Viagem do Papa Francisco à África

Discursos em Uganda e República Centro-africana (RCA)

1. ENCONTRO COM OS SACERDOTES, OS RELIGIOSOS, AS  RELIGIOSAS E OS SEMINARISTAS  EM KAMPALA .                 2. ENCONTRO COM A CLASSE DIRIGENTE E COM O CORPO DIPLOMÁTICO EM BANGUI (RCA)                                                   3. ENCONTRO COM AS COMUNIDADES EVANGÉLICAS.        4. EUCARISTIA COM SACERDOTES, CONSAGRADOS E LEIGOS COMPROMETIDOS -ABERTURA DA PORTA SANTA       5. FRANCISCO AOS JOVENS DE BANGUI: RESISTAM À GUERRA E À DIVISÃO!                                                                       6. PAPA EM CAMPO DE REFUGIADOS: “SOMOS TODOS IRMÃOS, POR ISSO QUEREMOS APAZ”

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ENCONTRO COM OS SACERDOTES, OS RELIGIOSOS, AS RELIGIOSAS E OS SEMINARISTAS

1.1 DISCURSO DE IMPROVISO DO SANTO PADRE

Catedral de St. Mary – Kampala (Uganda), sábado, 28 de novembro de 2015
Papa: Fidelidade significa seguir o caminho da santidade

Discurso do Santo Padre no encontro com os sacerdotes, os religiosos, as religiosas e os seminaristas, sábado, 28 de novembro

Deixarei, ao Bispo encarregado da vida consagrada, a mensagem que escrevi para vós, a fim de ser publicada.
Peço desculpa por voltar à minha língua materna, mas não sei falar bem o inglês.
Nesta noite, quero dizer-vos três coisas.

A primeira: no livro do Deuteronómio, Moisés lembra ao seu povo: «Não esqueçais».E repete-o várias vezes no livro: «Não esqueçais». Não esqueçais tudo aquilo que Deus fez pelo seu povo. Assim a primeira coisa que vos quero dizer é que tenhais, que peçais a graça da memória.

Como disse aos jovens, no sangue dos católicos ugandeses está misturado o sangue dos mártires. Não percais a memória desta semente, para que assim possais continuar a crescer. O principal inimigo da memória é o esquecimento, mas não é o mais perigoso. O inimigo mais perigoso de memória é habituar-se a herdar os bens dos nossos pais.

A Igreja no Uganda não deve jamais habituar-se a uma recordação distante dos seus mártires. Mártir significa testemunha. A Igreja no Uganda, para ser fiel a esta memória, deve continuar a ser testemunha. Não deve viver dos rendimentos. As glórias do passado foram o início, mas vós deveis construir as glórias futuras. E esta é a tarefa que a Igreja vos confia: sede testemunhas, como o foram os mártires que deram a vida pelo Evangelho.

Mas, para ser testemunha – é a segunda palavra que vos quero dizer –, é necessária a fidelidade. Fidelidade à memória, fidelidade à própria vocação, fidelidade ao zelo apostólico. Fidelidade significa seguir o caminho da santidade. Fidelidade significa fazer aquilo que fizeram as testemunhas anteriores: ser missionários.

Aqui no Uganda talvez haja dioceses que têm muitos sacerdotes, e dioceses que têm poucos; fidelidade significa oferecer-se ao Bispo para ir para outra diocese que precise de missionários. Isto não é fácil. Fidelidade significa perseverança na vocação. E aqui quero agradecer de maneira especial o exemplo de fidelidade que me deram as Irmãs da Casa da Caridade: fidelidade aos pobres, aos doentes, aos mais necessitados, porque neles está Cristo.

O Uganda foi irrigado pelo sangue dos mártires, das testemunhas. Hoje é necessário continuar a irrigá-lo; e por isso novos desafios, novas testemunhas, novas missões. Caso contrário, perdereis a grande riqueza que tendes, e a «pérola da África» acabará conservada num museu. É que o demónio ataca assim, pouco a pouco.

Estou a falar não só para os sacerdotes, mas também para os religiosos. Mas foi aos sacerdotes que quis referir de modo especial o problema da missionariedade: que as dioceses com muito clero o disponibilizem para aquelas que têm menos clero. Desta forma o Uganda continuará a ser missionário.

