
Geraldo Frencken – Fortaleza
Considero ser amplamente relevante que estejamos atentos a um acontecimento que, neste próximo dia 16 de novembro, se deu há exatos cinquenta anos, quando um pequeno grupo de bispos, partícipes do Concílio Vaticano II (1962-1965), se reuniu nas Catacumbas de Domitila na cidade de Roma, a fim de celebrar um “Pacto” que orientaria as suas vidas individualmente, como a das Igrejas locais, a eles confiadas: foi firmado o “Pacto das Catacumbas”.
Um dos signatários deste “Pacto”, Dom Antônio Fragoso (1920-2006), à época bispo de Crateús (CE), signatário, testemunhou:
“A reforma tem que vir de dentro. E essa reforma interior, a fazer dentro dos corações, também se buscou ensaiar durante os anos em que durou o Concílio Vaticano II. E se dava mais nos bastidores do Concílio. Nós éramos um grupo de cerca de 30 bispos, alguns cardeais, que nos reuníamos, na parte da tarde, no Colégio Belga, para refletir sobre temas da atualidade como o da identidade de Jesus com os pobres. Quero entender o significado do que está escrito “Isto é o meu Corpo”, como entendemos isto com relação aos que passam fome, aos doentes, aos presos, aos estrangeiros: ‘aí estou eu’, ‘Eu sou isto’.
Tratava-se de dar consequência disto para a nossa vida pastoral e para a nossa espiritualidade, a partir desse entendimento da identidade de Cristo com os pobres. E, após quatro anos, por ocasião do encerramento do Concílio, buscamos firmar um pacto entre nós, de nos comprometermos mais firmemente com alguns pontos mais importantes dessa experiência. Então nos reunimos na Catacumba de Santa Domitila, para celebrar esse pacto, pelo qual nos comprometemos a fazer incidir em nossa vida pastoral a causa dos pobres.”
Além dos cerca de quarenta signatários presentes à celebração do “Pacto das Catacumbas”, muito outros bispos aderiram às recomendações e encaminhamentos do “Pacto”.

Não me proponho a fazer análises históricas e/ou teológicas acerca do impacto que este “Pacto” teve, ou não, na vida da Igreja. Desejo, porém, lançar umas perguntas, surgidas em meio a preocupações.
Pergunto-me se temos motivos claros e reais para acendermos as velas da festa dos cinquenta anos do “Pacto”. Há algo que me diz que ventos fortes e contrários ao “Pacto” já apagaram estas velas. E os ventos não perdem em intensidade. Pelo contrário. Torna-se necessário perguntarmo-nos o que sobrou deste “Pacto” para os dias de hoje e, em especial, nas práticas da Igreja atual. Marcelo Barros, em um artigo intitulado “Por Um Novo Pacto Das Catacumbas” (2013), observa:
“Então, é ótimo que, como pede o pacto das catacumbas, bispos e padres renunciem a todo sinal de pompa e poder e se tornem pobres com os pobres. Entretanto, é preciso ir além: precisamos estar junto dos pobres contra a pobreza injusta que não é do agrado de Deus e é responsável por muitas mortes e muitos sofrimentos na humanidade. Isso significa um passo que pastores como Dom Hélder Câmara e muitos bispos do seu tempo deram: superar preconceitos e dialogar com a parte da humanidade que procura a transformação social e tem fome e sede de justiça e de um mundo mais igualitário e livre.”
Penso que não podemos mais continuar fazendo vista grossa em relação às novas, isto é, ultrapassadas pompas eclesiais, praticadas em celebrações nos dias atuais, quando avistamos vestes litúrgicas deslumbrantes que “miss” alguma dispensaria e somos obrigados a escutarmos cânticos alienantes em assuntos de fé e vida, que, em muitos casos, privatizam Deus como “meu”: a ‘ego-cultura’ nos distancia da comunitariedade da nossa fé e do nosso Deus, que jamais deixará de ser “Pai Nosso”.
- Procuro encontrar – e não o consigo – um sentido evangélico na exagerada insistência no amplamente propagado dízimo – que, em geral, serve somente para a manutenção do patrimônio material a igreja -, como se fosse este o meio principal para os fiéis terem acesso definitivo às portas do céu: até a Eucaristia é “usada” para atrair mais dizimistas! Estas práticas não beiram ao mercantilismo e não nos levam a uma nova interpretação de ‘simonia’, que é a venda de bens espirituais?
- E o que dizer do acentuado esvaziamento das pastorais sociais, da falta de presença nas CEBs?
- E a triste constatação da Igreja quase não opinar mais – como também, muitas vezes, não lhe é pedido dar seu parecer – sobre questões que afligem a sobrevivência do povo, em especial na área da saúde, da educação, habitação e segurança?
- E o que dizer dos ataques ao Papa Francisco por parte de segmentos de dentro da Igreja, quando este clama por pastores que tenham “o cheiro de ovelha” e deseja um modelo de Igreja, tipo “um hospital de campanha sempre aberto para acolher quem lhe bata às portas e que deve procurar e acompanhar a humanidade de hoje não com portas fechadas, o que trairia a si mesma e a sua missão e que, em vez de ser uma ponte, se tornaria uma barreira”?
- Tudo isto não nos distancia do espírito do “Pacto das Catacumbas”? Não tem chegado a hora de nos perguntarmos de que lado estamos, tomarmos atitudes mais claras e deixarmos de aplaudir o que não merece aplausos?

Proponho, portanto, lermos esta carta que é o “Pacto das Catacumbas”. Segue o texto, como formulado em 16 de novembro de 1965. Quem sabe, talvez uma atenta e aprofundada leitura nos toque, nos dê coragem e sirva para alguma mudança e nos impulsione a realizar as mudanças necessárias a um cristianismo mais adulto e coerente com o Evangelho de Cristo.
Eis o texto do ‘Pacto’:
Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando, sobretudo, com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:
1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. (Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20).
2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). (Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6). Nem ouro nem prata.
3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. (Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s).
4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. (Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7).
5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor…). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. (Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15).
6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). (Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19).
7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. (Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4).
8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. (Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27).
9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. (Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s).
10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. (Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16).
11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:
– a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
– a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.
12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:
– esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;
– suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
– procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores…;
– mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. (Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10).
13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.
Ajude-nos Deus a sermos fiéis.
Gerard Frencken
Fonte: Enviado pelo autor: E-mail: gerardfrencken@ibest.com.br
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Nota da Redação:
Os bispos brasileiros signatários do pacto foram:Dom Antônio Fragoso, da Diocese de Crateús-CE,Dom João Batista da Mota e Albuquerque, arcebispo da Arquidiocese de Vitória, ES,o Pe. Luiz Gonzaga Fernandes sagrado bispo auxiliar de Vitória dias depois,Dom Jorge Marcos de Oliveira, da diocese de Santo André, SP,Dom Helder Camara, arcebispo de RecifeDom Henrique Golland Trindade, OFM, arcebispo da arquidiocese de Botucatu, SP,

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