Tércio Amaral –
05/11/2016
Foto: Bernardo Dantas/DP
Em entrevista ao Diario, Boff fala de uma teoria contemporânea onde as religiões podem contribuir com a política. Ao se referir a inércia da Igreja Católica sobre o tema na atualidade, diz que a fé possui uma responsabilidade política na defesa dos direitos violados de minorias, além do combate à corrupção. Porém, critica a atuação das bancadas evangélicas.
“Elas se organizam ao redor de interesses corporativos e religiosos e pouco pensam no Brasil. Por isso, praticam uma política de exclusão e de fundamentalismo. Os governos devem aplicar a Constituição e enquadrar estas bancadas no espírito democrático e pluralista, pois possuem um viés antidemocratico e autoritário”, avalia.
Na entrevista, o teólogo ainda opina sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), do qual chama de “golpe”, a aceitação de temas como casamento gay e uso de preservativos para religiosos e o processo de canonização do arcebispo de Olinda e Recife dom Helder Camara (1909-1999), de quem nutre uma admiração pessoal. “Eu sou a favor de sua canonização, o mais rápido possível, pois sua figura e mensagem são urgentes para o mundo cada vez mais cruel e sem piedade”.
Confira a entrevista
Na sua avaliação, qual o maior legado, hoje, da Teologia da Libertação?
O maior legado da Teologia da Libertação foi o de ter dado centralidade ao pobre.
Este tem muitos rostos:
- são os operários explorados,
- são as mulheres submetidas aos homens ainda sob o patriarcalismo,
- são os afrodescendentes discriminados
- e os indígenas desprezados
- e a própria Mãe Terra, o grande pobre, cuja vitalidade está sendo agredida.
Por isso o eixo principal da Teologia da Libertação é
- a opção pelos pobres
- contra a pobreza
- e a favor da justiça social
- e da libertação concreta e histórica dos oprimidos.
Qual a sua avaliação do papado do argentino Francisco?
Minha avaliação é a melhor possível. Francisco é mais que um nome. É um projeto de Igreja pobre que vai aonde os pobres estão e se entende não como um castelo cheio de muralhas mas como um hospital de campanha que procura atender a todos. É também um nome de um outro projeto de mundo, onde não haja a voracidade capitalista, a adoração pelo dinheiro e o consumismo desenfreado. Prega o diálogo, a convivência dos diferentes e a renúncia a todo tipo de violência. Ele talvez seja a maior liderança mundial, seja religiosa seja política, num mundo sem líderes e de governantes medíocres, formados nas escolas de administração, treinados a administrar capitais e não a cuidar das pessoas.
O Sr. tem alguma posição a respeito do governo do presidente Michel Temer? Acredita que nós (o Brasil) estamos dando uma guinada à direita?
O que ocorreu foi um golpe de classe via parlamento. Não havia nenhum crime realmente consistente para afastá-la (Dilma Rousseff) do poder. Mas as classes proprietárias nunca toleraram alguém vindo do andar de baixo que chegasse a ser presidente e mudasse o rumo da história do Brasil, incluindo cerca de 40 milhões e fazendo benefícios aos pobres que nunca foram contemplados na história política do Brasil.
Para continuar a acumular, os 71.440 super-ricos que controlam as finanças e emprestam, com juros escorchantes, dinheiro ao governo para fechar as suas contas, estão atrás do golpe. Acresce ainda a ajuda de instituições norte-americanas que se fizeram presentes para desestabilizar o governo.
Os EUA não toleram a 7ª economia do mundo, situada no Atlântico Sul e com grandes riquezas, essenciais para o futuro próximo da economia, ligada aos bens e serviços naturais (grãos, sementes, água, minérios, florestas e terras) seguisse um caminho próprio e altivo. Tinha que ser enquadrado segundo o lema básico do Pentágono: “um só mundo e um só império” e “controlar todos os espaços”.
Esta dimensão geopolítica não pode ser esquecida e foi bem analisada pelo nosso maior analista de política internacional Moniz Bandeira. Temer é apenas a ponta de lança, nem a mais importante, desta investida golpista das classes ricas, articuladas com as grandes corporações, estas sim, que comandam os destinos da humanidade.
No campo da esquerda, o Sr. acredita que tenha alguma alternativa forte para as eleições presidenciais de 2018? Ou Lula ainda é o grande nome da esquerda?
Há um domínio total da ordem capitalista no mundo inteiro. Mas ela está numa profunda crise sistêmica e não possui em seu arsenal os instrumentos e meios para sair da crise. Está pois em decadência. Mais dia menos dia, haverá uma crise muito mais severa do que aquela de 2007/2008 segundo grandes analistas, o melhor deles o economista Rubini que previu a crise anterior.
Aí haverá, a meu ver, uma grande convulsão mundial, pois o próprio centro do poder será profundamente afetado. Há até o risco de um conflito nuclear com armas menores mas que produzem grande radiação, tornando regiões inteiras inabitáveis como em Chernobil e Fukushima. Não sou eu que sou profeta de mau agouro. Mas denunciam-no nomes respeitáveis como
- Noam Chomsky,
- Muniz Sodré
- e o próprio Papa Francisco.
