O Futuro da Igreja – 1

 Anselmo Borges – DN 09.01.2016

Católico de fé assumida, diz-se “humanista cristão” e interroga-se sobre as inquietações do presente e o futuro do cristianismo. Do alto da sabedoria e da autoridade dos seus 92 anos, propõe, já na conclusão, uma série de reformas urgentes para a Igreja, que, dada a sua importância, apresento hoje e no próximo Sábado.

Antes dessa conclusão, Jean Delumeau atravessa, em síntese, os grandes temas das suas investigações científicas, no quadro da história das mentalidades, como:

  • o medo,
  • o pecado e a culpabilização,
  • a confissão,
  • o perdão,
  • o sentimento de segurança,
  • o paraíso e as suas imagens,
  • a Europa de hoje.

E deixa pensamentos sábios, que obrigam a reflectir. Assim, no contexto da imagem terrífica de Deus, que tem de ser revista, escreve:

“Hoje, os cristãos podem mais seguramente afirmar: ou os homens perdoam uns aos outros ou criaram e, ai!, criam já muitas vezes o inferno na terra.” Hoje, quando já vivemos numa aldeia planetária, “descobrimos que somos forçosamente solidários uns com os outros e, para não perecermos, estamos condenados a unir-nos e a erguer uma governança mundial que deveria ter os meios de ser obedecida”. “Constatou-se que o sentimento de insegurança – o “complexo de Dâmocles” – é causa de agressividade.”

No espaço dedicado ao paraíso terrestre reencontrado, refere que sobre Portugal se pôde escrever que

“a persistência do messianismo animando a mentalidade de um povo durante tanto tempo e conservando a mesma expressão é um fenómeno que, exceptuando a raça judaica, não tem equivalente na história”.

Apenas dei exemplos. Agora, algumas propostas de reforma da Igreja.

1. Um apontamento prévio quanto a “inventar o futuro”: a partir do seu caminho pessoal, à luz da história e seguindo e exprimindo as inquietações do nosso tempo, Delumeau foi levado a colocar a pergunta: “Qual é o futuro de Deus?”

Ora, quando se ergue o debate à volta da crise actual do cristianismo e da Igreja, na difícil dialéctica cristianização-descristianização, há o perigo de esquecer que, contra o que frequentemente se pensa, antes do século XIV, a Europa, segundo, G. Duby, não apresentava senão “as aparências de uma cristandade. O cristianismo não era plenamente vivido senão por raras elites.”

Lutero também escreveu: “Temo que haja mais idolatria agora do que em qualquer outra época.” Daí que Delumeau acentue a importância da actualização, também para se não cair em idealizações e dogmatismos. Por vezes, é preciso “desaprender”, não idealizar o passado.

2. Qual é o grande mal do cristianismo? A sua ligação ao poder. “Pelas suas consequências, uma das mais trágicas falsas vias para as Igrejas cristãs foi, depois do fim das perseguições, a ligação entre o poder imperial romano e a hierarquia eclesiástica, simbolizada e fortificada pela coroação de Carlos Magno pelo Papa.”

Não se deve esquecer que desde sempre tinha havido, no Império Romano e fora dele, ligação e amálgama entre os poderes religioso e político. Foram, por isso, necessários muitos séculos e conflitos incessantes para que “o religioso e o político aceitem por fim distanciar-se um do outro, num equilíbrio aliás instável e que é necessário reajustar continuamente”.

De qualquer modo, “desde o início do século IV, a Igreja tornou-se um poder”. Ora, “esta deriva perigosa”, que durante muito tempo só a poucos causou choque, ainda não terminou.

A Igreja Católica “tem atrás de si um grande e belo passado de escritos religiosos sublimes, inumeráveis iniciativas caritativas e múltiplas obras de arte. Realizou uma obra civilizadora grandiosa e mundial. Deu à humanidade legiões de santos e santas, canonizados ou não, incansavelmente dedicados ao serviço do próximo. Mas a sua grande fraqueza foi ter-se constituído em poder… Ora, é preciso que de ora em diante abandone o poder, pratique a humildade para poder de novo convencer e dar-se a si mesma estruturas mais flexíveis do que no passado e, portanto, capazes de evoluir. Porque é necessário hoje aceitar e dominar evoluções inevitáveis”.

Dever-se-á perguntar: como foi possível o movimento iniciado por Jesus ter hoje um Vaticano?! Seja como for, digo eu, a história é o que é e o que se impõe é uma revolução, para modos democráticos de governo eclesial, para a simplicidade, a transparência, o serviço. Cardeais e bispos não são “príncipes” nem podem viver como “faraós”, diz Francisco. E as nunciaturas só poderão justificar-se enquanto serviços humildes de pontes para o diálogo e a paz mundial.

Anselmo Borges

FONTE: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/o-futuro-da-igreja-4971045.html

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