Apenas alguns pensamentos sobre o tema: “quando é que começa a vida humana?”
Já dentro do útero, durante a gravidez, estão sendo programadas muitos doenças e traços de personalidade. Vivências traumáticas no útero podem influenciar netos e bisnetos: a capacidade de amar pode ser “transmitida” a várias gerações. Assim acreditam muitos cientistas hoje.
O parto não é um começo, é uma transição. A criança que nasce já sofreu a influência dos sentimentos e movimentos da mãe, a influência de ruídos, de estresse e do meio ambiente. Quando é que a vida humana realmente começa, foi durante muito tempo assunto de especulações, acompanhadas de debates éticos e políticos. Agora uma nova pesquisa mostra que é justamente o tempo antes do parto que decide o caminho de uma vida inteira.
Existem muitas teses, mas ninguém duvida hoje de que a conexão de feto–mãe é muito mais estreita do que se pensava até agora. “Nenhuma experiência é jamais esquecida”, diz Ludwig Janus, psicanalista e antigo presidente da “Internationalen Studiengemeinschaft für Pränatale und Perinatale Psychologie und Medizin” de Heidelberg. Médicos, psicólogos, parteiras e obstetras procuram, em colaboração, decifrar o segredo da vida antes do parto.
Que influências sofridas antes do parto podem levar a doenças ao longo da vida? Andreas Plageman, endocrinólogo do “Institut für Experimentelle Geburtsmedizin” da Berliner Charité, tenta provar que grávidas obesas transmitem como herança a seus filhos a tendência aos diabetes. Segundo ele, isso não tem nada a ver com os genes: É o metabolismo da mãe que faz com que os hormônios do feto já antes do parto estejam sendo programados para a obesidade e a doença.
Um novo estudo da Rockefeller-Universidade de Nova York mostra que os fetos que estão sendo alimentados com muita gordura através da mãe, desenvolvem células nervosas no cérebro que, na vida após o parto, fomentam a ansiedade por gordura.
Que o consumo de álcool e nicotina inibem o crescimento do feto, se sabe há muito tempo. Mas agora se sabe que, se uma grávida bebe ou fuma regularmente, não só o peso do nascituro é menor na hora do parto, de 300 a 1000 gramas em média; os estudos também mostram, que, mesmo que uma criança dessas esteja sendo muito bem alimentada após o parto, corre o risco dobrado de, dezenas de anos depois, adoecer de uma doença de coração ou de diabetes. Evelyna Derhovanessian, da Universidade de Tübingen, junto com outros 130 cientistas, procura investigar como o estresse na vida do feto muda o seu sistema da imunidade após o parto. O projeto espera ter respostas até o ano de 2011.
No “Plazentalabor” da Universidade de Jena estuda-se a causa da crescente infertilidade das mulheres e, ao mesmo tempo, as consequências de diversas carências no organismo da mãe para a saúde da criança. Se uma mãe, para não engordar durante a gravidez, come pouco demais, isso leva no feto a uma carência de Dopamina – e mais tarde ao Parkinson. Se a mãe sofre de falta de ferro, a criança mais tarde pode sofrer de asma.
Crianças que estão sendo amamentadas pela mãe sofrem menos de alergias mais tarde; o consumo de yogurte durante a gravidez também ajuda.
A questão de se o estilo de vida da mãe pode levar à esquizofrenia, à tendência à agressividade e à homossexualidade, ainda está em discussão. O perito Ludwig Janus diz que o que marca um feto também depende de suas bases genéticas. Mas ele tem a certeza de que a vida sentimental (emocional) da mãe também marca a vida sentimental (emocional) da criança. “Nós somos seres de relacionamentos – tudo que sabemos e podemos, aprendemo-lo somente através de contatos”, diz Janus. A aceitação ou não aceitação do feto é a primeira e fundamental experiência de relação deste ser. O feto não é somente ligado ao mundo sentimental (emocional) da mãe através do cordão umbilical, mas também através de todos os sentidos (olhos, ouvidos, nariz etc.) dela. Se ela tem medo, o coração dela bate mais rápido, os vasos sanguíneos se apertam, o útero se contrai. Assim o espaço vital do feto se estreita, recebe menos oxigênio. É por este caminho que o pai também tem influência sobre o feto.
Os fetos reagem a ruídos e vozes, a movimentos bruscos da mãe e os vivem como negativos. Mães que sofrem intenso estresse emocional na gravidez, muitas vezes têm crianças hiperativas ou com dificultade de concentração. Crianças não desejadas já no útero produzem bem menos oxitocina, o hormônio que ajuda nas relações interpessoais. Mesmo que estas crianças sejam adotadas por pais amorosos, eles pelo resto da vida têm oxitocina a menos, e, assim, menos habilidade para relações interpessoais. “A psicanálise trata do ser que já conhece a linguagem. Mas o grande desafio é a fase antes do parto, que nos marca definitivamente, e da qual nós não temos lembranças” diz Janus.
Crianças indesejadas têm mais medo na vida. Depressões, ataques de pânico e outras doenças muitas vezes já vêm da barriga da mãe, do tempo quando as redes de nervos são construídas, os hormônios são programados e o sistema imune é regulado.
O psicanalista Ludwig Janus ainda vê outras consequências: “A capacidade de uma interação social, a tendência para a criminalidade, mas também para pacificidade e empatia estão sendo ‘cunhadas’ na fase antes do parto.”
Conclusão minha (da tradutora): se isso é verdade, como se pode dizer que a vida humana somente começa após o parto???
(Traduzido e sintetizado por Irene Cacais de um artigo de Petro Thorbrietz, no “Der Spiegel”-online de 04 de janeiro de 2009)