PAOLO RODARI
14 de maio de 2016
Tradução: Orlando Almeida
Foto: O Papa Francisco com a Irmã Carmela Sammut
Fala a Irmã Carmen Sammut, paladina do pedido de diaconato feminino. “O Papa deu uma sacudida na Igreja machista”
A Entrevista:
“Mas você já refletiu sobre a Última Ceia?”.
Em que sentido, irmã?
“Nas representações feitas até por grandes artistas quase nunca há mulheres. Parece-lhe possível? Uma refeição sem mulheres? No entanto, esta visão de uma comunidade eclesial sem mulheres, de uma Igreja só de homens nas posições de comando, entrou na nossa cabeça, nós a internalizamos. Acho que chegou a hora de nos livrarmos disso e darmos a devida importância à presença de mulheres na Igreja”.
A irmã Carmen Sammut, presidente da UISG (União Internacional das Superioras Gerais), recolheu junto com outras irmãs as perguntas apresentadas ontem ao papa Francisco. Pequena, olhos vivos, durante uma pausa dos trabalhos das de 800 religiosas no Hotel Ergife em Roma, ela admite: “De qualquer maneira, que paulada!”.
Como, desculpe?
“A resposta de Francisco sobre o diaconato feminino, uma bela paulada, salutar. Já é tempo de se começar a falar desta questão”.
Fala-se pouco demais desse tema?
“Ah, isso é evidente. Não só em Roma, mas no mundo inteiro, a Igreja tem eludido o problema. Mas muitas de nós somos chamadas a prestar um serviço que de fato já é um diaconato. É por isso que fizemos a pergunta ao Papa: parece-nos justo que o diaconato nos seja reconhecido porque percebemos que as pessoas a quem somos enviadas nos vêm assim. O diaconato, nesse sentido, pode dar muito fruto”.
A irmã falava da última ceia. Jesus escolheu como discípulos doze homens …
“Sim, mas olhe, ele nos Evangelhos com as mulheres Jesus fez coisas escandalosas, me seja desculpada a palavra, para aquele tempo. Deixava que se aproximassem, elas podiam tocá-lo, estar perto dele. Isso lhe parece pouco? Mas depois, infelizmente, foi a Igreja que separou homens e mulheres, uma divisão desastrosa”.
Um papa, Albino Luciani, até falou de Deus como mãe.
“Deus não pode ser pensado simplesmente como pai, como homem. Além disso, o Espírito sempre foi visto no feminino”.
Que impressão teve do Papa, é favorável ao diaconato ou não?
“Ele nos disse que, para ele, deveria haver mais mulheres nos postos de comando da Igreja. E que estes postos não devem ficar amarrados à ideia de que só podem ser ocupados por sacerdotes. Em virtude do nosso batismo podemos contribuir na tomada de decisões da própria Igreja. Seria um valor para todos”.
E sobre o diaconato?
“No entanto não fugiu da pergunta que lhe fizemos porque recebemos pedidos de várias partes do mundo para apresentá-la. Enviámos a ele antecipadamente as questões e ele aceitou responder a todas. Até mesmo a uma dedicada ao dinheiro, que tinha sido expurgado. De qualquer modo, a disponibilidade para estudar o diaconato é um passo importante. Não queremos ser padres e muito menos bispos, por favor, mas que seja reconhecido o nosso diaconato como serviço porque é útil para as pessoas”.
Porque acha que as mulheres são importantes para os processos de tomada de decisão da Igreja?
“Nós mulheres temos uma outra visão sobre os problemas. Sem o nosso ponto de vista as decisões são mutiladas, falta-lhes uma parte. Mulheres e homens precisam trabalhar juntos.”
A Igreja é demasiadamente masculina?
“Na minha opinião, nos vértices [cargos de chefia], sim”.
No Sínodo as mulheres tiveram espaço?
“Bem, muito pouco. Havia mulheres, mas poucas. Mas realmente não acho que seja apenas um problema de Roma. É um problema da Igreja em geral. Numa certa época começou-se a fazer assim e este costume tornou-se praxe”.
O Cardeal Piero Parolin disse que ‘per se’ uma mulher poderia tornar-se Secretária de Estado.
“Secretária de Estado não sei. Mas chefiar dicastérios sim, claro. Francisco tornou a dizê-lo ontem: é preciso separar as funções, os papéis na Igreja, dos ‘sacramentos’. “Portanto uma mulher pode ser colocada em qualquer função. E também disse uma outra coisa muito forte”.
Qual?
“Falou do Código de Direito Canônico. E explicou que, se alguma coisa é proibida pelo Código não significa que deva continuar proibida para sempre. O código contém leis, mas as leis podem ser mudadas”.

Paolo Rodari
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