Uma memória, que significa fidelidade. E fidelidade, que só é possível com a oração. Se um religioso, uma religiosa, um sacerdote deixa de rezar ou reza pouco, porque diz que tem muito trabalho, já começou a perder a memória, já começou a perder a fidelidade. Oração, que significa também humilhação, a humilhação de ir regularmente ter com o confessor para lhe dizer os próprios pecados. Não se pode mancar com ambas as pernas.

Nós, religiosos, religiosas, sacerdotes, não podemos levar uma vida dupla. Se és pecador, se és pecadora, pede perdão; mas não tenhas escondido aquilo que Deus não quer; não tenhas escondida a falta de fidelidade.Não fechas no armário a memória.
Memória, novos desafios – fidelidade à memória – e oração. E a oração começa sempre por reconhecer-se pecador.

Com estas três colunas, a «pérola da África» continuará a ser pérola e não apenas uma palavra do dicionário. Os mártires, que deram força a esta Igreja, vos ajudem a continuar com a memória, a fidelidade e a oração.
E peço-vos, por favor, que não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado.

Agora convido-vos a rezar todos juntos uma Ave-Maria à Virgem Mãe: «Ave Maria…».

 

1.2 Discurso preparado pelo Santo Padre

Queridos religiosos,
Queridos seminaristas!

Estou feliz por estar convosco e agradeço as vossas cordiais boas-vindas. De modo particular, agradeço àqueles que falaram e deram testemunho das vossas esperanças e preocupações e sobretudo da alegria que inspira o vosso serviço ao povo de Deus no Uganda.

Alegro-me também por o nosso encontro ter lugar na véspera do primeiro Domingo do Advento, um tempo que nos convida a olhar para um novo começo. Preparamo-nos, também durante este Advento, para cruzar o limiar do Ano do Jubilar extraordinário da Misericórdia, que proclamei para toda a Igreja.

Aproximando-nos do Jubileu da Misericórdia, queria fazer-vos duas perguntas. A primeira: quem sois vós, como presbíteros ou futuros presbíteros e como pessoas consagradas? Em determinado sentido, a resposta é fácil: sois certamente homens e mulheres cujas vidas foram moldadas por um «encontro pessoal com Jesus Cristo» (Evangelii gaudium, 3).Jesus tocou os vossos corações, chamou-vos pelo nome e pediu-vos para O seguirdes, de coração indiviso, ao serviço do seu povo santo.

A Igreja no Uganda foi abençoada, na sua breve mas veneranda história, com um grande número de testemunhas – fiéis leigos, catequistas, sacerdotes e religiosos – que deixaram tudo por amor de Jesus: casa, família e, no caso dos mártires, a própria vida. Na vossa vida gasta tanto no ministério sacerdotal como na consagração religiosa, sois chamados a continuar esta grande herança, sobretudo através de actos simples de serviço humilde.

Jesus quer servir-Se de vós para continuar a tocar os corações de cada vez mais pessoas: quer servir-Se da vossa boca para proclamar a sua palavra de salvação, dos vossos braços para abraçar os pobres que Ele ama, das vossas mãos para construir comunidades de autênticos discípulos-missionários.

Oxalá nunca esqueçamos que o nosso «sim» a Jesus é um «sim» ao seu povo. As nossas portas, as portas das nossas igrejas, mas de modo especial as portas dos nossos corações devem permanecer constantemente abertas ao povo de Deus, ao nosso povo. Porque isso é o que nós somos.

A segunda pergunta que vos queria fazer nesta tarde é: Que mais sois chamados a fazer na vivência da vossa vocação específica? Porque há sempre algo mais que podemos fazer, mais uma milha a percorrer no nosso caminho.
O povo de Deus, antes, todos os povos anseiam por uma vida nova, pelo perdão e a paz.

Infelizmente, no mundo, existem tantas situações preocupantes que necessitam das nossas preces, a começar pelas realidades mais vizinhas. Rezo, antes de mais nada, pelo amado povo do Burundi, para que o Senhor suscite nas Autoridade e em toda a sociedade sentimentos e propósitos de diálogo e colaboração, de reconciliação e paz. Se é nosso dever acompanhar quem sofre, então devemos – à semelhança da luz que filtra através dos vitrais desta Catedral – deixar que a força sanadora de Deus passe por nós.

Em primeiro lugar, devemos deixar que as ondas de sua misericórdia manem sobre nós, nos purifiquem e restaurem, para podermos levar a mesma misericórdia aos outros, especialmente a quantos se encontram em tantas periferias geográficas e existenciais.

