O Minarete é o lugar da Luz

O escritor egípcio Alaa Al-Aswani, autor de best-sellers, é, de profissão, dentista. Nasceu, em 1957, no Cairo e estudou em Chicago, Estados Unidos. Obteve, entre outros, o Prêmio Bruno-Kreisky em 2007 e, em 2008, o Coburger Rückert. Vive no Cairo. Tornou-se conhecido em 2002, com o romance “O prédio Jakoubijan”, que esboça o microcosmos da sociedade egípcia, marcada pela repressão e pelo abuso do poder. O livro tornou-se best-seller no mundo árabe.

Em 29 de novembro, os suíços decidiram proibir, mediante referendo, a construção no país de minaretes, as torres de onde, nas mesquitas muçulmanas, os fiéis são convocados à oração. 57% da população votou a favor da proibição. Um legislador do partido ultranacionalista SVP, que convenceu a maioria dos eleitores a votar pela proibição e, portanto, contra o direito à liberdade religiosa, alegou que a civilização ocidental precisa de resistir ao avanço, na Europa, de uma religião que, em seu entender, é regressiva em relação aos valores da modernidade.

O escritor egípcio viu nisto uma advertência: os representantes do Islã moderado e liberal devem transmitir e demonstrar à Europa qual é “o verdadeiro Islã”.

Aqui a entrevista que Martin Gehlen lhe fez no Cairo:

GEHLEN: Os suíços, em evidente maioria, proibiram a construção de minaretes. Que significado tem essa decisão?

ASWANI: Eu não me surpreendi. Estive pouco antes na Suíça. É equivocado pensar que metade dos cidadãos seja racista. Prefiro imaginar que se sintam receosos diante de uma religião da qual praticamente nada sabem e que, nos meios de comunicação, só é apresentada como ligada ao terrorismo e a bombas. Além disso, na Europa, a imagem do Islã está muito vincada pela corrente vaabita da Arábia Saudita, excessivamente rígida e agressiva. Para mais, nós, muçulmanos, temos falhado na tarefa de transmitir a verdadeira face do Islã, sua tolerância e sua abertura.

GEHLEN: Será essa decisão indício de aumento do ressentimento anti-islâmico?

ASWANI: Temos de tomar muito a sério o referendo. A Suíça é um país multicultural no coração da Europa. Vivem nela, juntamente, pessoas de quatro idiomas. A Suíça é uma democracia modelar. Neste caso, o voto mostra claramente como as pessoas pensam na Europa. Na Alemanha seriam ainda mais os que votariam contra os minaretes.

GEHLEN: Que é que os muçulmanos deviam fazer melhor?

ASWANI: Não se pode esperar que alguém na Europa adquira conhecimentos exatos sobre o Islã. O modo como o Islã se revela ao mundo é assunto nosso, da nossa responsabilidade. Algumas semanas atrás, encorajei o Mufti do Egito a enviar à Suíça um professor de civilização islâmica a fim de explicar aos suíços o significado dos minaretes. Minarete significa em árabe “lugar da luz”; não é nenhum símbolo bélico nem tem nada a ver com poder.

GEHLEN: E qual foi a reação do Mufti?

ASWANI: Nenhuma. Enviou um observador para acompanhar o referendo, que chegou à Suíça no domingo, por assim dizer, depois das votações. Como propaganda havia um cartaz com minaretes em forma de mísseis e uma mulher totalmente coberta da cabeça aos pés. Nós temos de explicar ao povo suíço que o total velame das mulheres não tem relação alguma com o Islã. São tradições do deserto. O Islã jamais prescreveu às mulheres que deviam ocultar o rosto.

GEHLEN: Como se deve fazer este esclarecimento da Europa? Com mais centros de cultura islâmica e mais institutos de diálogo interreligioso?

ASWANI: Se forem os governos árabes a fazê-lo, isso dará em nada. São demasiado burocráticos e corruptos. Já há muitas mesquitas e centros islâmicos pela Europa, mas tudo é dominado pelas correntes vaabitas e financiado pelo dinheiro do petróleo saudita. Conforme o dinheiro que recebo, assim é a canção que canto. Mas o Islã moderado é que é o verdadeiro Islã. Temos muito trabalho pela frente e não podemos esperar que europeus bem-intencionados cuidem da imagem do Islã. Isso temos de o fazer nós, os intelectuais, as ONGs e as instituições como a Universidade Al-Azhar do Cairo.

GEHLEN: O que é que faz a Universidade Al-Azhar, por muitos anos centro influente do saber islâmico?

ASWANI: Indubitavelmente muito pouco. A estreitíssima ligação da Al-Azhar com o governo egípcio tornou a Universidade lenta e ineficiente. No século XIX e na primeira metade do século XX, ela era centro de um Islã aberto e o Egito uma sociedade liberal. Apareceu entre nós o primeiro cinema, teve assento no Parlamento a primeira mulher e fomos o primeiro país islâmico a reconhecer o direito de sufrágio às mulheres. A grande mudança chegou em começos da década de oitenta: nessa altura, de repente, foi dito da Arábia Saudita que uma mulher atriz ou cantora é contrária à religião. Hoje existem no Egito 17 canais da TV saudita que propagam diariamente esse acanhado Islã. Se eles há trinta anos tivessem dito no Egito que as mulheres deviam cobrir o rosto, a gente ter-se-ia rido deles.

Fonte: Westdeutsche Allgemeine Zeitung de 02.12.2009. Tradução e reelaboração de Luís Guerreiro.

Respostas de 3

  1. Acho que os suiços extrapolaram o bom senso, mas não estão fazendo nada diferente do que os governantes e cidadãos dos países islâmicos fazem. Aliás,na Suiça ainda há liberdades para os muçulmanos construirem as mesquitas (claro que sem os minaretes) coisa que os cristãos e seguidores outras denominações religiosas não podem fazer no Irã, Arábia Saudita e muitos outros paises islâmicos.

  2. Prezados,

    Acredito que a questão vai muito além do Minarete. Existe uma grande tendência na Europa de uma construção de uma sociedade sem Deus, hoje são os simbolos Islamicos, amahã serão os cristãos.

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