Esta teria sido provocada por uma mistura de secularismo desenfreado com políticas econômicas que só servem às elites e com o auge do islamismo radical. Algo semelhante ao que pretende Trump com a sua ambição de “fazer a América grande outra vez”.
O motivo da comparação de Burke com Trump, feita pelo teólogo Boff, é que o cardeal, tal como o magnata, parece aspirar a nada menos do que um poder absoluto. No seu caso, com a pretensão de “corrigir” o Papa Francisco acerca dos “dubia” suscitados por Amoris Laetitia. Mas isto não esgota nem as semelhanças, nem as conexões entre o cardeal e o presidente eleito.
De acordo com o que BuzzFeed News descobriu em novembro, Burke seria o elo de ligação direta entre o republicano e alguns dos grupos mais extremistas da Igreja, especificamente nas suas relações com recém-nomeado conselheiro presidencial, Steve Bannon.

No verão de 2014, Bannon participou de uma conferência organizada no Vaticano pelo Instituto “Dignitatis Humanae” onde estava presente o Cardeal Burke em seu papel como presidente do conselho consultivo do mesmo.
Em seu discurso, Bannon ressuscitou alguns dos fantasmas mais ominosos de toda a história do Ocidente como
- a Batalha de Tours em 732,
- o Cerco de Viena em 1529,
- ou o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand em 1914, que resultou na Primeira Guerra Mundial.
E tudo isso para fundamentar o seu chamado a uma nova Cruzada por parte da “Igreja militante” contra as forças das trevas que ameaçam o mundo de hoje:
… Estamos no começo de um conflito brutal e sangrento, que – se as pessoas que estão nesta sala, as pessoas da Igreja, não se unirem para formar o que eu acho que é um aspeto da Igreja militante, se não se mantiverem firmes diante da nova barbárie que está começando – erradicará completamente erradicar tudo o que herdámos dos últimos 2.000, 2.500 anos.
Estes perigos para o mundo civilizado, segundo Bannon, são dois. Primeiro, o avanço implacável de um secularismo agressivo que solapou raízes “judaico-cristãs” da nossa sociedade. Segundo, o auge de um “conservadorismo libertário” que suplantou o “capitalismo ilustrado” que gerou tanta riqueza no Ocidente.
Estes dois fatores juntos deram origem, segundo Bannon, ao fenômeno ISIS, que a “Igreja militante” tem de enfrentar, inclusive alinhando-se aos movimentos populistas que também surgiram na Europa e os EUA, em resposta às políticas das elites seculares e libertárias:
… Eu pediria a todo este público, porque são os motores, promotores de opinião e líderes de pensamento na Igreja Católica de hoje, que considerem … daqui a 500 anos, o que dirão de mim? O que dirão do que fiz no início desta crise?
As armas que Bannon pegou diante desta “crise” da civilização são a desinformação, a misoginia, o racismo e o medo do outro. Como recordou o jornal La Vanguardia em novembro, quando se soube do seu convite para fazer parte do gabinete Trump – com uma lista de algumas das frases e manchetes polêmicas que Bannon publicou durante o tempo em que foi chefe do portal de notícias direitista Breitbart News:
- O medo é uma coisa boa. O medo leva a tomar medidas.
- Eu sou um leninista. Lenin queria destruir o estado e esse é o meu objetivo também. Eu quero fazer desmoronar tudo e destruir tudo o que está estabelecido hoje.
- O que temos que fazer é dar uma bofetada no Partido Republicano.
- Eu não quero que minhas filhas vão a uma escola com judeus. Eu não gosto de judeus nem da forma como elas criam os filhos ranhosos.
- Preferirias que o teu filho tivesse feminismo ou câncer?
- Abolir a escravidão foi uma má ideia.
- A solução contra o assédio na Internet é simples: as mulheres deveriam desconectar-se.
- Nenhuma das pessoas envolvidas na fraude do aquecimento global merecem um pingo de respeito. São pura escória.
- As mulheres não conseguem trabalhos tecnológicos, porque não fazem bem as entrevistas.
- Todos os jovens muçulmanos do Ocidente são uma bomba-relógio, simpatizam cada vez mais com radicais e terroristas.
- A pílula anticoncepcional faz com que as mulheres deixem de ser atraentes e fiquem loucas.

O “batismo” de Bannon pelo Cardeal Burke faz pensar que a “Igreja militante”, que o assessor de Trump convoca para defender o Ocidente, já deixou de lado as suas armas tradicionais de missas e rosários. Deve ter passado a um ataque frontal contra os valores mais prezados da sociedade moderna – os de respeito, de igualdade e de tolerância – e tudo isso em clave militarista e triunfalista.
Nem sequer a própria Igreja fala hoje do conceito de “Igreja militante”, tendo este sido substituído, por João Paulo II no Catecismo 1992, pelo conceito de “peregrinos na terra”. Mas isso dá no mesmo, como nos lembraria Leonardo Boff.
“Estas pessoas acreditam realmente que cabe a eles corrigir o Papa” – disse o teólogo na sua entrevista no dia de Natal. “Como se estivessem acima do Papa”.
Agora poder-se-ia acrescentar, tendo em vista o exemplo de Bannon e Burke: como se também estivessem acima das autoridades temporais. Até mesmo acima da sabedoria coletiva do Ocidente secular.

Cameron Doody
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