Bem sabemos, todos nós, como isto pode ser difícil! Há tanto trabalho a fazer. Ao mesmo tempo, a vida moderna oferece tantas distracções que podem obnubilar a nossa consciência, dissipar o nosso zelo e até atrair-nos para aquela «mundanidade espiritual» que corrói os fundamentos da vida cristã.

O esforço de conversão – conversão que é o coração do Evangelho (cf. Mc 1, 15) – deve ser mantido todos os dias, na luta por reconhecer e superar aqueles hábitos e formas de pensar que podem alimentar a preguiça espiritual. Temos necessidade de examinar a nossa consciência quer como indivíduos quer como comunidade.

Como já acenei, estamos a entrar no Advento, que é tempo dum novo começo. Na Igreja, gostamos de dizer que a África é o continente da esperança, e com boas razões. A Igreja, nestas terras, é abençoada com uma colheita abundante de vocações religiosas. Quero, nesta tarde, oferecer uma palavra especial de encorajamento aos seminaristas e noviços aqui presentes.

A vocação de Deus é uma fonte de alegria e um apelo a servir. Jesus diz-nos que «a boca fala da abundância do coração» (Lc 6, 45).Que o fogo do Espírito Santo purifique os vossos corações, para serdes testemunhas jubilosas e convictas da esperança que nos dá o Evangelho. Tendes uma belíssima palavra para anunciar. Que vós possais anunciá-la sempre, sobretudo com a integridade e a convicção que dimana da vossa vida.

Queridos irmãos e irmãs, a minha visita ao Uganda é breve, e hoje foi um dia longo! Mas considero o nosso encontro desta tarde a coroação deste dia belíssimo em que pude ir como peregrino ao Santuário dos Mártires Ugandeses, em Namugongo, e encontrar-me com muitíssimos jovens que são o futuro da nação e da Igreja. Na verdade, deixarei a África com grande esperança na colheita que a graça de Deus está a preparar no vosso meio!

Peço a cada um de vós para rezar por uma abundante efusão de zelo apostólico, por uma jubilosa perseverança na vocação que recebestes, e sobretudo pelo dom dum coração puro sempre aberto às necessidades de todos os nossos irmãos e irmãs. Desta forma, a Igreja no Uganda mostrar-se-á verdadeiramente digna da sua gloriosa herança e poderá enfrentar os desafios do futuro com firme esperança nas promessas de Cristo.

Recordar-me-ei de todos nas minhas orações, e peço-vos que rezeis por mim!
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ENCONTRO COM A CLASSE DIRIGENTE E COM O CORPO DIPLOMÁTICO

Resultado de imagem para Francisco na Republica centro-africanaDISCURSO DO SANTO PADRE
Palácio Presidencial de Bangui (República Centro-Africana), domingo, 29 de novembro de 2015

Senhora Chefe de Estado da Transição,
Distintas Autoridades,
Ilustres membros do Corpo Diplomático,
Dignos representantes das Organizações Internacionais,
Amados Irmãos Bispos,
Senhoras e Senhores!

Feliz por estar aqui convosco, quero em primeiro lugar manifestar o meu vivo apreço pela calorosa recepção que me reservastes e agradeço à Senhora Chefe de Estado da Transição pela sua amável saudação de boas vindas. Estou comovido, Senhora, pelo que acaba de dizer. Muito obrigado por este testemunho tão humano e tão cristão.

Deste lugar que, de certo modo, é a casa de todos os centro-africanos, tenho o prazer de exprimir, por seu intermédio e através das outras Autoridades do país aqui presentes, a minha estima e proximidade espiritual a todos os vossos cidadãos. Quero igualmente saudar os membros do Corpo Diplomático, bem como os representantes das Organizações Internacionais, cujo trabalho nos recorda o ideal de solidariedade e cooperação que deve ser cultivado entre os povos e as nações.

Com a República Centro-Africana que, não obstante as dificuldades, se encaminha gradualmente para a normalização da sua vida sociopolítica, piso pela primeira vez esta terra, depois do meu predecessor São João Paulo II. É como peregrino de paz que venho, e apóstolo de esperança que me apresento.

Por isso mesmo, me congratulo com os esforços feitos pelas várias Autoridades nacionais e internacionais, a começar pela Senhora Chefe de Estado da Transição, para guiar o país nesta fase.O meu desejo ardente é que as diferentes consultas nacionais que serão realizadas dentro de algumas semanas permitam ao país empreender serenamente uma nova fase da sua história.

