Encontro das águas

Vida Religiosa Consagrada na Amazônia
Fazendo memória e construindo a história.

A Vida Religiosa Consagrada da e na Amazônia continua vivendo o desafio de, a exemplo das águas, encontrar córregos para encontrar-se e rever sua missão, pois se “as águas não se encontram, elas apodrecem e morrem”. Este “encontro de águas” da VR da Amazônia tem seu “período de cheias” (fenômeno que ocorre na Amazônia) uma vez por ano, em torno do mês de maio. Trata-se do encontro das Diretorias da CRB das Regionais de Porto Velho, Manaus e Belém. A cada ano novos canais são abertos para que as águas alcancem a fluidez almejada e realizem sua missão. As atuais diretorias regionais (2009-2012) navegaram nestas águas por três anos e, na festa da Ascensão do Senhor deste ano, ouviram a mensagem do anjo que dizia: homens da Galileia, por que estais olhando para o céu…?(At 1,11). Esta voz hoje fez novo eco em nossos ouvidos: “Homens e mulheres da Vida Religiosa Consagrada da Amazônia, o que estais olhando? Quais são os vossos sonhos e quais os horizontes que vocês precisam perseguir”?

Assim, dando continuidade ao “Encontro das Águas” das atuais diretorias – 2010 em Porto Velho, 2011 em Manaus, neste ano de 2012, em Belém/ PA,- nos dias 17 a 20 de maio estivemos reunidos mais uma vez para rever e projetar nosso itinerário de navegação. Desta vez a bússola indicava para a necessidade de olhar a História, focando a história da VRC na Amazônia. A celebração dos 40 anos do Documento de Santarém, fruto do encontro dos bispos da Amazônia, realizado em 1972, na cidade de Santarém, serviu de referência para a retomada de nossa missão nesta vasta Região, marcada pela presença de tantas pessoas que entregaram sua vida pela causa do Reino.

Nos dois primeiros dias, além das diretorias das três regionais, tivemos a participação de superiores maiores, religiosos e religiosas de Belém e do Amapá. Com o olhar vasculhando a História, iniciamos com uma visita ao local que nos abrigava: o Colégio Santo Antônio, das Irmãs Dorotéias da Frassinetti. O impacto da entrada já é grande: um prédio de mais de 300 anos e que atualmente funciona como Escola e residência das Irmãs. Ir. Maria Lúcia Câmara de Sousa (SSD) nos ajudou no resgate da história de toda a edificação. Por trás de cada parede, de cada coluna, de cada pedra ali assentada estavam as mãos de indígenas e de escravos africanos, bem como a engenharia dos Frades Capuchinhos, vindos da Europa. Mas também aquelas grossas paredes escondem esperanças, ousadia, projetos. Os primeiros religiosos que aqui chegaram eram portadores de grandes sonhos. Quais são os sonhos da VR hoje na Amazônia? Foi a pergunta que ficou ressoando no interior do claustro.

Irmã Tea Frigério, xaveriana, uma das assessoras do encontro, era a encarregada de ajudar a traçar o rosto da VR nestes 40 anos de pós Santarém. Com seu olhar crítico e feminista, sua alma mística e profética, após um belo momento místico e poético, fez uma leitura dos registros históricos e dos Documentos em pauta, evidenciando a invisibilidade da Vida Religiosa Consagrada ao longo de toda esta rica trajetória. Sempre presente na história de evangelização da Amazônia, sua presença e atuação ficaram no anonimato ou na invisibilidade. A identidade religiosa está sob o véu do presbítero ou do agente de pastoral e não se visibiliza o ser religioso, ser religiosa consagrada. Fica a convocação e interpelação de ler e escrever a história a partir do cotidiano, ajudar as águas dos pequenos igarapés também a se encontrarem. Fazer o exercício de nomear a Vida Religiosa, torná-la visível na rica história da Igreja da Amazônia.

