Viagem ao berço do coltan, o coração dos telefones inteligentes

 Os entraves à certificação dos minerais ‘limpos’ deixaram muitas famílias sem renda

  Coltan 1

Bandulu (Congo), 25 FEV 2016 – 17:33 BRT

Gemma Parellada

Tradução: Orlando Almeida

Foto: Mineiros abrindo uma nova mina en Biambwe (Kivu Norte)

Antes de chegar ao Playstation, ao telefone celular ou às câmeras fotográficas, o tântalo que permite que eles funcionemem passou possivelmente por uma lata de molho de tomate. Ou por algum dos outros testes de qualidade locais que se realizam no leste da República Democrática do Congo, onde se encontram as maiores reservas mundiais de coltan — estima-se que 75% delas — um mineral do qual um dos componentes é o tântalo, o rei da era digital, um mineral com propriedades únicas onipresente em produtos eletrônicos.

No entanto, em Bandulu, no leste do Congo, onde as minas de coltan são numerosas, há um único painel solar para carregar os celulares; os poucos que lá existem não são inteligentes. É preciso uma noite inteira para carregar 25% da bateria.

Kambale enche de pedras pretas algumas latas enferrujadas com o desenho de um tomate bem vermelho: é o coltan. Se três latinhas na balança pesam um quilograma, isso indica que o coltan é da melhor qualidade; se não se atinge esse peso, não é tão bom. A agulha da balança pára no número um. Kambale sorri satisfeito.

Ele é negociante, o primeiro que compra a matéria perto da mina. É afável e está orgulhoso do seu negócio. “Nós temos três controles de qualidade: a vista, o tato e o tomate”, conta com humor. “Assim que chega à cidade, será passado pelas máquinas”. De Bandulu, o coltan começa uma longa viagem de bicicleta. Primeiro, Christian leva-o por uma trilha que corta a floresta. Três dias e duas noites ao rColtan 2elento para chegar a Mangurudjepa. Lá os carros já chegam; o coltan vai se aproximando da zona de conforto.

A exploração de coltan não é nem organizada, nem uniforme, nem pacífica. Uns 5.000 buracos no chão se enchem todos os dias, ao amanhecer, com milhares de mineiros que extraem o coltan de forma artesanal, às vezes sob o olhar dos fuzis Kalashnikov que os vigiam.

O grande depósito de coltan situa-se no coração da guerra mais mortífera do planeta. . Daí que seja considerado a estrela dos minerais de sangue. Também o são o estanho, o tungstênio e o ouro, todos presentes no interior da tecnologia “inteligente”; todos escondidos nos circuitos dos telefones celulares. Todos presentes no leste do Congo.

A febre do Coltan explodiu no final dos anos noventa, coincidindo com o boom digital, com a entrada de milícias dos países vizinhos do Congo. A escassez do mineral causou inclusive o atraso do lançamento do Playstation 2.

Na época, o coltan chegou a custar mais de 100 euros o quilograma. Em 2010, os Estados Unidos fizeram a primeira tentativa de regular o mercado. Foi aprovada uma lei (Dodd-Frank) que obriga as empresas norte-americanas a garantir que os materiais que usam para fabricar seus produtos não procedem de áreas de guerra. Isso inclui o tântalo (coltan), o estanho (cassiterita), o volfrâmio (ou tungstênio) e o ouro. No Congo já se podem ver algumas etiquetas e sacos certificados — poucos — para os três primeiros. Mas não para o ouro.

“Para nós a lei Obama [Dodd-Frank] significou um embargo de fato [à exportação]”, explica Kihoma. De boina e jaqueta, é o chefe de uma pequena mina. “A decisão foi tomada longe daqui, na capital, Kinshasa. Aqui não tínhamos milícias”. Como se podia provar que não eram minerais de sangue se não havia um mecanismo de certificação? Além das milícias, milhares de famílias vivem das minas. E a súbita paralização da atividade produziu um efeito contrário ao esperado. Alguns trabalhadores alistaram-se em grupos armados depois de ficarem sem trabalho. Desde então, já faz cinco anos, estão sendo implementados mecanismos e estruturas para certificar os minerais “limpos” de guerra. Mas o desafio é titânico.

Fonte:  ABC Australia – A população pobre troca a produção do próprio alimento pela mineração do coltan, destruindo o meio ambiente, poluindo rios e matando ou expulsando animais …

É preciso comprovar que a mina não é controlada por grupos armados e que nela não trabalham crianças ou mulheres, forçadas. O Governo tem que chegar até à mina com o material de certificação. O caminho íngreme para as minas e o conflito tornam a tarefa uma odisseia. Em cinco anos, apenas 140 das 5.000 minas conseguiram a luz verde. Enquanto na Europa ainda não se fez sequer a tentativa. Na União Europeia, existem 88.000 empresas que usam o estanho, o tântalo, o tungstênio e o ouro na produção de bens de consumo. Quer dizer, possíveis minerais de sangue. O Parlamento Europeu está debatendo se, e como, o regula. “Agora que estão despertando, pedimos aos europeus que aprovem a lei, mas também que essa lei não seja uma farsa”, exige o ativista congolês Fidel Bafilema.

“Nós, congoleses, dançamos ao ritmo do mercado internacional. Somos um ator principal, mas nossas vozes não contam”, diz Sadok, que se dedica ao negócio, preso entre minas e grupos armados. O presidente dos negociantes de Kivu Norte — a província mais rica em coltan — queixa-se, assim como mineiros e comerciantes, de que as decisões sobre o futuro do país das mil matérias-primas sempre vêm de muito longe, sem olhar nem entender as pessoas que trabalham para que o mundo 2.0 continue piscando.

Gemma Parellada

 

Gemma Parellada

Fonte: http://internacional.elpais.com/internacional/2016/02/19/actualidad/1455896992_924219.html

 

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