Para iluminar o horizonte, temos o lema da República Centro-Africana, que reflecte a esperança dos pioneiros e o sonho dos pais fundadores: «Unidade – Dignidade – Trabalho». Hoje, mais do que ontem, esta trilogia exprime as aspirações de cada centro-africano e constitui, consequentemente, uma bússola segura para as Autoridades, que têm o dever de guiar os destinos do país. Unidade, dignidade, trabalho! Três palavras densas de significado, cada uma das quais representa seja um canteiro de obras seja um programa nunca concluído, um compromisso a executar constantemente.

Primeiro, a unidade. Esta é, como se sabe, um valor fulcral para a harmonia dos povos. Trata-se de viver e construir a partir da maravilhosa diversidade do mundo circundante, evitando a tentação do medo do outro, de quem não nos é familiar, de quem não pertence ao nosso grupo étnico, às nossas opções políticas ou à nossa confissão religiosa.

A unidade exige, pelo contrário, que se crie e promova uma síntese das riquezas que cada um traz consigo. A unidade na diversidade é um desafio constante, que requer criatividade, generosidade, abnegação e respeito pelo outro.

Depois, a dignidade. É precisamente este valor moral – sinónimo de honestidade, lealdade, garbo e honra – que caracteriza os homens e mulheres conscientes tanto dos seus direitos como dos seus deveres e que os leva ao respeito mútuo. Cada pessoa tem a própria dignidade.

Soube, com prazer, que a República Centro-Africana é o país do «Zo kwe zo», o país onde cada pessoa é uma pessoa. Então, que tudo se faça para tutelar a condição e a dignidade da pessoa humana. E quem tem os meios para levar uma vida decente, em vez de estar preocupado com os privilégios, deve procurar ajudar os mais pobres a terem, também eles, acesso a condições de vida respeitosas da dignidade humana, nomeadamente através do desenvolvimento do seu potencial humano, cultural, económico e social.

Por conseguinte, o acesso à instrução e à assistência sanitária, a luta contra a malnutrição e o empenho por garantir a todos uma habitação decente deveriam aparecer na vanguarda dum desenvolvimento cuidadoso da dignidade humana. Em última análise, a dignidade do ser humano é trabalhar pela dignidade dos seus semelhantes.

Por último, o trabalho. É pelo trabalho que podeis melhorar a vida das vossas famílias. São Paulo disse: «Não compete aos filhos entesourar para os pais, mas sim aos pais para os filhos» (2 Cor 12, 14). O esforço dos pais exprime o seu amor pelos filhos. E também vós, centro-africanos, podeis melhorar esta terra maravilhosa, explorando sensatamente os seus abundantes recursos.

O vosso país situa-se numa área considerada como um dos dois pulmões da humanidade, por causa da sua excepcional riqueza de biodiversidade. A tal propósito, a que já me referi na Encíclica Laudato si’, tenho particularmente a peito chamar a atenção de todos – cidadãos, responsáveis do país, parceiros internacionais e sociedades multinacionais – para a grave responsabilidade que vos cabe na exploração dos recursos ambientais, nas opções e projectos de desenvolvimento que, duma forma ou doutra, afectam a terra inteira.

O trabalho de construção duma sociedade próspera deve ser uma obra solidária. Desde há muito tempo que a sabedoria do vosso povo compreendeu esta verdade, traduzindo-a neste provérbio: «As formigas são pequenas, mas, em grande número, conseguem trazer a presa para o seu buraco».

É supérfluo, sem dúvida, sublinhar a importância crucial do comportamento e administração das Autoridades públicas. Estas deveriam ser as primeiras a encarnar, coerentemente, na sua vida os valores da unidade, da dignidade e do trabalho, para servir de modelo aos seus compatriotas.

A história da evangelização desta terra e a história sociopolítica do país dão testemunho do compromisso da Igreja na linha destes valores da unidade, da dignidade e do trabalho. Ao mesmo tempo que faço memória dos pioneiros da evangelização na República Centro-Africana, saúdo os meus irmãos Bispos que detém presentemente a responsabilidade daquela. Com eles, renovo a disponibilidade da Igreja presente nesta nação a contribuir cada vez mais para a promoção do bem comum, nomeadamente através da busca da paz e reconciliação.

