À MARGEM DE UM ENCONTRO
Pe. Nonato Silva*
Nemo de sacrificio potest iudicare, nisi artifex:
Só o artífice pode julgar da arte (Cícero).
Realizou-se em Belo Horizonte-MG o XIII Encontro de Padres casados.
Deve-se dizer, inicilmente, que há incoerência e ilogicidade em cognominar-se “padre casado” e continuar-se chamá-lo de “ex-padre”, “ex-colega”, tanto na oralidade quanto na escrita. Se é “padre casado” tem que ser “padre” e nunca “ex-padre”. E não se deve ter vergonha ou escrúpulo de assinar-se e ser chamado “padre”, podendo adicionar à formação “padre” outros títulos ou láureas que possua. A ordenação presbiteral é igual para todos, não ocorrendo dicotomia entre padre casado e padre celibatário
O Encontro, em si, va leu. Máxime no que concerne à contribuição das mulheres e dos jovens. No entanto, os aspectos doutrinários, filosóficos, teológicos, jurídico-canônicos foram fracos. Sem objetivos claros e adredemente definidos. Como a matéria estava a exigir. Em nível de que, hoje, sem rodeios, se deve propor e fazer. Com firmeza e coragem.
Francamente.
Viajarem-se centenas de quilômetros para se ouvir dentro do mais requintado e insaciável vedetismo, tematicamente: “pecados da Igreja”; “crimes da Inquisição’; “genocídio e escravidão da colonização”; “culpas e vícios dos eclesiásticos”; “discriminação entre clero e povo”; “a Igreja nos abandonou”; “pedidos de perdão”; “centralismo romano”; “espírito inquisitorial”; “censura eclesiástica”; “renovação conciliar interrompida; “discriminação de mulheres”; “marginalização de padres casados”; extinção do celibato”; “hipocrisia eclesiástica”; “direitos humanos postergados”; “império do Vaticano”; “Roma, a Babilônia”; “inflexibililade da hierarquia”; “eliminação do verbete ‘católico’; “a Igreja é seita como qualquer outra”; “não se deve dar ao papa tratamento de Surto Pontifice, de Sua Santidade”; “batismo só para adultos”; “renúncia do atual papa”; “vender missa”; “apressar a ordenação só para vender missa”; “inautenticidade da Epístola aos Hebreus”; “a missa me irrita; “não vou mais à missa porque o padre inverteu as palavras da consagração da hóstia e do cálice”; “substituir a palavra ‘padre’ por outra, talvez missionário”; “celibato não é dogma”; “ordenação sacerdotal é mentira e não sacramento”; “Cristo não fora sacerdote”; “Cristo não ordenou ninguém”; “Cristo nunca foi cordeiro”…
Então, compulse-se: “Sic et Christus non semetipsum glorificavit, ut pontifex fieret: sed qui locutus est ad eum: ‘Filius meus es tu; ego hodie genui ti’’ (Hb 5,5). “Quemadmodum et in alio loco dicit:
Tu es sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech” (Idem, 5,6). E mais. Hb 7,1; 7,15- 17; 7,21; 7,28; 8,1; 10,18; 9,15-18; 10,21. Tg 5,14. Ap 1,6; 5,10.
Outra preocupação jrimordial do padre, , mesmo casado, deve ser o reino: Mt 3,2; 4,17; 5,5; 5,19; 6,33; 7,21; 8,11; 10,7; 11,12; 12,28; 13,12; 13,19; 13,38; 18,3; 19,14; 21, 43; 25,34; 26,29. Mc 4,11; 10,14; 10,23; 12,34; 14,2 . Lc 6,20; 8,10; 9,62; 10,9; 11,2; 11,20; 12,31; 12,32; 13,29; l6,16; 17,20; 18,16; 18,24; 19,12; 21,31; 22,29. Jo 3,3; 18,36. At 1,3; 14.22; 19,8; 28,23. Rm 14,17. 1Co 4,20; 6,9;
15,24; 15,50. Gl 5,21. Cl 1,13. 1Ts 1,5. Hb1,8; 4,14; 11,33; 12,28. Tg 2,5.
