Pedro Salinas e Paola Ugaz

Foto: Difusión. – Edição impressa de 10/04/2016
O que vem depois. A inimaginável afastamento de Luis Figari, fundador e superior geral do Sodalício durante 40 anos, é uma notícia devastadora para aqueles que o tinham por semideus. O seu caso é semelhante ao de Marcial Maciel, dos Legionários de Cristo.
Terça-feira passada, 05 de abril, foi um marco divisor na vida institucional do Sodalício. O seu atual superior geral, Alessandro Moroni, divulgou uma mensagem através do YouTube em que condenava o seu fundador. Chamou-o “culpado” e considerou-o “persona non grata” para a associação que o próprio Figari tinha iniciado em 1971, na cidade de Lima. Assim sendo, a longa história de abusos psicológicos, físicos e sexuais dentro do Sodalício perpetrados pelo seu principal líder pareceria estar chegando ao fim.
Mas nem tudo é tão simples como parece. A comunicação pública de Moroni, respaldada pelo Conselho Superior do Sodalício, que é a máxima instância de governo desta sociedade de direito pontifício, dava a conhecer três coisas.
- Em primeiro lugar, pedia desculpas às vítimas dos abusos, aos denunciantes e à família espiritual por ter demorado tanto em vir dar uma explicação.
- Em segundo lugar, notificava a segregação obrigatória e o afastamento de Luis Fernando Figari do Sodalício devido às “faltas e delitos”
- E, finalmente, antecipou uma reforma integral, com o objetivo de construir “um novo Sodalício”.
O contexto em que se dá o anúncio é sumamente particular. Foi precedido por uma briga interna na qual Figari tentou defenestrar Moroni para substituí-lo por Eduardo Regal, um dos membros do Sodalício mais próximos ao fundador. Além disso, a Comissão de Ética para a Justiça e a Reconciliação criada para identificar os abusadores e os abusados, já terminou o período de entrevistas com supostas vítimas e algozes, e o que ela teria descoberto corroboraria o que foi documentado na investigação jornalística “Metade monges, metade soldados” (Planeta, 2015).
Ao contrário do trabalho realizado pela promotoria, esta Comissão conseguiu identificar as vítimas sexuais de Luis Fernando Figari, que aparecem sob pseudônimos na referida publicação. A Comissão conseguiu falar com elas.
Paralelamente, o advogado de Figari, Juan Armando Lengua Balbi, continua a insistir que o livro mencionado é uma “novela” que “não tem consistência” e na qual não existem “vítimas comprovadas”.
Além disso, está próximo o veredicto do Vaticano, e Moroni, conhecendo o teor das conclusões da Comissão e pressentindo por onde vem a decisão de Roma, decidiu adiantar-se com a sua declaração.
Contudo, não obstante o som saudável das três medidas apregoadas, há quem veja com certo ceticismo a sua concretização e lembre que “o inferno está pavimentado de boas intenções”.
A trajetória de comunicados ambíguos e cheios de eufemismos, ou omissões desatentas e ofensivas, particularmente durante os últimos quinze anos, desde que o jornalista Jose Enrique Escardó fez a primeira denúncia em 2000, constitui uma má reputação que precede o Sodalício.
Perdão, num vídeo?
Na opinião de Rocío Figueroa, ex-superiora da Fraternidade Mariana da Reconciliação (o ramo feminino da Sodalício), vítima da instituição, e uma das pessoas que contribuíram ativamente para o esclarecimento das verdades ocultas na organização de Figari, “a declaração pública é muito importante”, no entanto salienta que a “reparação civil é fundamental”.
Por sua vez, José Enrique Escardó é mais radical.
“O que eu acho do vídeo-comunicado de Alessandro Moroni? Que, assim sozinho, não serve para nada. Para os sobreviventes, não. O perdão não se pede lendo um texto colado numa tabuleta ao lado de uma câmera e intercalado com um título pós-produzido colado no lado oposto da tela. O perdão pede-se olhando nos olhos, assumindo a culpa e a vergonha face a face”.