Tenho a certeza de que as Autoridades centro-africanas actuais e futuras terão solicitamente a peito garantir à Igreja condições favoráveis ao cumprimento da sua missão espiritual. Assim ela poderá contribuir cada vez mais para «promover todos os homens e o homem todo» (Populorum progressio, 14), para usar a feliz expressão do meu predecessor, o Beato Paulo VI, que foi o primeiro Papa dos tempos modernos que, há cerca de 50 anos, veio à África encorajá-la e confirmá-la no bem ao despontar duma nova alvorada.

Por minha vez, quero neste momento congratular-me com os esforços envidados pela comunidade internacional, aqui representada pelo Corpo Diplomático e os membros de várias Missões das Organizações Internacionais. Encorajo-a vivamente a avançar sempre mais pelo caminho da solidariedade, fazendo votos de que a sua obra, unida à acção das Autoridades centro-africanas, ajude o país a progredir sobretudo na reconciliação, no desarmamento, na consolidação da paz, na assistência sanitária e no cultivo duma sã administração a todos os níveis.

Ao concluir, gostaria de reafirmar a minha alegria por visitar este país maravilhoso, situado no coração da África, pátria dum povo profundamente religioso, com um rico património natural e cultural. Nele vejo um país cumulado dos benefícios de Deus.

Possa o povo centro-africano, bem como os seus dirigentes e todos os seus parceiros apreciar, no seu justo valor, estes benefícios, trabalhando sem cessar pela unidade, a dignidade humana e a paz fundada na justiça. Deus vos abençoe a todos. Obrigado.
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ENCONTRO COM AS COMUNIDADES EVANGÉLICAS

(Lusa)

DISCURSO DO SANTO PADRE
Faculdade de Teologia Evangélica de Bangui [FATEB], República Centro-Africana, domingo, 29 de novembro de 2015

Queridos irmãos e irmãs!
Sinto-me feliz por ter ocasião de vos encontrar nesta Faculdade de Teologia Evangélica. Agradeço ao Decano da Faculdade e ao Presidente da Aliança dos Evangélicos na África Central as suas amáveis palavras de boas-vindas. Saúdo a cada um de vós e, por vosso intermédio, também a todos os membros das vossas comunidades, num profundo sentimento de amor fraterno. Estamos todos aqui ao serviço do mesmo Senhor ressuscitado, que hoje nos reúne; e, pelo Baptismo comum que recebemos, somos convidados a anunciar a alegria do Evangelho aos homens e mulheres deste amado país da África Central.

Há muito tempo que o vosso povo é atingido pelas provações e pela violência que causam tantos sofrimentos. Isto torna ainda mais necessário e urgente o anúncio do Evangelho. Porque é a carne do próprio Cristo que sofre, que sofre nos seus membros predilectos: os pobres do seu povo, os doentes, os idosos e os abandonados, as crianças que já não têm os pais ou estão abandonadas a si mesmas, sem guia nem educação. E são também todos aqueles que a violência e o ódio feriram na alma ou no corpo; aqueles que a guerra privou de tudo: do trabalho, da casa, das pessoas queridas.

Deus não faz diferença entre aqueles que sofrem. Com frequência, tenho designado isto como o ecumenismo do sangue. Todas as nossas comunidades, sem distinção, sofrem com a injustiça e o ódio cego que o diabo desencadeia; quero, nesta circunstância, exprimir a minha proximidade e a minha solidariedade ao Pastor Nicolas, cuja casa foi recentemente saqueada e queimada, bem como a sede da sua comunidade.

Neste contexto difícil, o Senhor não cessa de nos enviar para manifestar toda a sua ternura, a sua compaixão e a sua misericórdia. Este sofrimento comum e esta missão comum são uma oportunidade providencial para nos fazer avançar juntos pelo caminho da unidade, sendo, para isso mesmo, um meio espiritual indispensável. Como poderia o Pai recusar a graça da unidade, embora ainda imperfeita, aos seus filhos que sofrem juntos e que, nas mais diversas circunstâncias, se dedicam juntos ao serviço dos irmãos?

Queridos irmãos, a divisão dos cristãos é um escândalo, porque contrária, antes de mais nada, à vontade do Senhor. Mas é também um escândalo perante tanto ódio e tanta violência que dilaceram a humanidade, perante tantas contradições que levantam ao Evangelho de Cristo. Por isso, com apreço pelo espírito de respeito mútuo e colaboração que existe entre os cristãos do vosso país, encorajo-vos a avançar por este caminho num serviço comum da caridade. É um testemunho prestado a Cristo, que constrói a unidade.

