BERNARDELLI GIORGIO – 23/07/2016 – Milão
O islamólogo da Universidade Católica mostra a outra face do movimento de Fetullah Gülen, (foto) hoje no olho do furacão da Turquia. Um mundo feito de iniciativas de diálogo, mas também de gestos não banais de tolerância e solidariedade
Na Turquia estão no centro dos expurgos, depois que o presidente Erdogan os indicou como os principais inspiradores da tentativa de golpe da semana passada.
São considerados como uma espécie de Estado paralelo, que cresceu nos últimos anos no País. Mas há pessoas que nestas anos conheceram uma face totalmente diferente dos seguidores de Fethullah Gülen. É o caso de Paolo Branca –islamólogo, professor da Universidade Católica e responsável pela seção das relações com o Islã na arquidiocese de Milão – que há alguns anos colabora na Itália com as associações ligadas à galáxia gulenista.
E que não aceita ver um movimento tão amplo e complexo identificado apenas com os jogos de poder que acontecem agora em Ancara.
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Professor Branca, como conheceu o movimento de Fetullah Gülen?
“Devo admitir que o nome de Fethullah Gülen me era quase desconhecido até poucos anos atrás. Conhecia-o apenas como um continuador da obra do grande místico turco contemporâneo Said Nursi. Mas sendo um arabista eu já tinha muito que fazer acompanhando potenciais reformadores e pretensiosos restauradores de um universo complexo e contraditório como é Islão arabofalante.
Foi a experiência, totalmente casual, do encontro com muitos ativistas do movimento Hizmet (que em turco significa Serviço) que operam na Itália sob várias siglas (Alba, Milad, Tevere …) que me fez conhecer uma realidade que me impressionou profundamente”.
Isto é?
“Mulheres e homens, geralmente profissionais ou estudantes. Na Itália, eles constituem apenas uma pequena parte da reduzida comunidade turca, pouco mais de 15 mil almas. Embora sendo profundamente crentes e praticantes não tentaram vender-me a sua mercadoria. Pelo contrário, mostraram interesse e respeito pela minha trajetória, modesta mas não ocasional, de conhecimento da sua tradição religiosa. Desde logo colocaram as nossas relações numa base de perfeita igualdade. Nunca nem sequer uma vez – nem aqui nem na Turquia, onde estive várias vezes nas suas instituições – me senti minimamente tratado com condescendência hipócrita”.
Que tipo de atividades desenvolveu junto com eles?
“Em Istambul nós nos encontrávamos em jantares na casa de amigos, junto a famílias onde eu poderia me comunicar diretamente em inglês com os mais jovens, ao passo que com os adultos alguém fazia o papel de intérprete. Numa noite de sexta-feira santa pediram- me que lhes explicasse o que significava para mim, um cristão, aquele dia particular. Enquanto eu narrava a paixão e morte de Jesus, o chefe de família pegou numa estante uma Bíblia em turco e disse: “O que você está dizendo está escrito aqui”.
Em nenhum país árabe me tinha acontecido uma coisa do gênero nos trinta anos anteriores. Exatamente naqueles dias tinha ocorrido o assassinato do famoso jornalista armênio Hrant Dink. Um dos convidados disse-me, com sincero pesar: ‘Eu gostaria de dizer a um armênio quanto estou triste … mas descobri que não tenho nenhum amigo armênio’ “.

