Os “Corvos”, a Igreja sobre a rocha e a Cúria na areia

Nestas circunstâncias, não sabemos quem eles são, e quantos eles são, os “Corvos” no Vaticano: certamente um pequeno bando. Por que eles agiram? Se (o condicional é obrigatório) o ftivessem feito por dinheiro, não seriam dignos a não ser de nosso desprezo, por sua covardia e traição. Parece, no entanto, que agiram por motivos de consciência: sendo testemunhas de fatos desconcertantes e tendo tido a oportunidade de visualizar documentos que comprovam lutas de poder na outra margem do rio Tibre, e constatando que – cobertas pelo véu de silêncio – estas manobras continuavam implacáveis, consideraram “em consciência” legítimo, e até mesmo necessário, violar o sigilo relacionado à sua função, para que a Igreja tomasse conhecimento. Em suma, num doloroso conflito de deveres, eles decidiram sacrificar sua palavra para ajudar a salvar a Igreja. Sendo assim, só podemos louvar a escolha deles.

Mas alguém já viu “corvos” que, sozinhos, tecem enredos de intrigas? Atrás do bando deve haver um a domesticador: alguém, ou melhor, um grupinho que está puxando as cordas. Esses registas, leigos ou (especialmente) eclesiásticos, porque eles agiram? Para “salvar a Igreja” ou por inveja e ciúme? Para o amor à verdade ou para sabotar carreiras alheias? Impossível, por enquanto, responder. Em qualquer caso, quaisquer que sejam suas intenções, é claro que visavam condicionar o próximo conclave, e, entretanto, o papa reinante.

Das cartas publicadas (autênticas, como o reconhece a própria Santa Sé), podemos deduzir a teia de poder que o Secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone, vem construindo para si durante esses anos; vêm-se a conhecer decisões autoritárias e, às vezes, fora de qualquer lógica – como a expulsão de Roma de Mons. Antonio Maria Viganó, que estava saneando o “Governadoria” – tomadas por Sua Eminência. Mas quem colocou o cardeal do topo da Cúria Romana? Bento XVI. E, após as “histórias” para dizer o mínimo desagradáveis, que vêem como epicentro Bertone, quem decidiu deixá-lo, ao menos por enquanto, em seu lugar? O Papa Ratzinger. E é claro que o próprio Pontífice aparece como o convidado de pedra que, ainda que indiretamente, muitas das cartas publicadas acusam. Não obstante, em 30 de maio, falando para o público em geral, ele “renovou” a sua confiança em seus “mais estreitos colaboradores”. Uma cobertura política e eclesial do trabalho de Bertone.

No entanto, além das pessoas e de suas possíveis limitações, parece-nos evidente como os acontecimentos vindos à tona demonstram que as contradições radicais estão precisamente na estrutura da Cúria Romana, que não mais se sustenta; e não se sustenta, porque não é impunemente que, como que se tem feito, se esvazia o legado do Concílio Vaticano II. Como é possível que, cinquenta anos depois do Concílio,ainda exista o cargo de “Secretário de Estado”? É possível que, durante todos estes anos se tenha tolerada a opacidade do IOR (Instituto para Obras de Religião) e que ainda hoje a sua real transparência seja só uma promessa nunca implementado? É possível que, apesar da vontade proclamada – expressa pelo Papa João Paulo II e reiterado pelo seu sucessor – de alterar os “modos de funcionamento” do primado petrino, sua implementação seja continuamente diferida?

Jesus disse um dia – e Bento XVI o recordou em 26 de maio: “A casa construída sobre a rocha” não será destruída pelas tempestades; um a “construída sobre a areia”, será destruída. Talvez ele estava se referindo à Igreja (qualquer igreja) que o Deus misericordioso mantém de pé apesar qualquer erro dele. Diz-se, no entanto, que a promessa diz respeito à Cúria Romana: o Tibre é arenoso.

 

Luigi Sandri*
Tradução do italiano: João Tavares

* Jornalista e Ensaísta

 

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