
Andrea Grillo
Tradução: Orlando Almeida
“O que a Instrução Universae Ecclesiae previa em 2011, deve ser profundamente revisto, corrigido e alterado. … É preciso tratar, sem demora, de repor em equilíbrio a experiência litúrgica católica” proposta pelo Vaticano II.
Esta é a opinião do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.
Há cerca de 9 anos, em julho de 2007, as disposições que o Motu Proprio “Summorum Pontificum” (= SP) introduzia na experiência litúrgica eclesial necessitavam de uma verificação cuidadosa, como o próprio documento indicava claramente. Podemos resumir os “passos” daqueles primeiros anos desta forma:
a) SP orientava a “liberação” (condicionada) do rito pré-conciliar para a reaproximação do mundo da dissidência lefebvriana, subordinando a forma extraordinária a condições precisas;
b) Também condicionava a eficácia da MP a uma verificação após três anos;
c) A verificação foi realizada em 2010, de uma forma muito vaga e precária, segundo um estilo muito diferente do inaugurado por Francisco. Muitos bispos responderam à Comissão ‘Ecclesia Dei’ com a preocupação de não “desmentir” as intenções de Bento XVI. Compraziam ao então papa para conservar a comunhão, mas não exprimiam o real estado da liturgia diocesana;
d) A Instrução “Universae Ecclesiae” (= UE), no ano seguinte, pretendia ampliar as competências de SP, transformando-a quase num instrumento pastoral ‘ordinário’.

Agora, depois dos esclarecimentos da Nota da Sala de Imprensa do dia 11 de julho, configura-se uma condição completamente nova. O que a Instrução UE previa em 2011 deve ser profundamente revisto, corrigido e alterado. O papel central que a instrução pretendia dar ao “rito extraordinário” voltou a referir-se à periferia. É preciso tratar sem demora de repor em equilíbrio a experiência litúrgica católica.
Diante desta nova situação, seriam oportunas algumas decisões, que eu poderia apresentar deste modo:
– uma nova verificação, franca e sincera, como um lugar de parresia eclesial, em que cada Bispo possa declarar livremente qual foi o impacto da MP na sua diocese; descobriríamos muitas verdades que até agora foram censuradas pela comunicação curial; devemos aplicar à liturgia aquela sinceridade que o Papa Francisco pediu por ocasião do Sínodo: que os bispos realmente digam o que vivem, e não o que eles acham que pode agradar aos superiores. Isto é o que exige a comunhão: dizer a verdade.
– deveria-se evitar que coubesse à Comissão ‘Ecclesia Dei’ a análise destas avaliações [dos bispos]: em muitos casos, de fato, este órgão mostrou não ser realmente isento ‘super partes’, mas orientar todas as suas atividades para uma progressiva “expansão” (às vezes fictícia, até mesmo com a alteração dos critérios de avaliação) da experiência de “rito extraordinário”.
Na Instrução UE encontramos exemplos preocupantes destes critérios “autorreferenciais” de julgamento, que isolam a instituição da realidade fatual.
– Deve retornar aos bispos diocesanos a plenitude da autoridade na liturgia, superando o regime excepcional introduzido por SP, e que poderia ser justificado – possivelmente – só na perspectiva de uma “paz com os lefebvrianos”, coisa que hoje se mostra definitivamente impossível.
Faltando este pressuposto, não tem mais sentido que o poder dos bispos in re liturgica seja tirado deles em favor de uma Comissão que não pode levar em conta as especificidades e necessidades de cada uma das dioceses.
Este atual desenvolvimento – de verificação necessária e de nova decisão – torna-se necessário em razão de uma renovada instância de “descentralização”, que contrasta de maneira muito forte com a exautoração dos Bispos realizada primeiro com SP e depois com UE.
Ela também honraria a exigência de uma igreja não autorreferencial, que muitas vezes procurou – e infelizmente também encontrou – exatamente no rito pré-conciliar aquela “tenda” sob a qual pretendia ficar para sempre, fechando-se sempre mais não só ao mundo e à história, mas ao próprio Evangelho.

Andrea Grillo
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