No domingo 30 de outubro começa uma das mediações mais difíceis do cenário geopolítico da América Latina. Bem à beira do precipício
Luis Badilla – 25 de outubro de 2016
Foto: O Papa abençoa o “diabo” Maduro
“Foi decisivo o enfoque coincidente da Santa Sé, do Papa e dos governos da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) presidida por Ernesto Samper”
Nicolás Maduro e os seus homens entenderam-no tarde demais. É desejável, para o bem do povo venezuelano, que não se tenha acabado o tempo para eles.
Este diálogo que começa no domingo deveria ter começado há pelo menos dois anos, mas lamentavelmente a situação havia-se deteriorado de tal forma que entre as partes só havia um denominador comum: o ódio recíproco, às vezes visceral e irracional, indiferente aos sofrimentos de um povo exausto.
Agora será difícil subir a ladeira, mas não há alternativas. Caso contrário, o governo e a oposição acabarão fagocitados no buraco de uma página negra da história do país.
No momento, depois de encaminhadas as consultas preliminares que começaram ontem, e sobretudo depois da audiência do presidente Nicolás Maduro com o Papa Francisco, tudo parece um pouco mais promissor, embora o horizonte ainda esteja cheio de armadilhas, muitas das quais são o fruto envenenado do ódio.
Durante anos, todos estiveram pedindo diálogo mas ninguém fez nada seriamente para que ele se concretizasse.
Foram protagonistas externos os que impuseram este caminho, o único transitável, temendo o pior, não só para a Venezuela mas para toda a região latino-americana.
(Na foto: José Serra com Enrique Capriles: arquitetando mais um golpe? NdR)
Foi decisivo o enfoque coincidente
- da Santa Sé,
- do Papa
- e dos governos da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) presidida por Ernesto Samper.
Igualmente decisiva foi a colaboração e disponibilidade de três líderes de prestígio:
- o ex-primeiro-ministro espanhol Jose Luis Rodríguez Zapatero
- e os ex-presidentes do Panamá, Martin Torrijos,
- e da República Dominicana, Leonel Fernandez.
Também foram fundamentais os “bons conselhos” que deram ao governo de Caracas os líderes políticos
- de Cuba,
- do Equador,
- do Brasil,
- do Uruguai,
- da Argentina,
- dos Estados Unidos
- e do Panamá,
para citar só alguns.
Mas agora chegou a hora da verdade. E já aparecem as rachaduras.

Os setores mais extremistas da oposição – encabeçados sobretudo por Enrique Capriles (Foto), atual governador do Estado de Miranda e ex-candidato derrotado por Maduro nas eleições presidenciais – declara abertamente que, em sua opinião, “não existe nenhum diálogo” e que não vai participar de nenhuma conversação com o governo.
Rejeita tudo:
- as conversações,
- o anúncio,
- o local,
- a data …
Capriles também faz uma advertência ao papa: “Olho, Santidade, estamos lidando com o diabo!”.
Outros líderes menores da oposição reclamam que souberam deste diálogo através das redes sociais e da televisão, e que portanto não se sentem envolvidos. Então não se consegue entender de que “diálogo” estiveram falando durante estes anos.
Estas posições extremistas são insidiosas e dificultam os esforços dos mediadores e dos “facilitadores”. Fracassar, nesta altura, já não é uma opção possível nem aceitável.
Todos os líderes devem assumir a responsabilidade, aceitando, se são coerentes e honestos, as consequências implicadas, ou então para eles a busca do diálogo foi só uma manobra política e mesquinha utilizada às custas do sofrimento e da crise de todo o povo e do sistema da Venezuela. E isso vale para todos, para qualquer um que encontre desculpas, pretextos ou evasivas para não se sentar à mesa da negociação.
Nestas horas na Venezuela deveria ser publicado por toda a parte o texto da catequese do Papa Francisco no último sábado, centrado na Misericórdia e no diálogo.
As palavras de Francisco enfatizam:
“Todas as formas de diálogo são expressão da grande exigência do amor de Deus, que vai ao encontro de todos e põe em cada um uma semente da sua bondade, para que possa colaborar com a sua obra criadora.
O diálogo
- abate os muros das divisões e das incompreensões;
- cria pontes de comunicação
- e não permite que alguém se isole, fechando-se no próprio pequeno mundo.
Não esqueçam: dialogar é escutar o que me diz o outro e dizer com mansidão o que penso eu. Se as coisas forem assim, a família, o bairro, local de trabalho, serão melhores.
Mas se eu não deixo que o outro diga o que tem no coração e começo a gritar – hoje em dia grita-se muito – não chegará a bom fim esta relação entre nós; não chegará ao bom fim o relacionamento entre marido e mulher, entre pais e filhos.
- Escutar,
- explicar, com mansidão,
- não ladrar ao outro,
- não gritar,
- mas ter um coração aberto”
Luís Badilla
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