Possais vós, em medida sempre maior e com coragem, juntar, à perseverança e à caridade, o serviço da oração e da reflexão em comum, procurando um melhor conhecimento recíproco, uma maior confiança e amizade rumo à plena comunhão de que conservamos a firme esperança.

Asseguro-vos que a minha oração vos acompanha neste caminho fraterno de serviço, reconciliação e misericórdia, um caminho longo mas cheio de alegria e esperança.

Peço ao Senhor Jesus que abençoe a todos vós, abençoe as vossas comunidades, abençoe também a nossa Igreja. E peço a vós que rezeis por mim. Muito obrigado!
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EUCARISTIA COM SACERDOTES, CONSAGRADOS E LEIGOS COMPROMETIDOS
ABERTURA DA PORTA SANTA

Catedral de Bangui (República Centro-Africana), domingo, 29 de novembro de 2015

Abertura da Porta Santa
Hoje, Bangui torna-se a capital espiritual do mundo. O Ano Santo da Misericórdia chega adiantado a esta terra; uma terra que sofre, há diversos anos, a guerra e o ódio, a incompreensão, a falta de paz. Mas, simbolizados nesta terra sofredora, estão também todos os países que estão passando através da cruz da guerra.

Bangui torna-se a capital espiritual da súplica pela misericórdia do Pai. Todos nós pedimos paz, misericórdia, reconciliação, perdão, amor… para Bangui, para toda a República Centro-Africana, para o mundo inteiro.

Para os países que sofrem a guerra, peçamos a paz; todos juntos, peçamos amor e paz. Todos juntos (em língua sango): «Doyé Siriri!» [todos repetem: «Doyé Siriri!»]
E, com esta oração, começamos o Ano Santo, hoje, aqui nesta capital espiritual do mundo!

Homilia do Papa Francisco na Santa Missa em Bangui

Neste Primeiro Domingo de Advento, tempo litúrgico da expectativa do Salvador e símbolo da esperança cristã, Deus guiou os meus passos até junto de vós, nesta terra, enquanto a Igreja universal se prepara para inaugurar o Ano Jubilar da Misericórdia. E sinto-me particularmente feliz pelo fato de a minha visita pastoral coincidir com a abertura no vosso país deste Ano Jubilar.

A partir desta Catedral, com o coração e o pensamento, quero alcançar afetuosamente todos os sacerdotes, os consagrados, os agentes pastorais deste país, que estão espiritualmente unidos conosco neste momento. Através de vós, quero saudar todos os centro-africanos, os doentes, as pessoas idosas, os feridos pela vida. Talvez alguns deles estejam desesperados e já não tenham força sequer para reagir, esperando apenas uma esmola, a esmola do pão, a esmola da justiça, a esmola dum gesto de atenção e bondade.

Mas, como os apóstolos Pedro e João que subiam ao templo e não tinham ouro nem prata para dar ao paralítico indigente, venho oferecer-lhes a força e o poder de Deus que curam o homem, fazem-no levantar e tornam-no capaz de começar uma nova vida, «passando à outra margem» (cf. Lc 8, 22).

Jesus não nos envia sozinhos para a outra margem, mas convida-nos a fazer a travessia juntamente com Ele, respondendo cada qual a uma vocação específica. Devemos, pois, estar cientes de que esta passagem para a outra margem só se pode fazer com Ele, libertando-nos das concepções de família e de sangue que dividem, para construir uma Igreja-Família de Deus, aberta a todos, que cuida dos mais necessitados. Isto pressupõe a proximidade aos nossos irmãos e irmãs, isto implica um espírito de comunhão.

Não se trata primariamente duma questão de recursos financeiros; realmente basta compartilhar a vida do Povo de Deus, dando a razão da esperança que está em nós (cf. 1 Ped 3, 15), sendo testemunhas da misericórdia infinita de Deus, que – como sublinha o Salmo Responsorial deste domingo – «é bom e (…) ensina o caminho aos pecadores» (Sal 25/24, 8).

Jesus ensina-nos que o Pai celeste «faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus» (Mt 5, 45). Depois de nós mesmos termos feito a experiência do perdão, devemos perdoar. Aqui está a nossa vocação fundamental: «Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste» (Mt 5, 48).