Neste último ponto Rocio Figueroa concorda:
“Parece-me importante que se peça perdão pessoalmente às vítimas e sobreviventes. Sandro Moroni enviou uma carta a todas as ‘fraternas’ (1) pedindo-lhes desculpas pelo que me fizeram, pelos abusos que sofri de Doig e pela maldade de Figari, pela difamação, pelas calúnias e estigmatização. No entanto, Sandro nunca me pediu a mim desculpa. Quero perdoá-los como instituição, mas eu não posso perdoar através de um vídeo, mas sim olhando-os nos olhos, sem estratégias ou discursos fingidos”.
Escardó acrescenta:
“A ação que esperamos, nós os sobreviventes do Sodalício, é reparação personalizada. Não queremos que nos enviem para a caixa postal um envelope com mil ‘soles’ [moedas peruanas] ou com um milhão de dólares para cada um e nos façam assinar um recibo. Queremos que nos chamem. Queremos que nos olhem nos olhos. Queremos que nos peçam perdão diante da comunidade. Todo o Conselho Superior, não um representante”.
Figueroa é taxativa no que se refere ao ressarcimento das vítimas.
“A reparação civil é fundamental. Conheço muitas das vítimas, algumas nem sequer foram capazes de refazer as suas vidas pelos traumas sofridos (depressão, internações, estigmatização, impossibilidade de trabalhar). A reparação civil deve procurar reparar de alguma forma o desastre que muitos ‘sodálites’ (2) cometeram em nome de Deus. Têm os meios para fazê-lo e, acima de tudo, o dever moral de fazê-lo”.
Lista de abusadores
Assim como a condenação moral e a reparação civil parecem fundamentais para a ex-superiora das ‘fraternas’, assim também o é “a separação dos outros abusadores e encobridores”. Na mesma linha de pensamento, o ex-‘sodálite’ Escardó também pensa que a história não termina com o fundador, mas começa com ele. “Figari não é o único que deve ser afastado. Há uma longa lista de nomes de ‘sodálites’ abusadores e predadores” – diz ele.
E neste tópico a lista parece extensa. O padre Jaime Baertl, outro dos ‘sodálites’ mais emblemáticos da instituição, como o foram Figari e Germán Doig, foi apontado pelo ex-‘sodálite’ Martin Scheuch por abusos de poder com conotações sexuais, pois numa sessão de orientação espiritual teria ordenado a ele que ficasse totalmente nu e fornicasse com uma cadeira. Da mesma forma, teria acobertado em 80 outro hierarca ‘sodálite’, que teria abusado sexualmente de pelo menos um de seus subordinados.
Neste inventário de algozes e cúmplices e abusadores (físicos, psicológicos e sexuais) e encobridores, estariam os ‘sodálites’: José Antonio Eguren, atualmente arcebispo de Piura e Tumbes, Alfredo Draxl (ex-diretor do colégio San Pedro), Alfredo Garland, Óscar Tokumura, Erwin Scheuch, Humberto del Castillo, os sacerdotes Jürgen Daum e Daniel Cardó, e Enrique Elias Dupuy (procurador do Sodalício em Roma), entre outros mais.
Um ‘sodálite’ em atividade, que prefere manter seu nome em segredo, estima que nesse repertório de potenciais expulsos deveria estar a maioria dos membros do Conselho Superior, assim como superiores e formadores de comunidades e superiores regionais. Incluindo o próprio Moroni, que também tem várias denúncias confirmadas por violência física e maus tratos psicológicos.
Uma reforma integral
De acordo com vários ‘sodálites’ e ex-‘sodálites’ consultados, não haverá reforma integral sem uma renovação drástica de autoridades, “não contaminadas”. Algo extremamente difícil, com certeza, uma vez que o grosso dos ‘sodálites’ veteranos recebeu de uma maneira ou de outra a influência do fundador ou a adotaram indiretamente através das orientações da organização que foi criada à imagem e semelhança de Luis Figari.
“Se querem construir um novo Sodalício devem fazê-lo sobre solo plano e limpo e não sobre os restos pútridos de um cemitério fedorento que escondem debaixo do porão midiático. Só assim poderão escrever uma nova história. Isso é o que eu espero como sobrevivente do Sodalício após este anúncio que, se não se materializar em ações, acabará sendo mais uma estação na ‘via crucis’ de abusos e mais uma conta no rosário de mentiras com que continuam a escarnecer de nós que merecemos mais do que 4:05 de YouTube ” – argumenta Escardó.