Monsenhor Raimundo Possidônio Carrera da Mata, (Pe. Cid) historiador e “mergulhador de muitas águas”, com seu dia e meio de assessoria, ajudou a navegar na História da grande corrente do Rio Amazonas. Contextualizou a caminhada da Igreja na América Latina, no Brasil e na Amazônia, a partir dos maiores eventos e Documentos. Lembrou a fundação da CNBB em 1952 e ressaltou que a primeira Assembleia foi em Belém de 17 a 20 de agosto de 1953. Informou também que os Bispos da Amazônia faziam os seus encontros inter-regionais, periodicamente, sendo o quinto em Santarém em 1972, dando origem ao importante Documento que neste ano de 2012 completa 40 anos. Sob o impulso profético do Papa Paulo VI, a Igreja da Amazônia sentiu-se convocada e confirmada em sua identidade e missão. A frase emblemática de Paulo VI continua a ressoar ainda em nossos dias: Cristo aponta para a Amazônia.

Segundo Pe. Cid, o encontro de Santarém deu registro à certidão de nascimento da Igreja da Amazônia, assumindo então um rosto próprio. Os traços deste rosto foram bem delineados por duas diretrizes básicas: encarnação na realidade e evangelização libertadora, traços estes que marcaram profundamente também o rosto e a missão da VR neste vasto chão.

Este rosto fitou seu olhar em cinco direções ou cinco prioridades, todas elas marcadas pelas mãos ágeis e olhar missionário da VRC: Formação de agentes de pastoral, Comunidade Cristã de Base, Pastoral Indígena, Estradas e outras frentes pioneiras, Meios de Comunicação Social.

Ao celebrar os 40 anos deste “nascimento”, a VRC lança seu olhar sobre esta trajetória e observa que sua vida e missão foram profundamente influenciadas por este novo rosto e novo olhar. Hoje se pode afirmar que Santarém foi um divisor de águas na peregrinação da VRC em meio à pujança das matas, à suntuosidade das águas, à estradas sem fim, à aldeias e periferias de nossos povos, enfim, Santarém supõe uma Vida Religiosa mística e profética.

Concluindo, Pe. Cid dizia: Pisar o chão amazônico sem comprometer-se com sua história – dor e ressurreição – seria diminuir a força libertadora do seguimento radical de Jesus Cristo. Muitos passos ainda devem ser dados para que a Amazônia seja não só prioridade em muitos projetos de Ordens ou Congregações, que tomam decisões e fazem suas opções desde fora dessa realidade, para que amadureça e se plenifique uma verdadeira mudança no modo de se organizar a VR a partir daqui desse lugar; para que a inculturação, questão emblemática que dá seus primeiros passos, possa ser assumida de verdade, de modo maduro e responsável e se torne marca da encarnação efetiva e afetiva da VR Amazônica e se estabeleça cada vez mais uma verdadeira comunhão com seus interesses e sonhos do povo amazônico, não como “anexo”, mas como uma nova fundação da VR que sirva de paradigma para toda a Igreja.

Com este mergulho nas águas da história, a VR da Amazônia sente-se compelida a prosseguir na busca de fidelidade à sua vocação e missão neste chão. Assim, nos dias 19 e 20 os membros das Diretorias Regionais continuaram ouvindo alguns dos apelos mais contundentes: há que se buscar uma formação inicial e permanente mais adequada à VR da Amazônia. A questão do tráfico de pessoas em nossa realidade concreta é um clamor que chega a Deus e que reclama a presença profética da VRC. Queremos avançar na animação da VR e para tal nos vem a pergunta: que forma institucional deve ter uma regional de CRB? Como vamos sustentar nossas organizações? Temos necessidade de saber quem e quantas pessoas de VRC somos nesta imensa Amazônia, pois a solidão, o isolamento, o anonimato ameaçam nossa missão. Ainda não conseguimos mapear nossa presença e encontrar as brechas para que as “águas possam verdadeiramente se encontrar”.

Esperamos que a celebração dos 40 anos do Documento de Santarém reafirme o nosso compromisso como Igreja da Amazônia e nos dê um novo incentivo e ardor na nossa missão de consagrados e consagradas.

No envio que a Festa da Ascensão do Senhor nos faz, que Ele nos cumule de sabedoria, de força e de coragem.

Belém/PA, 20 de maio de 2012.
Diretorias da CRB da “Região das Águas”

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