O Papa Francisco compreendeu que era preciso pôr a Igreja em ação

Frei Bento Domingues O.P. – 20/03/2016
“Diz-se que o Papa alterou o ritual da 5.ª feira Santa: as mulheres já podem ser incluídas na cerimônia do lava-pés. É uma forma miserável de anestesiar e reduzir o sentido da intervenção do Papa. A alteração que o seu gesto visa provocar não é de tipo ritual, mas de ação transformadora. Pertence ao seu programa de ver o mundo a partir dos excluídos. Levar o centro às periferias.”
A chamada UE já não sabe para que nasceu. A promovida divisão entre a Europa rica e a Europa pobre – divisão reproduzida também dentro de cada país – fabricou a burocracia que esvaziou o seu desígnio primeiro. Esquecida da responsabilidade solidária, parece que nenhuma refundação a poderá salvar. Continuaremos na dúvida se vale a pena discutir a dívida.
Por outro lado, com a recusa, ao longo do tempo, em resolver o conflito israel-palestino, sucederam-se, no Médio Oriente, loucas intervenções norte-americanas e europeias. O Ocidente, de alma vazia, confrontado com as estratégias terroristas de poder político-religioso (daesh), discute na Europa, a partilha dos refugiados. Nos Estados Unidos e no norte europeu crescem os desejos de muralhas salvadoras.
Agradeci este rápido percurso. Observei que, perante ameaças de guerra ou de catástrofes, nunca há dinheiro para as soluções razoáveis e baratas. Surgem sempre financiadores da estupidez desumanizante e nunca faltarão propostas de negócio depois do desastre. O sofrimento humano não conta e os mortos não se queixam.
2. Ao contrário do que pensa este amigo, não existem apenas celebrações vazias, onde não acontece nada, que se esgotam na encenação do seu teatro mais ou menos cuidado. Não é decisivo saber se tudo se passou, do ponto de vista histórico, como vem narrada, nos Evangelhos, a Paixão de Jesus Cristo.
Recorde-se que, no povo judeu palestino, desde os finais do séc. I a. C até ao séc. II d. C., surgiram diversos movimentos libertadores, diretamente políticos ou proféticos. Eram, por isso, variadas as figuras messiânicas: chefe político libertador, em geral de ascendência de David; um profeta proclamando a vontade de Deus e atuando com sinais específicos ou, ainda, a de sacerdote à frente da nova e definitiva comunidade teocrática, com Deus como único soberano.
Segundo as circunstâncias e no meio de tantas propostas polêmicas, é normal que os judeus que reconheceram em Jesus de Nazaré o Messias tivessem o cuidado de reconfigurar a originalidade de Jesus como Cristo, como Messias [1].
A celebração da Eucaristia estava enquadrada numa nova forma de entender e praticar a vida cristã, nas suas diferentes comunidades, como se pode ver na narrativa dos Discípulos de Emaús [2].
Não era apenas, nem sobretudo, a reprodução de uma cerimônia estereotipada. S. Paulo, que apresenta a narrativa mais completa da Ceia do Senhor [3], fez também o protesto mais acutilante contra a prática de descriminação social na celebração da Eucaristia, que ele próprio recebeu e transmitiu à comunidade de Corinto.
As comunidades joaninas celebravam, como todas as outras, a Ceia do Senhor em termos muito próximos da narrativa transmitida por S. Paulo. No entanto, no 4º Evangelho, a Ceia termina com o gesto que exprime a transformação que a Eucaristia semanal deve produzir nos seus participantes: a prontidão para o serviço [4].
Quando se diz: fazei isto em memória de Mim, com o Lava-pés afirma-se que a memória da Igreja terá de ser, no futuro, a reinvenção desta prática e não apenas uma coleção de ritos. Daí a discussão com Pedro, que não estava a gostar nada do programa incluído no gesto despropositado do Mestre. Ao referir apenas o Lava-pés dos discípulos, enuncia-se a lei geral do Cristianismo: a árvore conhece-se pelos frutos.
3. Diz-se que o Papa alterou o ritual da 5.ª feira Santa: as mulheres já podem ser incluídas na cerimônia do lava-pés. É uma forma miserável de anestesiar e reduzir o sentido da intervenção do Papa. A alteração que o seu gesto visa provocar não é de tipo ritual, mas de ação transformadora. Pertence ao seu programa de ver o mundo a partir dos excluídos. Levar o centro às periferias.
Frei Bento Domingues
Fonte: https://www.publico.pt/sociedade/noticia/a-pascoa-do-escravo-1726630