O ex-procurador anticorrupção Ronald Gamarra observa, na sua coluna no semanário “Hildebrandt en sus trece”:
“Se é realmente uma promessa sincera, deveria tratar-se de uma limpeza completa dos seus esgotos, de uma desinfecção geral entre seus quadros dirigentes. A razão é muito simples: Figari não poderia ter cometido tantos abusos e manobrar de forma tão eficiente durante décadas contra as denúncias sem contar com a cumplicidade, a tolerância e até mesmo a co-autoria de muitos dos seus colegas de primeiro nível. Figari não é apenas o fundador do Sodalício, foi também seu superior durante quarenta anos, quatro décadas, quase toda a trajetória da organização. Impossível que os seus dirigentes ‘não soubessem de nada’ “.
Vem o Comissário Pontifício?
Fontes da família espiritual indicam que o mais provável é que enviem de Roma um Comissário Pontifício. O seu papel seria o de intervir no Sodalício. O Comissário Pontifício teria entre suas atribuições as de tomar decisões, exercer a autoridade, dirimir, reformar, resolver e dispor sobre o que considerar conveniente no campo administrativo e de ordem interna. Teria até o poder de expulsar membros ativos do Sodalício. Estima-se que o anúncio de sua chegada poderia acontecer a partir de 15 de abril.
As outras duas medidas corretivas que a Santa Sé poderia implementar são a exclaustração (afastar um membro de uma instituição religiosa por três anos renováveis por causa de falta grave, mas não se trata de expulsão) ou a dissolução [do Sodalício] ( algo sugerido por alguns, mas é muito improvável que isso aconteça).
O caso do padre mexicano Marcial Maciel
O padre Marcial Maciel (1920-2008) foi acusado de pederastia, abusos sexuais, dependência de drogas, de ter vários filhos com pelo menos duas mulheres, fraude, extorsão, corrupção, e várias outras coisas. Ele fundou a Legião de Cristo em 1941 e o movimento laical ‘Regnum Christi’.
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João Paulo II, insistentemente alertado, nunca quis investigar Maciel
Em maio de 2006, após muitos anos de denúncias nos meios de comunicação e outras formalizadas perante os organismos eclesiásticos (João Paulo II nunca quis investigá-lo), o Papa Bento XVI ordenou a Maciel que se abstivesse de exercer o seu ministério publicamente para levar “uma vida de oração e de penitência “. A investigação foi encerrada pelo próprio Bento XVI apelando para a “idade avançada e a saúde quebrantada” do acusado.
Apesar diso, Maciel manteve o seu desenfreado estilo de vida, mesmo depois que o Papa lhe havia ordenado fazer ‘penitência’.
O ex-legionário Pablo Perez declarou ao jornal El País (10/2/2016) que “Maciel morreu nos braços de sua amante e da sua filha Norma, que vive em Madrid e tem propriedades milionárias em várias cidades da Espanha”.
Maciel foi o único “sancionado” da Legião embora fosse evidente que não agia sozinho. Além das alegações que acusavam Maciel como predador sexual, a sua organização operava em Roma e outros locais através de tráfico de influência e desvio de dinheiro.
Entre 2009 e 2010, a Santa Sé designou visitadores apostólicos para informarem sobre a instituição.
O Vaticano sugeriu uma profunda revisão completa da organização e a necessidade de redefinir o seu carisma. Finalmente, eles foram autorizados a seguir adiante apesar dos escândalos de todos os tipos.
Os Legionários de Cristo são uma das mais poderosas organizações religiosas do mundo católico. O seu capital é estimado em mais de US$ 43 000 600 milhões.
Em 2016, o Papa Francisco concedeu indulgência plenária à associação. O seu superior geral atual é o padre mexicano Eduardo Robles Gil (1952).
Notas:
“Fraternas” – nome pelo qual são conhecidas, e se designam a si mesmas, as mulheres integrantes da Fraternidade Mariana da Reconciliação.
“Sodálites” – sacerdotes e leigos consagrados, membros do Sodalício de Vida Cristã (em latim Sodalitium Christianae Vitae), SCV.

Pedro Salinas e Paola Ugaz
FONTE: http://larepublica.pe/impresa/en-portada/758885-la-caida-del-maciel-peruano
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