Rui Jorge Martins – 13/09/2016
«Não olhem com indiferença para os milhões de refugiados e miseráveis, que ficam à margem das estradas da nossa sociedade. Animados pela Palavra e pelo Espírito de Deus, sejam portadores de vida, de misericórdia para as vossas famílias e comunidades», apontou.
Numa celebração evocadora de acontecimentos ocorridos há quase cem anos, o prelado vincou que a Igreja deve estar aberta à novidade: «Abram-se à força renovadora do Espírito e deixem-se guiar por Ele, que é mestre para criar nova vida e nova esperança»
O bispo de Setúbal evocou hoje a Igreja católica “que, tantas vezes, organiza solenes celebrações, ritualmente perfeitas, mas onde falta o vinho da cordialidade, da atenção aos que sofrem a fome, a negligência e o abandono. Também para esta nossa Igreja, Maria olha com carinho preocupado, para nós que a constituímos. O seu olhar de mãe atenta e misericordiosa soa como desafio e encorajamento”,
As palavras de D. José Ornelas, de 62 anos, foram proferidas em Fátima, na missa que assinalou o 99.º aniversário da quinta aparição da Virgem Maria aos pastorinhos, a 13 de setembro de 1917.
«Não é uma receita rápida, nem uma aplicação simples para telemóvel. Tem a ver com o coração, com a atitude de vida, a começar pelo modo de olhar e terminando na conjugação do verbo amar. É um segredo que só se aprende fazendo», afirmou na homilia, enviada ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.
O prelado realçou que muitas vezes «falta o vinho do amor, da ternura, da solidariedade»
- na Igreja,
- na sociedade
- e na família, âmbito ao qual dedicou parte significativa da homilia.
Depois de frisar que a Igreja deve estar atenta às famílias em «situações dramáticas», o bispo de Setúbal salientou que Maria convida a um olhar compassivo para as pessoas e casais em «situações dramáticas de rutura, de violência, de manipulação, de abusos».
A atitude dos católicos, prosseguiu, para esses casos não deve ser «em postura de julgamento, para condenar e estigmatizar, mas em atitude fraterna, para compreender», com «solidariedade e misericórdia».
«Este é o caminho que a Igreja está a tentar percorrer e que, nestes últimos anos, o papa Francisco nos vem recomendando, no seguimento da reflexão do último sínodo [sobre a família]”, declarou.
Referindo-se aos relacionamentos que terminam com a separação e com o divórcio, D. José Ornelas acentuou que os católicos envolvidos nesses casos «não estão excomungados».
«Aprendamos, antes de mais, e demos espaço
- ao acolhimento,
- à solidariedade
- e ao encorajamento à vida e à ternura
nas nossas famílias, nas suas horas felizes e, sobretudo, quando sentem o peso das dificuldades e das crises», assinalou.
A Igreja «é chamada a ser família de solidariedade e de atenção aos mais carenciados, desiludidos e feridos», afirmou o bispo de Setúbal, que lembrou Santa Teresa de Calcutá, «mulher simples, mulher peregrina do mundo e das culturas» que prestou uma «autêntica atenção aos mais pobres».

Na missa a que presidiu esta segunda-feira à noite, também no santuário da Cova da Iria (Foto), D. José Ornelas apelou aos católicos para porem «em prática» a Palavra de Deus, nomeadamente em relação aos migrantes.
«Não olhem com indiferença para os milhões de refugiados e miseráveis, que ficam à margem das estradas da nossa sociedade. Animados pela Palavra e pelo Espírito de Deus, sejam portadores de vida, de misericórdia para as vossas famílias e comunidades», apontou.
Numa celebração evocadora de acontecimentos ocorridos há quase cem anos, o prelado vincou que a Igreja deve estar aberta à novidade: «Abram-se à força renovadora do Espírito e deixem-se guiar por Ele, que é mestre para criar nova vida e nova esperança».
«Não vivam apenas com saudades do passado, como se Deus fosse uma peça dos vossos museus», disse D. José Ornelas, que exortou os fiéis a não terem «medo do mundo que muda tão radical e rapidamente» nem a ficarem «simplesmente a ver passar procissões, mas a tomar ativamente parte nelas».
Para o bispo de Setúbal, que recebeu a ordenação episcopal a 26 de outubro de 2015, «Deus e o seu Espírito estão constantemente a recriar a sua Igreja para que ela seja, não apenas capaz de acompanhar, mas de ser promotora de novidade e de vida em cada época da história».
“Que nesta peregrinação, Maria, nossa Mãe e Mãe da Igreja, nos ajude a conjugar na vida, sobretudo nas nossas relações familiares e nas nossas comunidades cristãs,
- o verbo do amor,
- da misericórdia,
- do vinho novo que dá vida, alegria e esperança”, concluiu.
De acordo com o testemunho das três crianças conhecidas como pastorinhos de Fátima (Lúcia e beatos Francisco e Jacinta), ocorreram seis aparições da Virgem Maria na Cova da Iria e imediações, uma a cada mês, entre maio e outubro de 1917.