Uma das exigências essenciais desta vocação à perfeição é o amor aos inimigos, que protege contra a tentação da vingança e contra a espiral das retaliações sem fim. Jesus fez questão de insistir sobre este aspecto particular do testemunho cristão (cf. Mt 5, 46-47). Consequentemente os agentes de evangelização devem ser, antes de mais nada, artesãos do perdão, especialistas da reconciliação, peritos da misericórdia.

É assim que podemos ajudar os nossos irmãos e irmãs a «passar à outra margem», revelando-lhes o segredo da nossa força, da nossa esperança, e da nossa alegria que têm a sua fonte em Deus, porque estão fundadas na certeza de que Ele está connosco no barco.

Como fez com os Apóstolos na altura da multiplicação dos pães, é a nós que o Senhor confia os seus dons para irmos distribuí-los por todo o lado, proclamando a sua palavra que garante: «Eis que virão dias em que cumprirei a promessa favorável que fiz à casa de Israel e à casa de Judá» (Jr 33, 14).

Nos textos litúrgicos deste domingo, podemos descobrir algumas características desta salvação anunciada por Deus, que servem igualmente como pontos de referência para nos guiar na nossa missão. Antes de mais nada, a felicidade prometida por Deus é anunciada em termos de justiça.

O Advento é o tempo para preparar os nossos corações a fim de acolher o Salvador, isto é, o único Justo e o único Juiz capaz de dar a cada um a sorte que merece. Aqui, como noutros lugares, muitos homens e mulheres têm sede de respeito, justiça, equidade, sem avistar no horizonte qualquer sinal positivo.

Para eles, o Salvador vem trazer o dom da sua justiça (cf. Jr 33, 15). Vem tornar fecundas as nossas histórias pessoais e colectivas, as nossas esperanças frustradas e os nossos votos estéreis. E manda-nos anunciar sobretudo àqueles que são oprimidos pelos poderosos deste mundo, bem como a quantos vivem vergados sob o peso dos seus pecados: «Judá será salvo e Jerusalém viverá em segurança. Este é o nome com o qual será chamada: “Senhor-nossa justiça”» (Jr 33, 16). Sim, Deus é Justiça! Por isso mesmo nós, cristãos, somos chamados a ser no mundo os artesãos duma paz fundada na justiça.

A salvação que esperamos de Deus, tem igualmente o sabor do amor. Na verdade, preparando-nos para o mistério do Natal, assumimos de novo o caminho do povo de Deus para acolher o Filho que nos veio revelar que Deus não é só Justiça mas é também e antes de tudo Amor (cf. 1 Jo 4, 8). Em todos os lugares, mas sobretudo onde reinam a violência, o ódio, a injustiça e a perseguição, os cristãos são chamados a dar testemunho deste Deus que é Amor.

Ao encorajar os sacerdotes, as pessoas consagradas e os leigos que, neste país, vivem por vezes até ao heroísmo as virtudes cristãs, reconheço que a distância, que nos separa do ideal tão exigente do testemunho cristão, às vezes é grande. Por isso faço minhas, sob a forma de oração, estas palavras de São Paulo: «O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos» (1 Ts 3, 12). A este respeito, deve permanecer presente no nosso horizonte como um farol o testemunho dos pagãos sobre os cristãos da Igreja Primitiva: «Vede como se amam, amam-se verdadeiramente» (Tertuliano, Apologetico, 39, 7).

Por fim, a salvação anunciada por Deus reveste o carácter duma força invencível que triunfará sobre tudo. De facto, depois de ter anunciado aos seus discípulos os sinais tremendos que precederão a sua vinda, Jesus conclui: «Quando estas coisas começarem a acontecer, cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima» (Lc 21, 28). E, se São Paulo fala dum amor «que cresce e superabunda», é porque o testemunho cristão deve refletir esta força irresistível de que se trata no Evangelho.

Assim, é também no meio de convulsões inauditas que Jesus quer mostrar o seu grande poder, a sua glória incomparável (cf. Lc 21, 27) e a força do amor que não recua diante de nada, nem diante dos céus transtornados, nem diante da terra em chamas, nem diante do mar revolto. Deus é mais forte que tudo. Esta convicção dá ao crente serenidade, coragem e a força de perseverar no bem frente às piores adversidades. Mesmo quando se desencadeiam as forças do mal, os cristãos devem responder ao apelo, de cabeça erguida, prontos a resistir nesta batalha em que Deus terá a última palavra. E será uma palavra de amor e de paz.

