Inés San Martín – 28/10/2016
Foto: Católicos num acampamento das Nações Unidas para os deslocados internos perto de Malakal, Sudão do Sul, 13 de janeiro de 2016.
Três líderes religiosos do Sudão do Sul visitaram o Papa Francisco em Roma, instando-o a viajar para o país para ajudá-los a combater a “doença mortal” das rivalidades étnicas que ainda estão causando derramamento de sangue cinco anos após a independência.
ROMA – Depois de décadas de uma sangrenta guerra que terminou em 2005, seis anos depois, o Sudão do Sul obteve a sua independência do Sudão, tornando-se a mais nova nação do mundo. No entanto, o derramamento de sangue está longe de terminar, pois lutas étnicas ainda estão em curso.
Tentando ajudar a intermediar a paz, o Papa Francisco, na quinta-feira, deu as boas-vindas ao Vaticano a três líderes cristãos do Sudão do Sul.
Os três estavam em Roma depois de ter aceitado um convite entregue a eles por meio do cardeal Peter Turkson, o representante do Papa em questões de justiça e de paz. (Esse é literalmente o caso, uma vez que o prelado do Gana preside o Conselho Pontifício Justiça e Paz, e em breve será o prefeito do novo dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral.)

Francisco com os três líderes religiosos do Sudão do Sul. Foto: L´Ossevatore Romano
Os líderes do Sudão do Sul em questão são
- Mons. Paulino Lukudu Loro, arcebispo de Juba;
- o Reverendo Daniel Deng Bul Yak, arcebispo da Província da Igreja Episcopal do Sudão do Sul e do Sudão;
- e o Reverendo Peter Gai Lual Marrow, moderador da Igreja Presbiteriana do Sudão do Sul.
Os três prelados, disseram a jornalistas na quinta-feira que o plano original era que Francisco se encontrasse com o presidente Salva Kiir Mayardit e com o seu ex-vice Riek Machar, uma vez que geralmente são tidos como os líderes das duas facções em conflito do país, mas Machar fugiu do país no início do ano e não poderia ser encontrado para receber o convite.
Salva Kiir Mayardit e com o seu ex-vice Riek Machar, os senhores da guerra civil
De acordo com um comunicado do Vaticano, o encontro dos líderes religiosos deu-se “no contexto das tensões que dividem a população, em detrimento de convivência no país”.
Entre outras questões, “reconheceu-se que existe uma boa e frutífera colaboração entre as Igrejas cristãs”, que desejam principalmente oferecer a sua contribuição para implementar iniciativas de diálogo e reconciliação.
Durante o encontro, os pastores sul-sudaneses convidaram Francisco a visitar o seu país num futuro próximo, e o pontífice – que disse aos jornalistas estar pensando numa viagem a “várias nações africanas” no próximo ano – demonstrou interesse.
“Ele concordou, em princípio, disse que iria trabalhar nisso” – disse Marrow, o líder presbiteriano.
Mesmo que não haja nenhum compromisso firme sobre quando, nem tenha sido apresentado um convite oficial por parte do presidente – quando o papa viaja, faz isso como um chefe de Estado, portanto precisa de um convite do seu homólogo – a pressão existe:
“Nós não podemos esconder que queremos ampliar este convite” – disse Marrow. “Nós vamos compartilhá-lo com o presidente e com todo o país, com as nossas comunidades religiosas”.
“A visita do Papa seria a de um líder religioso, ela teria um grande impacto e seria muito bem-vinda” – disse Loro, o bispo católico. “Seria uma grande ajuda para nós, e é por esta razão que viemos [visitar Francisco].”
De acordo com Loro, Francisco pode ajudar o Sudão do Sul, porque “somos uma nação temente a Deus” e as pessoas respeitam a liderança dele.
A representação diplomática do Vaticano no Sudão do Sul foi uma das coisas que Loro abordou durante a reunião com o seu chefe. Mesmo reconhecendo os grandes esforços que estão sendo feitos pelo representante papal, o fato de o país compartilhar um embaixador, chamado núncio, com o vizinho Quênia, é visto como um problema.
Quando perguntado sobre isso por Francisco, Loro disse ao papa que o ideal seria ter um [núncio] que vivesse permanentemente no país de forma, de forma a ter um conhecimento melhor da situação.
O conflito do Sudão do Sul é frequentemente rotulado como uma “guerra esquecida”, da qual raramente se fala na mídia, e no entanto é um dos mais sangrentos conflitos atuais.
Um dia antes de os líderes religiosos se encontrarem no Vaticano, o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, emitiu um alerta dizendo que, a menos que o aumento alarmante das palavras de ódio e de incitamento à violência contra grupos étnicos seja refreada, “o volume de atrocidades no país poderia explodir”.
Em agosto passado, a ONU alertou que as forças do governo e rebeldes haviam cometido estupros etnicamente orientados e assassinatos de civis durante os confrontos. Muitos temem que os políticos promovam a violência étnica se servir para os seus propósitos de permanecer no poder.

Sudão do Sul, devastado pela guerra étnica
Por esta razão, de acordo com Loro, a unidade entre os líderes religiosos é fundamental, como percepção de que os cristãos estão trabalhando em conjunto para resolver os problemas, consultando uns aos outros e sugerindo uma solução baseada no diálogo e na consulta.
Marrow concorda.
“O caminho para diante, que vai levar [os grupos étnicos] a voltarem a ser amigos, virá através do diálogo” – disse ele. “E deve ser inclusivo, todos os envolvidos neste conflito devem ser chamados para vir e falar de paz, de modo que as pessoas resolvam suas diferenças na mesa”.
Mas nenhuma solução virá da violência – advertiu ele: “Um problema não pode ser resolvido com um outro problema.”
Segundo uma estimativa da UNICEF, a agência da ONU para a infância, seis milhões de crianças correm o risco de sofrer desnutrição estimado, e as recentes escaladas da violência tornam a distribuição de ajuda mais difícil.
O país é rico em petróleo, mas após décadas de guerra civil, o Sudão do Sul é também um dos países menos desenvolvidos do planeta: apenas 15 por cento da população total de 11 milhões possui um telefone móvel.
O Banco Mundial estima que 85 por cento da população ativa desenvolve trabalho não-assalariado, principalmente a agricultura.
O Sudão do Sul tem dois grupos étnicos principais, os Murle e os Lou Nuer, e os confrontos entre eles têm sido uma constante desde a independência, apesar de vários cessar-fogos assinados desde então.
Marrow definiu o ódio étnico que destrói o país como uma “doença mortal”, com vidas em risco como resultado direto da violência mas também porque a ajuda humanitária é difícil de distribuir numa situação de conflito.
Mas “há uma necessidade premente de tudo, de alimentos, de abrigo, de tudo” – concluiu. É no meio desta situação desesperadora que os líderes cristãos lembram às suas gentes que “não vale apena matar uns aos outros, não vale a pena destruir o pouco que temos” – disse Marrow.
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Inés San Martín
Correspondente no Vaticano, para Crux