O papa e a Cúria, um esforço gradual no caminho das reformas

20151022155208857211eToda reforma precisa de gradualidade e lutas. A reforma financeira não é a central do pontificado, mas Bergoglio está convencido de que não pode negligenciá-la pela saúde da máquina curial e por coerência com a sua mensagem.

A opinião é do historiador italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e ex-ministro da Itália, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 08-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os fatos das finanças vaticanas, com prisões, livros e documentos furtados, são um tema desproporcionalmente sensível para a opinião pública (e que faz “vender”). Há décadas, porém, personalidades sensíveis no Vaticano afirmam que algo está errado na administração.

Em 1959, um padre culto, Giuseppe De Luca, dizia ao cardeal Montini: “O círculo dos velhos abutres, depois do primeiro susto, volta… Esse círculo macabro se estreita”. De Luca escrevia para Montini, afastado para Milão: “Roma, que tu conheces e da qual fostes exilado, não mostra sinais de mudança”.

João XXIII reinava, há mais de meio século. Hoje, fala-se de corvos, não de abutres. E o setor mais interessado no voo de corvos são as finanças, a economia e o patrimônio.

O Papa Francisco, com decisão firme, está reformando esse setor, ramificado e estratificado. A sua decisão explica resistências, reações e ataques. O setor econômico, desde sempre, é o lado frágil da administração vaticana.

Livros históricos e escandalizados a esse respeito (novos e antigos) abundam. Muitas vezes, é difícil lê-los depois de algumas páginas. Desde o fim da Roma dos papas, romanos e italianos geriram as finanças vaticanas com sistemas caseiros e vínculos com a outra margem do Rio Tibre, em um clima um pouco de velho Estado Pontifício.

Os Pacelli, fiel família papal depois de 1870, não só deram Pio XII, mas também um mago das finanças papais, Ernesto. Era o mundo “romano” que Montini não gostava.

Os espíritos pensativos estavam convencidos de que a administração estava mal definida desde o nascimento do Estado Vaticano em 1929. Um futuro secretário de Estado, Tardini, em 1934, assim julgava as instituições do Vaticano de Pio XI: “Monumentais árvores de carvalho, antigas, ramificadas, frondosas, cujas bases junto à terra pululam de insetos de todas as qualidades e voracidades”.

Não lhe agradava a estruturação do Estado Vaticano: “A soberania do pontífice foi um bem. Mas foi um bem a organização dada a esse Estado, tão minúsculo e tão presunçoso, tão pobre e tão perdulário, tão liliputiano e tão saturado de empregados e onusto de salários? É propício à Santa Sé – instituição supranacional, espiritual, imensa – esse espetáculo de carreirismo, de idiotismo, de parasitismo, dado por aqueles que se aninham no tecido da Cidade vaticana?”.

Paulo VI, desde 1963, inovou a Cúria, mas também rompeu o circuito romano da gestão financeira. Deslocou da Itália uma parte dos recursos. Chamou um norte-americano ao IOR, Mons. Marcinkus. O que foi ruim para ele por causa dos vínculos deste com Sindona e Calvi.

Grande reformador, Montini não foi bem sucedido no sector econômico. O mesmo aconteceu com João Paulo II, que não inovou a máquina vaticana: “Se eu tivesse prestado atenção em tudo isso – disse – eu não teria feito tudo o que fiz na minha vida”. Os problemas econômicos não o interessavam.

Mas sérias questões de gestão se abriam não só no Vaticano, mas também no ambiente romano dos religiosos e das religiosas. Estes, a partir dos anos 1990, desmobilham propriedade em Roma. São operações, por vezes, sob a influência ou com o conselho de “abutres”, que também levam à venda ou a usos impróprios de espaços preciosos, diante da impotência da Congregação para os Religiosos e da autoridade diocesana. Chega-se a vendas incríveis: a casa generalícia dos Christian Brothers – mediante sociedades fantasmas – tornou-se o centro da Scientology em Roma. Muitas vezes, são casos de ingenuidade.

Pouca profissionalidade? “Maldição” do dinheiro? Francisco, acusado de pauperismo ou comunismo, toca um problema antigo de modo secular, correndo o risco das confusões: ele acredita que a Igreja pode gerir os recursos com justiça e equidade. Na estratificação de circuitos e poderes, não é fácil agir com corte linear nem encontrar sempre as pessoas certas. O papa vai por tentativa.

Dificuldades e crises virão à tona ainda. Toda reforma precisa de gradualidade e lutas. Essa não é a reforma central do pontificado, mas Bergoglio está convencido de que não pode negligenciá-la pela saúde da máquina curial e por coerência com a sua mensagem.

Autor: Andrea Riccardi

Fonte: www.unisinos.br

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