Um complô para desacreditar Bento XVI, a Santa Sé e a Igreja.
Uma “manobra desestabilizadora, perigosa e covarde” tramada “não por uma ou duas pessoas quaisquer”, mas sim por “um verdadeiro bando de corvos sedentos de dinheiro e poder”, pilotado por uma “cabine de controle oculta”, aninhada no Vaticano e liderada por figuras às quais, por cargo eclesiástico e autoridade institucional, alguns personagens obscuros jamais poderiam dizer não, como o ajudante de quarto do papa, Paolo Gabriele, ou o técnico de informática da Secretaria de Estado Claudio Sciarpelletti.
Ou seja, as duas únicas pessoas que serão processadas pelo roubo dos documentos papais, mas que – segundo se especula nos palácios pontifícios – logo poderiam ser acompanhados por outros personagens envolvidos no Vatileaks vaticano.
A reportagem é de Orazio La Rocca, publicada no jornal La Repubblica, 15-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O Vaticano, no dia seguinte ao indiciamento do mordomo do papa e, surpreendentemente, de um técnico que trabalha em um dos escritórios mais reservados da Cúria. É um dia “cheio de tristeza e de amargura”, confidenciam – com a promessa de anonimato – bispos, cardeais, prelados em serviço nos dicastérios, mas também leigos comprometidos com os trabalhos mais humildes nos mercados, nos museus, na Fábrica de São Pedro.
Todo o pequeno mundo do outro lado do Tibre, na manhã dessa terça-feira, 14, acordou sentindo – admite um monsenhor há anos responsável por uma seção da Secretaria de Estado – “uma sensação de náusea e de raiva pelo que está emergindo”.
Foi chocante descobrir, por exemplo, que, na casa de Paolo Gabriele, foi encontrado dinheiro – um cheque de 100 mil euros nominal ao Santo Padre –, fruto das ofertas de benfeitores anônimos. É esse o fim que têm as ajudas que chegam ao papa para os mais necessitados?, pergunta-se, com desconforto e amargura, um monsenhor chefe de escritório de um pontifício conselho, que teme que, “além desse cheque talvez um rio de dinheiro tenha corrido para a compra e venda dos documentos roubados, dinheiro sobre o qual será preciso esclarecer plenamente”.
Daí a certeza de que “por força deverão surgir outros nomes, outras situações, outras amargas verdades da investigação em curso”, destaca o mesmo monsenhor que não hesita em gritar que, “ao redor do papa, foi tramado um complô que ainda deve ser completamente desvendado”.
“Eu não sei se se pode falar de um complô no verdadeiro sentido da palavra, mas certamente, em torno do Santo Padre, houve manobras pouco claras, que criam confusão e desilusão”, comenta um arcebispo muito próximo do Papa Ratzinger, Gianfranco Girotti, regente da Penitenciária Apostólica, o dicastério vaticano que supervisiona os grandes pecados cometidos contra a Fé, a Igreja e o Papa.
Segundo Girotti, “por enquanto, é preciso que nos detenhamos aos atos dos quais surge que há dois imputados enviados a julgamento. Nada impede, porém, que se suponha que nem tudo foi esclarecido, que muitos outros aspectos desse caso devem ser explicitados. Seria importante saber se ele realmente fez tudo sozinho ou se Gabriele foi inspirado por alguém.
Com relação ao resto, é preciso que a justiça faça o seu curso, embora nenhuma sentença irá apagar a amargura e a desilusão que essa história traz consigo”.
Fonte: www.ihu.unisinos.br
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