2Pe 1,11. Ap 11,15 ; 16,10.
Com relação a Cristo não ser cordeiro, convém compulsar:
Jo 1,29; 1,36. At 8,32. 1Co 5,7. 1Pe 1,19. Ap 5,6; 5,12; 6,16; 12,11; 13,8; 14,1; 17,14; 1,7; 21,23; 22,3.
Também preocupação com pregar, anunciar, evangelizar:: Mt 9,35; 24,14; 26,13. Mc 14,9; 16,15. Lc 4,18; 8,1; 9,69. At 8,4; 8,25; 28,31. Rm 10,14; 15,20. 1Co 1,17; 9,14; 9,16. 2Tm 4,2. 1Pe 1,12; 1,25; 4,6. Ap 14,6. Ef 2,l7.
Isto deve ou pode ser preocupação do padre, ainda que casado. Deve-se abandonar, de vez, a hierarquia, como solução para os padres casados. Não adiantou, no Encontro, a presença de D. José Maria Pires, pe. Mário, Frei Cláudio, Frei Prudente. Tudo “flatus vocis”.A solução é de nós para nós. Não é mais tempo de esmolas.
De Belo Horizonte devia ter já saído uma Carta de Princípios, que fizesse-nos impor perante o clero e a sociedade. Haja vista as cartas publicadas no Estado de Minas.
Por isso, não se devem convidar autoridades eclesiásticas católicas, protestantes, de igreja brasileira e quejandos, para tomarem parte em nossos Encontros e congressos. Não nos acrescentam um côvado. Antes, inibem-nos . Devemos firmar um ponto de vista, como coisa nossa. Definir o que queremos, até mesmo rezar missa, dentro de um novo contexto de profetismo e evangelização, visando o reino de Deus. Não se deve cometer farsa, simulando o sacramento de Eucaristia, como aconteceu n último ato litúrgico do Encontro. “Toda a comunidade que celebra a memória do Senhor é a feliz convidada a partilhar seu corpo e sangue” (sublinhei) . Quem consagrou? Logo farsa, profanação, sacrilégio. Tanto que José Pires, Mário e eu nos retiramos da farsa, voltando somente para o encerramento do Encontro.
O documento final do Encontro, lido em manuscrito, foi ingénuo e raquítico, insosso exangue. Devia encerrar a Carta de Belo Horizonte, assinalando época, positivo, objetivo, afirmativo, categórico, determinante, contundente, fixando sólidos princípios, como convém a uma categoria tão intelectual e intelectualizada. Sem cheiro de sacristia tradicional. Sem heresias. Incenso. Lenga-lenga de sempre. Sem medo, saindo imediatamente das catacumbas da hierarquia.
Devemos, nós, padres casados, uma vez que as palavras ditas a nós na ordenação foram as mesmas ditas à dos celibatários, ostentar também nosso título de “padre”, em qualquer circunstância, mesmo com distintivo.
Mas, para que tal aconteça, é preciso união em torno da Associação Rumos e MPC, revitalizando-os até mesmo atravésdas das contribuições estatutárias. Não se criem dentro da AR e do MPC os desarranjos dos PT e dos PDT da vida. Só a união garantirá nossa imposição retilínea. Sem as muletas da hierarquia, que desde já, deverão ser esquecidas e abandonadas, deixadas no “caritó”, para sempre. Só assim seremos “construtores de cristãos e de templos”. No entanto pode-se manter bom relacionamento com a hierarquia.Dependência nunca.
Pode-se parodiar D. José Resende Costa: “Ainda que mortos, continuaremos a pregar a Palavra de Deus”, a respeito do pe. Antônio Guilherme Pires da Costa E pe. Antônio: “Quando estivermos mortos a nossa batina pregará por nos”.
E fiquemos com a pergunta do desfecho do filme “Dogma”:
“Por que estamos aqui?”
* Pe. Raimundo Nonato Silva
Professor – Consultor – Filólogo
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