Fala-se muito nestes dias também de suas escolas. Há quem as apresente como uma rede paralela de doutrinação …
“As cerca de 2000 escolas promovidas pelo movimento em todas as partes do mundo baseiam-se em critérios de excelência, sem a mínima intenção de ser ‘madraças’. ‘Já são demais: se nos próximos 200 anos não se construírem mais, estas serão suficientes – disseram. O Corão estuda-se na mesquita ou em casa, nas escolas ensinamos ética’. Eu não conseguia acreditar nos meus ouvidos. De resto, as muitas iniciativas promovidas e generosamente sustentadas por eles na Itália sempre se inspiraram na abertura para os outros, de diferentes religiões ou sem nenhuma religião.
Um belo livro publicado pela editora Jaca Book sobre João XXIII, amigo dos turcos, reúne a extraordinária experiência humana e espiritual do Papa do Concílio às margens do Bósforo, iniciativa editorial mais uma vez sustentada por estas realidades que agora na sua própria pátria são acusadas de maldades de todo o tipo».
Erdogan acusa-os de serem os promotores de uma tentativa de golpe na Turquia.
“Tenho bastantes anos nos ombros para poder imaginar que algum dos componentes de um grupo com tanta energia possa ter ultrapassado os limites entrando em terreno minado. Não sonho nem de longe em apresentá-los como anjos caídos do céu. Mas sei que o governo de Berlim confiou às suas escolas o ensino do alemão para os refugiados sírios. Sei que antes de viajar para Istambul alguns deles visitaram junto comigo a capela do aeroporto dizendo-me ‘se posso, prefiro rezar numa casa de Deus’.
Sei que quando visitei meu sogro num hospital para doentes terminais, a rezar comigo à sua cabeceira em plena noite só tinha um deles ao meu lado. E quando me deparei com um grupo de refugiados (principalmente mulheres e crianças) na época em que os meios de comunicação sequer falavam desse assunto, telefonei para um deles desesperado para obter ajuda: não me perguntou quem eram, de que religião ou raça, mas apenas quantos e onde. Depois de alguns minutos chegaram 50 refeições quentes. Ninguém nunca depois me pediu detalhes ou prestação de contas”.
Qual é a atitude deles em relação a outras religiões?
“Fizemos juntos uma viagem maravilhosa pelas cidades situadas entre a Europa e a Ásia: judeus, cristãos e muçulmanos juntos, visitando mesquitas, igrejas e o Museu Judaico de Galata [em Istambul). Também participámos da missa dominical celebrada por um sacerdote congolês em italiano a poucos passos da [praça] Taksim. Nós éramos mais do que todos os fiéis locais presentes; um indefectível chá na casa do pároco serviu como despedida.
Poderia continuar, mas acho que deve ser esclarecida uma coisa: há alguns anos atrás, durante essas viagens, não me parecia notar uma diferença tão grande entre eles e o AKP [Adalet ve Kalkınma Partisi – Partido da Justiça e Desenvolvimento de Erdogan].
Ao contrário, sob certos aspectos, eu esperava que a Turquia pudesse fazer a diferença graças a um grande partido popular, não laicista mas próximo à tradição religiosa local, como aconteceu com os democratas-cristãos na Europa”.

E agora?
“Estou profundamente indignado com o que está acontecendo. Na Turquia, uma avidez de poder vem caracterizando há tempos muitas escolhas irresponsáveis e liberticidas de um líder que perdeu toda a credibilidade. E até na Itália, o centro gulenista de Modena (que como todas as outras sedes não é nem quer se tornar uma mesquita), na mesma noite do chamado golpe, sofreu um atentado incendiário presumivelmente por parte dos apoiadores do Sultão. Que eu saiba, é a primeira vez que na Itália um lugar mantido por muçulmanos é atacado não por fanáticos xenófobos locais, mas por correligionários fanáticos, debaixo de um silêncio ensurdecedor dos meios de comunicação”.
Então, quem está na tormenta agora é exatamente uma das faces daquele Islão moderado, que tanto se almeja?
“Não gosto de chamá-los moderados: são crentes convictos e praticantes, mas dão à sua fé uma orientação diferente que raramente se encontra alhures. Nesta semana observo com horror a exaltação de Erdogan e da sua repressão como uma “autêntica revolução” no lugar das “primaveras árabes”, feita pelos habituais expoentes do Islão organizado e etiquetado que naturalmente nunca gastaram uma palavra de condenação sobre as condições desumanas com que são tratados os trabalhadores estrangeiros – incluindo os muçulmanos – nas petromonarquias do Golfo.
No entanto, esses muçulmanos dos salões da TV gozam de uma visibilidade enorme em relação aos seus amigos turcos aos quais expresso a minha inútil, quase desesperada dor. Aos primeiros todas as vantagens do circo midiático-político que já não merece confiança alguma. Aos outros a obscuridade em que gosta de operar qualquer coisa que possamos chamar Espírito”.

BERNARDELLI GIORGIO