Muitas vezes em nossa vida, premidos por problemas, oramos a Deus. No quotidiano, a fórmula do “pedir” supera a do “agradecer”, pois nossas necessidades crescem muito mais que a capacidade de administrá-las. Após o Renascimento, Deus passou a ser concebido como “Onipotente” de forma unilateral na Europa e depois em todo o mundo Ocidental. A onipotência foi considerada a principal propriedade da sua divindade. Deus é o senhor do mundo e de todo o universo. Deus é o senhor, o mundo é sua propriedade e ele pode fazer dele o que quiser. Mas também na tradição ocidental, Deus se retirou cada vez mais para a esfera da transcendência, e o mundo foi concebido sempre mais em modo imanente e terreno, e de nossa responsabilidade. Apelamos para Deus quando não conseguimos resolver os problemas que criamos, e queremos, em nossas orações, lembrá-lo que Ele é o Onipotente, que pode fazer e resolver tudo. Então, oramos, insistentemente que se faça presente, para que marque presença em nossa vida, para que aceite trabalhar segundo o nosso tempo (chronos) e a nosso favor. E aí sentimos o silêncio de Deus, tão insípido, tão esmagador, tão a-temporal. Vem-nos a tentação de afrontá-lo, de instigá-lo, de provocá-lo para ver se nos responde. Esquecemos que o caminho não é esse para restabelecer a comunicação. O caminho é a humildade, é tirar os sapatos, pés no chão sentindo a umidade da terra da qual somos feitos, e aí começar do princípio, da oração de agradecimento, do reconhecimento de que não somos estrelas, mas somos neste universo somente pó de estrelas, fazemos parte do cosmos que é o “princípio antrópico forte” da nossa existência. Então o vazio que sentimos começa a ser preenchido com tudo o que existe ao nosso redor. Entramos num processo de comunhão com todos os seres como numa grande família, onde a imagem de um Deus família, trinitário, é um Deus que estreita relações, que nos coloca de volta ao seu tempo (kairós), que nos dá a medida justa para as coisas certas. Troquemos o silêncio de Deus pelo nosso silêncio. E com nossos irmãos mais velhos na fé, os judeus, aprendamos a escutar rezando: “Escuta Israel, o Senhor Deus é o único Senhor”.
pe. Alquermes Valvasori – teólogo