A esquerda atual, em nenhum país do mundo, possui força suficiente para apresentar uma alternativa. Creio que a crise mundial será de tal monta que a humanidade, ao dar-se conta de que pode se auto-destruir, crie uma governança global para resolver os problemas globais. Aí sim, haveria uma democracia planetária que teria chance de salvar a vida no planeta, pois está ameaçada. Vale a frase de Einstein: “o pensamento que criou a crise não pode ser o mesmo que nos tire dela; temos que mudar ou então pereceremos”. Não é outra a mensagem do Papa Francisco em sua encíclica dirigida a toda a humanidade “Como cuidar da Casa Comum”. É muito comum, hoje, a eleição de parlamentares evangélicos, que engrossam as chamadas “bancadas conservadoras”.
Na avaliação do Sr., este tipo de representação política faz bem à sociedade e às respectivas igrejas que esses parlamentares representam?
Estas igrejas não respeitam dois quesitos constitucionais:
- o primeiro é que o Estado é laico e pluralista. Então nenhuma igreja pode se impor e tornar-se aquilo que, por sua natureza não é, um partido. Ela é uma religião que tem o seu lugar dentro do campo democrático, respeitando outras manifestações religiosas.
- O segundo é que o Estado não pode aceitar normas, leis e medidas derivadas de alguma religião.
Isto destruiria o primeiro quesito e faria injustiça a todas as demais igrejas e religiões. A bancada evangélica se organiza ao redor de interesses corporativos e religiosos e pouco pensam no Brasil. Por isso, praticam uma política de exclusão e de fundamentalismo. Os governos devem aplicar a Constituição e enquadrar estas bancadas no espírito democrático e pluralista, pois possuem um viés antidemocratico e autoritário. A Igreja Católica esteve mais presente na política brasileira (sobretudo até o fim do regime militar, em 1985).
O Sr. acredita que falta uma mobilização maior em relação à política brasileira? Quais os motivos dessa “ausência”?
A Igreja Católica, a exceção de alguns bispos, se calou diante do desrespeito à Constituição.
- Ela é predominantemente, nos dias atuais, desatualizada e na contra-mão do Papa Francisco.
- Ela é pela ordem, não se importando muito sobre o caráter desta ordem desde que respeite eu espaço religioso.
- No fundo prefere governos fortes e autoritários porque ela mesma, em sua estrutura interna e piramidal, é autoritária, não alimentando democracia participativa e não vendo com bons olhos a mobilização dos leigos seja no interior de seu espaço eclesial, seja na política. Acha, sem razão, que é politizar a fé.
A fé, na verdade, possui uma responsabilidade política na medida em que
defende os direitos continuamente violados de
- indígenas,
- afros,
- mulheres
- e especialmente de crianças,
combate à corrupção e promove as virtudes sociais da solidariedade, da convivência pacífica e da tolerância.
Enquanto a repressão não chega à sua pele, dificilmente se move, o que é triste, porque deixa os mais vulneráveis sem defesa, quando ela deveria ser a voz dos que não tem voz nem vez. Como nos faz falta um Dom Helder Câmara e um Cardeal Paulo Evaristo que se enfrentavam contra os produtores de opressões e injustiças estando sempre do lado dos mais fracos e oprimidos.
Para o senhor, existem limites entre religião e política?
Há e não há limites. Quando se trata de Política em maiúsculo, como
- a busca comum do bem comum,
- a defesa dos direitos, especialmente dos mais fracos,
- o combate à corrupção
- e a busca de mais justiça social, melhores salários, educação e saúde,
aí a fé deve mostrar sua opção por esta dimensão. Ela não faz politicamente política. Ela faz eticamente política.
Quando se trata de política em minúscula, que é a política partidária, a fé não deve se imiscuir e respeitar as várias opções. A fé tem a ver com o todo da vida e não apenas com a parte que são os partidos.
É contra a natureza da fé e não é democrático usar da fé para
- ditar normas,
- demonizar outros que não pertencem a sua denominação
- e dividir a sociedade.
Isso vem ocorrendo com algumas expressões das igrejas evangélicas que fazem proselitismo e especialmente perseguem as religiões afrobrasileiras e também outras igrejas cristãs.
O senhor acredita na mudança de pensamento da igreja para temas como casamento gay e uso de preservativos?
Creio que a Igreja, quero dizer, o corpo de direção, a hierarquia e os Papas vão aprendendo lentamente a não se meter demais na vida privada das pessoas, o que implica pressionar a consciência, que é o espaço mais sagrado que existe nas pessoas e que as coloca imediatamente diante de Deus. Ai ninguém deve se meter, no máximo sugerir e aconselhar, mas no fundo, sempre respeitar, porque o próprio Deus respeita.
A mensagem a ser anunciada é a de cultivar o amor, o respeito, a tolerância e a de acolher a responsabilidade da consciência de cada um. A Igreja deve significar alguma coisa boa para as pessoas e não um pesadelo, um super-ego castrador e controlador das decisões que de forma livre e adulta as pessoas tomarem. Existe um processo em curso de beatificação e canonização do acerbispo de Olinda e Recife d. Helder Camara.
O senhor acredita que essa seja a melhor forma de homenagear dom Helder?
Ele é tido por santo porque era santo, o santo dos pobres e dos esquecidos. A canonização significa universalizar para toda a Igreja e para o mundo a relevância de sua figura e de sua causa, que, no fundo, era a causa de Jesus. Eu sou a favor de sua canonização, o mais rápido possível, pois sua figura e mensagem são urgentes para o mundo cada vez mais cruel e sem piedade. Ele era terno e fraterno para com todos, um irmão universal.
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