A todos aqueles que usam injustamente as armas deste mundo, lanço um apelo: deponde esses instrumentos de morte; armai-vos, antes, com a justiça, o amor e a misericórdia, autênticas garantias de paz. Discípulos de Cristo, sacerdotes, religiosos, religiosas ou leigos comprometidos neste país de nome tão sugestivo, situado no coração da África e que é chamado a descobrir o Senhor como verdadeiro Centro de tudo o que é bom, a vossa vocação é encarnar o coração de Deus no meio dos vossos concidadãos.

Oxalá o Senhor nos torne a todos «firmes (…) e irrepreensíveis na santidade diante de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda de Nosso Senhor Jesus com todos os seus santos» (1 Ts 3, 13). Reconciliação, amor e paz! Amém!
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Francisco aos jovens em Bangui: resistam à guerra e à divisão!

Após abrir a Porta Santa e inaugurar o Jubileu da Misericórdia na República Centro-Africana, na noite de domingo (29/11), o Papa deu início à Vigília de Oração para a Missa que encerrará sua visita à África, na manhã da segunda-feira.
O Pontífice, antes de confessar alguns jovens no átrio da Catedral de Nossa Senhora, discursou de improviso à multidão que o aguardava diante da igreja para, ao final, enviar os jovens da África.

“A estrada que lhes é proposta neste momento difícil de guerra e divisão: a estrada da resistência. Fugir dos desafios da vida jamais é uma solução. É preciso resistir, ter a coragem para resistir e lutar pelo bem! Quem foge, não tem coragem de dar vida”.

Como podemos resistir? – Perguntou o Papa.
“Antes de tudo: a oração. A oração é poderosa. A oração vence o mal. A oração nos aproxima de Deus que é Todo-Poderoso”.
“Em segundo lugar: trabalhar pela paz. A paz não é um documento que se assina e fica na gaveta. A paz se faz todos os dias. A paz é um trabalho de artesãos, se faz com as mãos. Se faz com a própria vida”.

Mas como posso eu, ser um artesão da paz? – Questionou ainda o Pontífice.
“Não odiar, jamais! Se alguém te faz mal, procure perdoar. Nada de ódio. Muito perdão. Digamos juntos, nada de ódio, muito perdão!”
“Se você não tiver ódio no coração, se perdoares, serás um vencedor! Porque serás vencedor da mais difícil batalha da vida: vencedor no amor! E pelo amor, vem a paz”.
“Somente se vence pela estrada do amor. É possível amar o inimigo? Sim! Podemos perdoar quem nos fez mal? Sim! Assim, com o amor e com o perdão, vocês serão vencedores”.
“Com o amor, vocês serão vencedores na vida e darão vida sempre. O amor jamais fará de vocês derrotados. Corajosos no amor, no perdão e na paz!”

Ao dizer que estava muito contente de poder encontrar os jovens, Francisco finalizou:
“Hoje abrimos esta Porta, isto significa a Porta da Misericórdia de Deus. Confiem em Deus, porque ele é misericordioso. Ele é amor. Ele é capaz de dar a vocês a paz”.
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Papa em campo de refugiados: “Somos todos irmãos, por isso queremos a paz”

(Lusa)Por volta das 12h30 locais de domingo (29/11), o Papa visitou o Campo de Refugiados “Carmelo” de São Salvador, um dos cinco campos da capital da República Centro-Africana.

O campo da Paróquia de São Salvador, dividido em 12 bairros, abriga ao menos 7,5 mil pessoas, em grande parte crianças. Foram elas que receberam o Pontífice, com cantos e danças.
Uma refugiada fez uma rápida saudação ao Papa, a quem agradeceu pela presença e disse esperar que a visita possa trazer reconciliação para todo o país.
Francisco, por sua vez, improvisou algumas palavras.
“Nós temos que trabalhar para a paz. A paz sem amor, sem amizade, sem tolerância, sem perdão, não é possível. Cada um de nós deve fazer algo. Eu desejo a vocês e todos os centro-africanos, a paz. Uma grande paz entre vocês. Que vocês possam viver em paz qualquer que seja a etnia, a cultura, a religião, o estado social, mas em paz, porque todos somos irmãos. Eu gostaria que, todos juntos, repetíssemos. ‘Somos todos irmãos’. É por isso, porque todos somos irmãos, que queremos a paz”, concluiu.

Atualmente, cerca de 75 mil pessoas vivem em campos de refugiados no país, gravemente afetado pelo conflito civil de fundo religioso.
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