Índios Munduruku protestam contra hidrelétricas no Tapajós

UOL, em SP 21/03/2016 –Foto: Fábio Nascimento/Greenpeace

Munduruku protestam contra hidrelétricas no Rio Tapajós. Para marcar o Dia Internacional das Florestas (21 de março), lideranças Munduruku foram até um trecho do rio Tapajós considerado sagrado pelo povo para passar um recado para o mundo: “Barre a barragem. Mantenha o Rio Tapajós vivo”. Segurando faixas em diversas línguas, eles protestaram contra a construção de barragens no rio que sustenta sua cultura e modo de vida. 
 Ao todo, há 43 hidrelétricas previstas para a bacia do Tapajós, sendo cinco já planejadas. A maior delas é a de São Luiz do Tapajós, próxima a Itaituba, no Pará, que, se construída, vai afetar a vida de povos indígenas e ribeirinhos, além de destruir uma área de intensa biodiversidade na Amazônia Fábio Nascimento/Greenpeace

Mundurku no rio Tapajós, na região da Terra Indígena Sawré Muybu, do povo Munduruku, no Pará. O governo brasileiro planeja construir 43 grandes hidrelétricas na bacia do Tapajós Valdemir Cunha/Greenpeace

Mais de cem Munduruku foram até o rio Tapajós, considerado sagrado pelo povo, para passar um recado para o mundo: “Barre a barragem. Mantenha o rio Tapajós vivo”. Segurando faixas em diversas línguas, eles protestaram contra a construção de barragens no rio que sustenta sua cultura e modo de vida, além de uma rica biodiversidade.

Ao todo, há 43 hidrelétricas previstas para a bacia do Tapajós, sendo a maior delas a de São Luiz do Tapajós, próxima a Itaituba, no Pará. Com 7,6 quilômetros de cumprimento e mais de 53 metros de altura (o equivalente a um prédio de 18 andares), a barragem planejada terá um reservatório de 729 km² (extensão maior do que a cidade de Salvador). Se construída, São Luiz do Tapajós vai destruir 14 lagoas sazonais e perenes, mais de 7 mil hectares de pedrais (áreas com pedras nos rios importantes por abrigar diversas espécies de peixes, morcegos e aves), 320 ilhas e 17 corredeiras, alerta a ONG Greenpeace.

A usina deve inundar ainda parte dos cerca de 178 mil hectares da Terra Indígena Sawré Muybu, do povo Munduruku, que teve seu processo de demarcação paralisado por conta dos interesses do governo na área para a hidrelétrica.

Arte: Greenpeace

“Se essa usina for construída, os impactos ambientais serão muito grandes e vão além da inundação da floresta. Os peixes que hoje vivem no rio morrerão, várias plantas não vão resistir e animais não terão o que comer. Uma coisa está ligada à outra. Quando um rio morre, muita coisa morre com ele. Se o rio Tapajós morrer, nosso povo ficará ameaçado”, diz Adauto Akay Munduruku, chefe dos guerreiros do povo.Especialistas consideram a biodiversidade da região do Tapajós excepcional até mesmo para padrões amazônicos. Cerca de 376 km² de floresta vão desaparecer sob as águas.

Espécies como o boto-cor-de-rosa, a onça-pintada, o tatu-canastra, que precisam circular livremente para procriar e se alimentar, sofrerão diretamente pelo barramento do rio, diz a ONG. Sem contar as espécies que só existem na região e cuja existência ficará seriamente ameaçada.

“Ao insistir na construção de grandes hidrelétricas na Amazônia, o Estado brasileiro atropela direitos e ignora os riscos que o barramento dos principais rios da bacia amazônica pode causar ao equilíbrio ambiental de todo o bioma, ameaçando uma biodiversidade inestimável e vasta riqueza cultural dos povos indígenas da região. O reflexo disso será sentido por todos os brasileiros”, afirma Danicley de Aguiar, da Campanha Amazônia do Greenpeace.

Segundo análise crítica do Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) realizada a pedido do Greenpeace por pesquisadores referências em suas áreas de conhecimento, os problemas identificados no EIA são considerados graves e inviabilizam a avaliação dos efeitos da construção de São Luiz do Tapajós.

 índios Munduruku usam pedras para formar a frase Tapajós Livre nas areias de uma praia às margens do rio de mesmo nome (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)

Índios Munduruku usam pedras para formar a frase Tapajós Livre nas areias de uma praia às margens do rio de mesmo nome (Foto: Bruno Kelly/Greenpeace) . Foto Globo

Os cientistas recomendam que o EIA/RIMA seja rejeitado pelo órgão licenciador, pois não cumpre com o papel de auxiliar a tomada de decisão e informar a sociedade sobre os reais impactos de uma obra com a dimensão de São Luiz do Tapajós do ponto de vista técnico, econômico, social e ambiental. Atualmente o EIA/RIMA está em fase de ajustes, após o Ibama ter realizado uma análise de mérito e apresentado pelo menos 180 pontos a serem complementados.

“O correto é que o licenciamento da obra seja negado pelo Ibama. Do contrário, o governo vai permitir a destruição de uma das mais importantes áreas para a conservação da Amazônia. Não é aceitável que se destrua a Amazônia para gerar energia a qualquer custo. As energias verdadeiramente limpas, como a solar e a eólica, já são uma realidade para suprir as necessidades de abastecimento do país sem condenar as florestas e suas populações”, completa ele.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2016/03/21/indios-munduruku-protestam-contra-hidreletricas-no-tapajos.htm

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Comentário de um perito:

 Durante mais de 40 anos (dos quais 12 em tempo integral, após minha aposentadoria na UFG) participei, como consultor ambiental, de equipes multidisciplinares responsáveis por estudos de avaliação ambiental (EIA, RIMA, etc). Um desse estudos (talvez o mais abrangente em termos de área e conteúdo) foi o Estudo Ambiental da Bacia do rio Teles Pires, encomendado pela Eletronorte.

Nas conclusões do Relatório Final desse estudo, a equipe multidisciplinar, desaconselhava enfaticamente a construção da Usina do Salto de Sete Quedas. Um dos motivos principais era o de que ela afetaria profundamente o modo de vida (e até própria sobrevivência) dos ribeirinhos e das populações indígenas, entre as quais a dos Munduruku, a tribo mais numerosa, mais organizada e mais ativa na defesa do seu território tradicional.

Mas a política bisonha dos governos do Brasil, indiferente ou desatenta às mudanças climáticas (diminuição das chuvas e das vazões fluviais…)  e aos imperativos sociais (uso prioritário da água para abastecimento humano e irrigação…) tem insistido numa matriz energética  que privilegia a exploração da energia hidráulica, deixando em segundo plano a energia solar e eólica que, como mostram os exemplos de vários outros países, são mais sustentáveis e ecologicamente corretas (cuidar da nossa casa comum, como enfatiza a ‘Laudato Sì’, significa cuidar da ‘natureza’ mas também do próprio homem).

Por contrariar essa política, o nosso estudo (assim como vários outros) foi desprezado e a barragem de Sete Quedas foi construída e, ao que me consta, já está em operação (parcial).

Prof. Orlando F R Almeida – UFG

 

NR.:

EIA = Estudo de Impacto Ambiental

RIMA = O RIMA é um relatório conclusivo que traduz os termos técnicos para esclarecimento, analisando o Impacto Ambiental.

 

Uma resposta

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