O caso do embaixador gay: Paris deixa “vacante” a sede vaticana

343Laurent Stefanini, atual chefe de protocolo do Palácio do Eliseu [sede do presidente francês], não será o embaixador da França junto à Santa Sé.O braço de ferro diplomático que dura desde o dia 5 de janeiro passado, dia da sua designação por parte de Paris, “acabou”, segundo o jornal Libération, ou, melhor, ninguém mais espera que um acordo seja encontrado: o Vaticano continuará não aceitando as credenciais de Stefanini, homossexual, e o Eliseu não vai indicar outros candidatos. Novamente, em relação aos meses passados, há o mútuo e tácito reconhecimento de que nada vai mudar enquanto Hollande estiver no Eliseu.

A reportagem é de Stefano Montefiori, publicada no jornal Corriere della Sera, 11-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A sede da Villa Bonaparte, no Vaticano, deverá permanecer vacante até 2017, quando irá expira o atual número 2, o encarregado de negócios Francois-Xavier Tillette, e quando vai se concluir o primeiro mandato (mas um segundo não está totalmente descartado) de François Hollande.

O ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve, estará em Roma no dia 18 de outubro, por ocasião da canonização dos pais de Santa Teresa de Lisieux, mas não se esperam grandes passos em relação à visita do próprio Cazeneuve ao Vaticano do dia 17 de maio, para a canonização de Jeanne-Emilie de Villeneuve. Cada um permanece nas suas posições. E, para não recuar indicando outro nome, a França aceita conduzir as relações com a Santa Sé em um nível inferior.

O paradoxo é que a nomeação do responsável pelo protocolo presidencial, Stefanini – “o melhor homem que se pode imaginar como embaixador francês para o Vaticano“, sempre disse o Eliseu –, cai justamente por motivos protocolares, mais do que substanciais. O problema não seria tanto, ou não só, a sua homossexualidade, mas sim o modo pelo qual a sua nomeação foi divulgada.

No dia 17 de abril passado, o Papa Francisco quis receber Stefanini na Casa Santa Marta para deixar claro que a recusa não estava ligada à sua pessoa. Se o Vaticano não aceita as credenciais, é porque Paris deu a impressão de considerar o “sim” da Santa Sé como um ato devido e óbvio.

A notícia de que o novo embaixador seria o estimado Stefanini começou a circular ainda quando o antecessor Bruno Joubert não tinha terminado o seu mandato e sem esperar a luz verde oficial da Santa Sé. Luz verde que, por esse motivo, não chegou e não vai chegar.

No pano de fundo, a questão do mariage pour tous, a lei francesa que autoriza o casamento dos homossexuais e que abriu a crise entre a França e o Vaticano. Os ambientes católicos franceses contrários ao casamento gay, que tinham saído às ruas aos milhares para protestar contra “o fim da família tradicional”, consideraram a escolha do homossexual Stefanini como uma provocação por parte de Hollande.

O presidente francês não quer ceder, porque a competência de Stefanini é indiscutível e porque, diz um conselheiro, “no dia em que uma monarquia do Golfo quiser que nomeemos um muçulmano polígamo, o que faremos?”.

Não é a primeira vez que a França se encontra em apuros com a sede diplomática no Vaticano. Em 2007-2008 o cargo permaneceu vago depois das recusas de Bento XVI em relação ao escritor Denis Tillinac, divorciado recasado, e de Jean-Loup Kuhn-Delforge (hoje embaixador na Grécia), homossexual militante.

Autor: Stefano Montefiori,

Fonte: www.unisinos.br

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