Cristina Uguccioni, 03/05/2016
Tradução: Orlando Almeida
Adwa (Etiópia). A escola da missão salsesiana di Kidane Mehret (foto retirada do site www.amicidiadwa.org)
Histórias de convivência entre crentes em Cristo e muçulmanos. Viagem à região mais pobre da Etiópia; em Kidane Mehret, a missão salesiana fundada pela freira Laura Girotto, de Turim: “Com educação, trabalho e boas relações construímos o futuro”
Depois de anos de guerra e de fome, aqui, cristãos e muçulmanos, compartilham em primeiro lugar a pobreza, e até muitas vezes a miséria mais desesperadora.
Estamos na Etiópia, em Adwa, uma pequena cidade situada a 2.000 metros da altitude, situada no Tigrai, a região mais pobre do país, na fronteira com a Eritreia. Numa população de 30.000 os muçulmanos representam 47%; os cristãos, que são a maioria, são principalmente ortodoxos e protestantes. Os católicos são cerca de 2%.
A segunda coisa que cristãos e muçulmanos têm em comum é a missão salesiana de Kidane Mehret, que é frequentada todos os dias por um grande número de crianças [cristãs e muçulmanas]. A missão, fundada há 24 anos, constitui primeira presença católica na região depois de 1620, quando todos os jesuítas presentes em Adwa foram expulsos.
Foram os anciãos que pediram aos Salesianos para abrirem uma escola na cidade, depois de verem a dedicação da Congregação no vizinho vale de Makallè.
Estudantes, órfãos e mães
O dia a dia da missão, um complexo de grandes dimensões, conta a história de vidas protegidas, cuidadas, resgatadas da pobreza, da humilhação, da degradação; vidas que dia após dia constroem com tenacidade o seu futuro numa forte rede de laços de fraternidade e dedicação, os laços que sempre mantiveram as pessoas juntas.
Há alunos, mais de 1.500, felizes por poderem sentar-se nos bancos da escola (do jardim de infância ao ensino médio) e crianças abandonadas que ali encontram abrigo e carinho.
Há adultos que frequentam cursos de informática e se tornam gestores nas empresas e nos órgãos públicos e moças e rapazes que seguem cursos profissionais onde aprendem uma profissão para poderem sustentar suas famílias.
Há mães felizes por aprenderem noções básicas para cuidarem melhor de seus filhos, e viúvas, mães solteiras, órfãos de guerra e vítimas de AIDS que recobram a esperança recebendo assistência, inclusive médica, sem a qual não poderiam sobreviver.
Crianças muçulmanas na encenação de Natal
“A convivência entre todos nós, cristãos e muçulmanos, é muito boa” – diz a fundadora da missão, a Irmã Laura Girotto, 72anos, de Turim, que trabalha junto com outras seis irmãs.
“Trago um pequeno exemplo, que considero paradigmático: todos os anos, por ocasião do Natal, encenamos com as crianças mais pequenas a representação da Natividade: pois bem, ai de nós se não escolhermos os pequenos muçulmanos como pastores ou anjos! Se os excluíssemos, seria um drama. Os pais deles dão muito valor a isso e quando vêm assistir ao espetáculo ficam sempre muito comovidos.O governo decidiu sabiamente proclamar as comemorações cristãs e islâmicas como festas nacionais e nós festejamos juntos “.
O trabalho aprendido no respeito recíproco
Algumas mulheres muçulmanas engajadas nas atividades de costura e nos trabalhos agrícolas da missão descrevem a sua vida atual com poucas palavras e profunda satisfação.
Diz Kerat Muhamed Ftwi, casada e mãe de três filhos: “Aqui não se fazem distinções com base na fé, cada pessoa recebe a atenção e a ajuda de que necessita. Percebo que, trabalhando juntas, cristãs e muçulmanas, aprende-se mais, criam-se bons laços e realizam-se projetos importantes”.
Faz-lhe eco Nuria Muhammed Abudurahim, casada, com dois filhos: “O que eu mais aprecio é ter finalmente a oportunidade de aprender uma profissão e poder fazê-lo num ambiente acolhedor em que há grandíssimo respeito entre os crentes de ambas as fés”.
E, fazendo-se porta-voz de todas, a jovem Nina Mohamed Amanentu afirma: “A instituição de ensino tem um papel fundamental no combate à pobreza que aflige a nossa população. Consideramos a educação o primeiro e indispensável passo para uma vida mais segura e mais digna”.
A alegria de aprender
Em Adwa há uma escola do Estado, mas muitos pais muçulmanos decidem levar seus filhos para a escola da missão que – considerada um centro de excelência – todos os anos fica completamente lotada. As turmas são em média de 50 a 60 alunos:
“Talvez alguém vá pensar que turmas tão numerosas sejam realmente incontroláveis” – observa a irmã Laura. “Na verdade, não é assim: as crianças e os jovens estão com fome de saber, não querem separar-se nunca dos livros; no intervalo somos obrigadas a mandá-los para fora para o recreio e fechamos à chave as salas de aula, porque senão não sairiam nem mesmo para beber um copo de água”.
Ao longo dos anos, a irmã Laura tornou-se também a mãe de 64 crianças abandonadas pelas famílias, tendo recebido para isso a tutela legal por parte dos serviços sociais: muitas são agora adultas e já a tornaram avó.
O papel das mulheres
A relação entre as freiras e as autoridades religiosas islâmicas é muito boa; nunca houve quaisquer problemas ou atritos de qualquer natureza, mesmo nos primeiros dias, diz a irmã Laura.
“Na cidade os verdadeiros problemas surgiram por causa de sermos mulheres. A minha chegada foi um tsunami: era preciso construir a missão e eu dava ordens aos operários, discutia os projetos com o mestre de obras, dispensava quando era necessário fazê-lo: foi um choque para as pessoas de Adwa, onde as mulheres – independentemente da fé professada – contam muito pouco, são consideradas apenas como reprodutoras e conseguem alguma importância social exclusivamente como mães. Eu digo sempre que, se um dia formos encontradas mortas deverão procurar os culpados entre os homens. A situação, no entanto, está mudando: as meninas, graças à educação e ao trabalho, adquirem consciência do seu valor”.
Os projetos futuros
Atualmente está sendo concluída a construção de um grande hospital, uma meta a que as irmãs dão particular importância. Pensando no futuro – conclui a irmã Laura – “o nosso objetivo é confiar a missão a pessoas de Adwa, irmãs e leigos, de cuja formação estamos cuidando atualmente. Nós trabalhamos assim, ‘iniciamos processos’, sentimo-nos ‘mães fecundas, não solteironas’, para usar duas expressões do Papa Francisco”.

Cristina Uguccioni