O sábado, festa da criação:uma perspectiva ética

Nós, cristãos, aprendemos desde sempre a celebrar o domingo como o dia do Senhor, o dia do Ressuscitado, a Páscoa que se atualiza e que nos renova.

Os judeus continuam a celebrar o shabat, o dia do repouso, o sétimo dia bíblico da criação.
Diferente dos judeus, porém, que observam religiosamente o sábado, nós pouca importância damos a essa observância do dia do Senhor. Conseguimos organizar nossa escala de valores de tal modo que o justo repouso, a dedicação à família, a participação na comunidade religiosa, quase sempre são trocados por outras coisas mais urgentes próprias da escassez de tempo pela vida que vivemos em sociedade.

E assim, o dia do Senhor transformou-se em mais um dia comum, como era comum assim viver nas sociedades pagãs. O trabalho, o ativismo, o lucrar sempre acabaram por empobrecer a vida humana.

Talvez seja necessário aparecer outro anjo como na Ascensão, para nos fazer olhar de novo para a Terra com aquele olhar de pessoas responsáveis por tudo o que aqui existe. E segundo a primeira narração bíblica da criação, no sétimo dia termina a criação do mundo: “Deus viu quanto havia feito, e era uma coisa muito boa” (Gen 1,31).
O que foi acrescido ao sétimo dia? O que faltava ainda a ser feito? A resposta para o cumprimento da criação estava no repouso de seu criador, o repouso que se transforma em bênção e santificação do sétimo dia. É o sábado da terra.

Todos os seres vivos e a própria terra devem repousar. Essa antiga e simples sabedoria judaica, nos ensina a conceber a natureza em si mesma como criação, e tal sabedoria se materializa na celebração do sábado, dia no qual o homem, os seus filhos, os seus servos, os seus animais, e também os estrangeiros no seu território devem repousar e celebrar o milagre de sua existência. Esses não devem somente repousar, mas devem deixar também repousar a natureza.

Podemos chamar a tudo isso de ecologia divina. É a casa, portanto, a primeira escola onde se aprende a respeitar o meio ambiente, a ecologia, a sustentabilidade da vida, a responsabilizar-se por todos os tipos de lixo que são criados. Uma casa que também é escola da palavra de Deus, ajuda a formar o homo sapiens a compor sua escala de valores sem deixar-se limitar simplesmente pelo homo faber.

Há uma mentalidade corrente que descansar é perder tempo, tempo é dinheiro, e o repouso é uma ação irresponsável para com o amanhã.

Se para nós cristãos, a celebração do sábado está endereçada para o domingo, dia do Senhor, vamos então celebrá-lo com o mesmo respeito e devoção. Vamos celebrar a festa da vida, com cantos de alegria, começando em nossas famílias, com todos os seres vivos, nossos irmãos e irmãs neste universo, junto ao nosso Criador.

Pe. Alquermes Valvasori – teólogo

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